Livros Espíritas
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A proibição de Moisés tinha a sua razão de ser, porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito, afeição ou piedade para com eles, sendo antes um meio de adivinhações, tal como nos augúrios e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. Essas práticas, ao que parece, também eram objeto de negócio, e Moisés, por mais que fizesse, não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares, como atestam as seguintes passagens do mesmo profeta: “Quando vos disserem: Consultai os mágicos e adivinhos que balbuciam encantamentos, respondei: Cada povo não consulta o seu Deus? E aos mortos se fala do que compete aos vivos?” (Isaías, 8:19.) “Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios mágicos; quem enlouquece os que se propõem adivinhar; quem transtorna o espírito dos sábios e confunde a sua ciência vã.” (44:25.) “Que esses adivinhos, que estudam o céu, contemplam os astros e contam os meses para fazer predições, dizendo revelar-vos o futuro, venham agora vos salvar. Eles se tornaram como a palha, e o fogo os devorou; não poderão livrar suas almas do fogo ardente; não restarão das chamas que soltarem, nem carvões que possam aquecer, nem fogo ao qual se possam sentar. Eis a que ficarão reduzidas todas essas coisas das quais vos tendes ocupado com tanto afinco: os traficantes que convosco traficam desde a infância foram-se, cada qual para seu lado, sem que um só deles se encontre que vos tire os vossos males.” (47:13 a 15.) Nesse capítulo Isaías dirige-se aos babilônios sob a figura alegórica da “virgem filha da Babilônia, filha de caldeus”. (Versículo 1.) Diz ele que os adivinhos não impedirão a ruína da monarquia. No capítulo seguinte ele se dirige diretamente aos israelitas: “Vinde aqui vós outros, filhos de uma agoureira, raça de um homem adúltero e de uma mulher prostituída. — De quem vos rides vós? Contra quem abristes a boca e mostrastes ferinas línguas? Não sois vós filhos perversos de bastarda raça — vós que procurais conforto em vossos deuses debaixo de todas as frontes, sacrificando-lhes os tenros filhinhos nas torrentes, sob os rochedos sobranceiros? Depositastes a vossa confiança nas pedras da torrente, espalhastes e bebestes licores em sua honra, oferecestes sacrifícios. Depois disso, como não se acender a minha indignação?” (57:3 a 6.) Estas palavras não deixam qualquer equívoco e provam claramente que nesse tempo as evocações tinham por fim a adivinhação, ao mesmo tempo que constituíam comércio, associadas às práticas da magia e do sortilégio, acompanhadas até de sacrifícios humanos. Moisés tinha razão, portanto, ao proibir tais coisas e afirmar que Deus as abominava. Essas práticas supersticiosas perpetuaram-se até a Idade Média, mas hoje a razão predomina e o Espiritismo veio mostrar o fim exclusivamente moral, consolador e religioso das relações de além-túmulo. Uma vez, porém, que os espíritas “não sacrificam criancinhas nem fazem libações para honrar deuses”; já que não interrogam astros, mortos e adivinhos para conhecerem o futuro que Deus, em sua sabedoria, ocultou aos homens; desde que repudiam traficar com a faculdade de comunicar com os Espíritos; e considerando-se que não os move a curiosidade nem a cupidez, mas um sentimento de piedade, um desejo de instruir-se e melhorar-se, aliviando as almas sofredoras, a proibição de Moisés não se aplica a eles. Se os que invocam a lei de Moisés contra os espíritas se tivessem dado ao trabalho de aprofundar o sentido das palavras bíblicas, teriam reconhecido que não existe qualquer analogia entre o que se passava entre os hebreus naquela época e os princípios do Espiritismo. Mais ainda: saberiam que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés. Na verdade, os seus adversários, na ânsia de encontrar argumentos com que rebatam as novas ideias, nem sequer se dão conta de que tais argumentos são negativos, por serem completamente falsos. A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés tinha em vista reprimir. Contudo, se o profeta pronunciou a pena máxima contra os delinquentes, é que lhe faltavam meios mais brandos para governar um povo tão indisciplinado, sendo esta a razão por que a pena de morte era tão utilizada na sua legislação. Aliás, não havia muito a escolher quanto aos meios de repressão. Sem prisões nem casas de correção no deserto, Moisés não podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias; além disso, o seu povo não se aterrorizaria com penas puramente disciplinares. Não têm, pois, razão os que se apoiam na severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos. Conviria, por respeito à lei de Moisés, manter a pena capital em todos os casos em que ele a aplicava? Por que, então, reviver com tanta insistência este artigo, silenciando ao mesmo tempo o princípio do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse de bens terrenos e partilhar de qualquer herança, porque o Senhor é a sua própria herança? (Deuteronômio, 18:1 e 2.)
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