Livros Espíritas
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Embora os resultados de nossa visita ao abismo fossem aparentemente mínimos, sentíamo-nos confortados e satisfeitos. De volta, ladeando pântanos e guardando a mesma severa atitude de vigilância, ao considerar possíveis surpresas do caminho, fizemos todo o trajeto em profundo silêncio. Aproximando-nos, porém, do instituto, após atravessar a zona perigosa, a Irmã Zenóbia tomou a palavra, agradecendo-nos em tom comovedor. Depois de carinhosas expressões de reconhecimento, acentuou, jubilosa: — Felizmente, nosso trabalho foi abençoado e profícuo. Os cooperadores novos estranharão, talvez, a minha afirmativa, lembrando, sem dúvida, que as faixas de salvamento voltaram vazias. No entanto, algo ocorreu de mais importante que a eventualidade de trazermos compulsoriamente conosco alguns irmãos infelizes. Refiro-me à semeadura das verdades eternas nos corações ignorantes, à ministração da esperança aos desalentados e tristes. Não somos apologistas da violência, mas semeadores do bem, e a base natural da colheita segura é a sementeira cuidadosa. Os ensinos edificantes lançados ao solo do entendimento abrem horizontes novos e claros à investigação mental dos necessitados e sofredores. Muitos deles, ainda esta noite, cultivarão os princípios renovadores recebidos, em processo intensivo no campo interno, e amanhã, provavelmente, estarão em condições vibratórias adequadas à internação em nosso asilo. Mais desejável para nós é que todos caminhem, utilizando os próprios pés, para que, de futuro, em meio dos serviços naturais da regeneração, não se declarem vitimados por ações de arrastamento. Em todos os lugares encontraremos a compaixão e a justiça de Deus. Sorriu, benevolente, e acrescentou: — A compaixão, filha do Amor, desejará estender sempre o braço que salva, mas a justiça, filha da Lei, não prescinde da ação que retifica. Haverá recursos da misericórdia para as situações mais deploráveis. Entretanto, a ordem legal do Universo cumprir-se-á, invariavelmente. Em virtude, pois, da realidade, é justo que cada filho de Deus assuma responsabilidades e tome resoluções por si mesmo. O esclarecimento era lógico e reconfortador. Desejaríamos a continuidade da argumentação; no entanto, acercávamo-nos da Casa Transitória, então à nossa vista. Alcançáramos as vizinhanças do átrio e admirei-me da movimentação em torno. Entidades numerosas iam e vinham. Quase todas penetravam a organização socorrista ou dela saíam, em grupos reduzidos. Velhos amparavam jovens que me pareciam indecisos, titubeantes. Crianças nimbadas de luz guiavam adultos de rosto sombrio, figurando-se carinhosos e pequeninos condutores de cegos. O quadro era formoso e enternecedor. Possivelmente, examinando a estranheza que se apossara de mim, adiantou-se a orientadora da instituição, explicando, atenciosa: — Nossos amigos da Crosta, parcialmente libertos da carne pela atuação do sono, afluem até aqui, todas as noites, trazidos por companheiros espirituais, com o fim de receberem socorros ou avisos necessários. A Casa oferece recursos aos encontros oportunos. Não consegui disfarçar a surpresa, ante a cena maravilhosa, contemplando, embevecido, o cuidado terno dos benfeitores desencarnados com todos aqueles que vinham dos Círculos terrestres mais densos. Atravessada a zona magnética de defesa, confundimo-nos com os passantes. Não longe de mim, interessante menino, que aparentava nove a dez anos de idade, revestido de gracioso halo de luz, guiava uma senhora de passos incertos. Parecia enferma, incapaz de autocontrole. O pequeno, porém, segurava-lhe firmemente a destra e, após saudar a Irmã Zenóbia, respeitoso, exclamou para a matrona hesitante: — Por aqui, mamãe! Por aqui! Venha sem medo. Ouvindo-o, a interpelada parecia acordar num sonho bom e gritava, semi-inconsciente: — Meu filhinho, meu filhinho! Não me deixes voltar. Quero-te sempre, sempre!… As expressões de meiguice misturavam-se a copioso pranto. Fixei-lhe os traços fisionômicos. A pobre mãe não nos enxergava. Seguia, acanhada e insegura de si. Seus olhos, que vertiam grossas lágrimas, permaneciam presos na contemplação da criança, revelando a suprema ternura de mãe, exausta de saudade, a reencontrar o objeto de seu amor, que parecera perdido para sempre. — Mamãe, caminhe! Não desfaleça! — Clamava o rapazinho, exultando de júbilo. — Já vou, meu filho! Eu te seguirei, leva-me contigo! — Tornava a palavra maternal, afogada em sublime emoção. Meus companheiros, habituados talvez, desde muito, ao espetáculo, conversavam, descuidados, entre si; todavia, segui, de olhos umedecidos, a criança carinhosa que amparava a sua mamãe, até que desapareceram através de uma das portas laterais. Não contive a surpresa que me dominava. Tocando o braço do padre Hipólito, indaguei: — Meu amigo, com que fim seguiriam a senhora e o menino? Esboçou ele significativo gesto de espanto e observou: — Não os vi. Falei-lhe, então, do quadro que tanto me enternecera, bordando meus informes de considerações afetivas. O ex-sacerdote sorriu compassivo e acrescentou: — Ora, André, são tantas mães e tantas crianças a transitarem por aqui!