Livros Espíritas
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A sexta mensagem encerra uma ideia perfeitamente verdadeira, ao explicar a obstinação de certos Espíritos na prática do mal. É mesmo de admirar como alguns deles são insensíveis à ideia e até ao espetáculo da felicidade de que gozam os Espíritos bons. É exatamente a situação dos homens degradados que se comprazem na depravação e nas práticas grosseiras e sensuais. Esses homens estão, por assim dizer, no seu ambiente; não concebem os prazeres delicados, preferindo farrapos andrajosos a vestes limpas e brilhantes, as festas de Baco aos prazeres das boas companhias, por se acharem assim bem mais à vontade. Esses Espíritos estão de tal modo identificados com esse gênero de vida, que isso se torna para eles uma segunda natureza; julgam-se mesmo incapazes de se elevarem acima da esfera que lhes é própria, razão por que aí permanecem até que radical transformação do ser lhes abra a inteligência, lhes desenvolva o senso moral e os torne acessíveis a sensações mais sutis. Esses Espíritos, quando desencarnados, não podem de uma hora para outra adquirir a delicadeza dos sentimentos e, durante um tempo mais ou menos longo, ocuparão as camadas inferiores do mundo espiritual, tal como acontece na Terra; assim permanecerão enquanto se mostrarem rebeldes ao progresso; porém, com o tempo, a experiência e as tribulações e misérias das sucessivas encarnações, chegará o momento de conceberem algo de melhor do que até então possuíam. Suas aspirações se elevam, começam a compreender o que lhes falta e se esforçam por regenerar-se. Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, porque experimentam uma satisfação que lhes parece bem superior, em comparação com as outras, que não passam de grosseiras sensações, acabando por inspirar-lhes repugnância. P. [A São Luís] – Que devemos entender por trevas em que se acham mergulhadas certas almas sofredoras? Serão aquelas tantas vezes referidas nas Escrituras? – R. Sim, são as trevas designadas por Jesus e pelos profetas, ao se referirem ao castigo dos maus. Isso, porém, não passava de alegoria destinada a ferir os sentidos materializados dos seus contemporâneos, os quais jamais poderiam compreender a punição de maneira espiritual. Certos Espíritos estão imersos em trevas, devendo-se, contudo, entender por isso uma verdadeira noite da alma comparável à obscuridade intelectual do idiota. Não é uma loucura da alma, porém uma inconsciência de si mesma e do que a rodeia, a qual se produz quer na presença, quer na ausência da luz material. É, principalmente, a punição dos que duvidaram do seu destino. Já que acreditaram no nada, as aparências desse nada os supliciam, até que a alma, caindo em si, quebra as malhas da inervação que a prostrava e envolvia, tal como o homem oprimido por penoso sonhar luta em dado momento, com todo o vigor das suas faculdades, contra os terrores que de começo o dominaram. Esta momentânea redução da alma a um nada fictício e consciente de sua existência é um sofrimento mais cruel do que se pode imaginar, em razão da aparência de repouso que a acomete; é esse repouso forçado, essa nulidade do ser, essa incerteza que lhe fazem o suplício. O aborrecimento que a invade é o mais terrível dos castigos, visto não perceber coisa alguma em torno de si, nem coisas, nem seres; para ela são verdadeiras trevas. São Luís [Claire] – Eis-me aqui. Também posso responder à pergunta relativa às trevas, pois vaguei e sofri por muito tempo nesses limbos onde tudo é soluço e misérias. Sim, existem as trevas visíveis de que falam as Escrituras, e os infelizes que deixam a vida, ignorantes ou culpados, são imersos na fria região, inconscientes de si mesmos e do seu destino. Acreditando na perenidade dessa situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu, e admiram-se e espantam-se da profunda solidão; são, portanto, lugares de trevas, povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços em que erram obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem afeições, sem socorro de espécie alguma. A quem se dirigirem, se sentem a eternidade, esmagadora, sobre eles? Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que lhes mediam as horas; deploram a ausência das noites que, muitas vezes, lhes traziam num sonho feliz o esquecimento dos pesares. Para o Espírito, as trevas são a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido... Não posso continuar... Claire Ainda sobre este ponto obtivemos a seguinte explicação: “Por sua natureza, o perispírito possui uma propriedade luminosa que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma. Poder-se-ia dizer que essas qualidades estão para o fluido perispirítico como a fricção para o fósforo. A intensidade da luz é diretamente proporcional à pureza do Espírito, de sorte que as menores imperfeições morais a atenuam e enfraquecem. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva quanto maior for o seu adiantamento. Sendo o Espírito, de algum modo, o seu próprio farol, verá mais ou menos segundo a intensidade da luz que produz, de onde se conclui que os Espíritos que não a produzem acham-se na obscuridade.” Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação de fluidos luminosos pelos Espíritos superiores e é confirmada pela observação, embora não pareça ser a verdadeira causa, ou, pelo menos, a única causa do fenômeno; primeiro, porque nem todos os Espíritos inferiores estão em trevas; segundo porque um mesmo Espírito pode achar-se alternadamente na luz e na obscuridade; e terceiro porque a luz também é castigo para os Espíritos muito imperfeitos. Se a obscuridade em que estão imersos certos Espíritos fosse inerente às suas personalidades, essa obscuridade seria permanente e geral para todos os Espíritos maus, o que, aliás, não acontece, visto que Espíritos da mais requintada perversidade veem perfeitamente, ao passo que outros, que assim não podem ser qualificados, jazem, temporariamente, em trevas profundas. Tudo indica, portanto, que além da luz que lhes é própria, os Espíritos recebem uma luz exterior que lhes falta segundo as circunstâncias. Conclusão: a obscuridade depende de uma causa ou de uma vontade estranha, constituindo punição especial da Soberana Justiça, para casos determinados. P. [A São Luís] – Qual a causa de a educação moral dos Espíritos desencarnados ser mais fácil que a dos encarnados? As relações que o Espiritismo estabelece entre homens e Espíritos levam a crer que estes últimos se corrigem mais rapidamente sob a influência dos conselhos salutares do que os encarnados, como se vê na cura das obsessões. R. [Sociedade de Paris] – Em virtude de sua própria natureza, o encarnado está numa luta incessante devido aos elementos contrários de que se compõe e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial, reagindo um sobre o outro. A matéria sofre facilmente o predomínio de um fluido exterior; se, com todo o poder moral de que é capaz, a alma não reagir, deixar-se-á dominar por intermédio do seu corpo, seguindo o impulso das influências perversas que a rodeiam, e isso com facilidade tanto maior quanto os invisíveis, que a subjugavam, atacam de preferência os pontos mais vulneráveis, as tendências para a paixão dominante. Não ocorre a mesma coisa com o Espírito desencarnado, porquanto, embora sob a influência semimaterial, não se compara por seu estado ao encarnado. O respeito humano, tão preponderante no homem, não existe para aquele, e só este pensamento é bastante para compeli-lo a não resistir longamente às razões que o próprio interesse lhe aponta como boas. Ele pode lutar, e o faz geralmente com mais violência do que o encarnado, visto ser mais livre. Nenhuma cogitação de interesse material, nem de posição social, se antepõe ao seu raciocínio. Luta por amor do mal, mas cedo adquire a convicção da sua impotência, em face da superioridade moral que o domina. A perspectiva de um futuro melhor lhe é mais acessível, por se reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse futuro; e essa visão não se turva no turbilhão dos prazeres humanos. Em uma palavra, a independência da carne é que facilita a conversão, principalmente quando se tem adquirido certo desenvolvimento pelas provações cumpridas. Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao raciocínio, o que não se dá com o que já tem experiência da vida. Ademais, no encarnado como no desencarnado, é sobre a alma, é sobre o sentimento que se deve agir. Qualquer ação material pode sustar momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso, mas é incapaz de destruir o princípio mórbido que reside na alma. Todo e qualquer ato que não vise a aperfeiçoar a alma, não poderá desviá-la do mal. São Luís
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