… Certamente, o filhinho, como tantos outros, conduz a genitora a gabinetes de auxílio. Não tive tempo para emitir novas impressões. Nosso grupo atingiu a porta de ingresso e dois amigos acercaram-se, solícitos. Tratava-se de Gotuzo e outro irmão com quem não havia entrado em contato pessoal. Saudaram-nos cortesmente. Logo após, dirigiu-se Gotuzo à diretora, informando-a de que os serviços de colaboração na Crosta, junto dos técnicos que organizavam algumas reencarnações expiatórias, haviam sido executados satisfatoriamente. Zenóbia agradeceu e convidou-os a partilhar das orações de louvor e gratidão ao Todo-Poderoso. Penetramos a Sala Consagrada, onde a orientadora tomou conhecimento das medidas levadas a efeito em sua rápida ausência e certificou-se de que todos os abrigados haviam comparecido à reunião geral de preces e auxílios magnéticos, realizada minutos antes. Sinais sonoros convocaram colaboradores à ação de graças. Zenóbia, delicada e ativa, dispôs-nos em torno de vasta mesa, ao fundo da qual se erguia uma tela transparente de grandes proporções. Admirável a comunhão da casa! Todos os dirigentes das variadas seções em que se subdividiam as atividades do instituto, encontravam-se presentes para a tarefa gratulatória. A diretora informou-nos, afável, que todas as noites se verificavam trabalhos de oração para os asilados e para o pessoal administrativo, salientando que, nesses últimos, se reunia em pessoa com todos os subchefes da organização que não se encontrassem inibidos por motivos de serviço. Naquela oportunidade, éramos ali trinta e cinco criaturas, presas ao doce magnetismo daquela mulher que tão bem sabia desempenhar a excelsa missão educativa. À cabeceira do grande móvel referido, cercado pelas poltronas confortáveis que ocupávamos em duas filas, sentou-se Zenóbia, radiante, mantendo-se de frente para a tela constituída de tecido diáfano, semelhando tenuíssima gaze. Trinta e cinco mentes, interessadas na aquisição de luz divina, uniam-se à dela, para as vibrações de reconhecimento e paz. Gotuzo, próximo de mim, entregou-se a profunda meditação. Solicitando-nos acompanhar-lhe mentalmente as palavras, a instrutora iniciou a oração comovente e sublime: — “Senhor da Vida: nossos corações transbordantes de júbilo te agradecem as bênçãos de cada dia! “Permite que nos reunamos, em teu nome, nesta noite bendita de felicidade e esperança, para manifestar-te nossa gratidão imperecível. “Não te rogamos, Senhor, vantagens e benefícios para nós outros, ricos que somos de tua luz e misericórdia, mas suplicamos ao teu coração augusto nos sejam concedidos os dons do equilíbrio e da equidade, para que saibamos distribuir nossa divina herança e não dissipemos, em vão, a glória de tuas dádivas. Fortifica-nos a noção de harmonia para sermos cooperadores leais de teus santos desígnios. “Erguemo-nos do abismo do passado, por tua bondade vigilante, e aqui nos encontramos para servir-te! Entretanto, Pai, vergados ao peso das inclinações humanas, por nós cultivadas com desvarios emotivos, durante milênios, não prescindimos de tua disciplina e de tua força paternal. Dá-nos o clima sadio da libertação de nós mesmos! Magnetizados pelas nossas recordações do pretérito, nem sempre te compreendemos a vontade soberana e criteriosa. Anula-nos o personalismo inferior para que a consciência do Universo nos esclareça o coração. Levanta-nos o raciocínio para mais alto entendimento; faze-nos vibrar no campo de teus Divinos Pensamentos! “Puseste em nossa boca o verbo construtivo, encheste-nos a alma de luz e tranquilidade, a fim de colaborarmos em tua obra. Deste-nos, neste pouso de amor fraterno, companheiros dedicados ao bem, e, em torno de nossa tarefa pequenina, colocaste a multidão dos aflitos e sofredores. “Ó Senhor! Como somos felizes pela possibilidade de ministrar em teu nome consolações e esclarecimentos! Contudo, nós te imploramos inspiração e roteiro, considerando as responsabilidades dos que te recebem a mordomia da salvação! Ensina-nos a agir desapaixonadamente; infunde-nos respeito pela autoridade que nos deste; ajuda-nos a desprender a mente das criações individuais, para que te sintamos mais de perto no esforço coletivo da elevação comum! E toda vez que nossos atos traduzam interferência indébita do livre arbítrio na execução de tuas leis, repreende-nos, severamente, para que não persistamos no desvio impensado.
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