Livros Espíritas
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Voltemos aos espelhos mágicos. A palavra magia, que outrora significava ciência dos sábios, perdeu sua significação primitiva devido ao abuso que dela fizeram a superstição e o charlatanismo. Está hoje desacreditada com razão e cremos difícil reabilitá-la, por achar-se, desde então, ligada à idéia das operações cabalísticas, dos formulários de feiticeiros, dos talismãs e de uma imensidão de práticas supersticiosas, condenadas pela sã razão. Declinando de toda solidariedade com essas pretensas ciências, o Espiritismo deve evitar apropriar-se de termos que possam falsear a opinião no que lhe diz respeito. No caso de que se trata, a qualificação de mágico é tão imprópria quanto a de feiticeiros, atribuída aos médiuns. A designação desses objetos sob o nome de espelhos espirituais parece-nos mais exata, porque lembra o princípio em virtude do qual se produzem os efeitos. À nomenclatura espírita podemos, pois, juntar os nomes de visão espiritual, sentido espiritual e espelhos espirituais. Posto que a natureza, a forma e a substância desses objetos são coisas indiferentes, compreende-se que indivíduos dotados da visão espiritual vejam na borra de café, na clara dos ovos, na palma das mãos e nas cartas o que outros vêem num copo de água, dizendo, por vezes, coisas certas. Esses objetos e suas combinações não têm qualquer significado; são apenas um meio de fixar a atenção, um pretexto para falar, a bem dizer um suporte, pois é de notar que, no caso, o indivíduo apenas os olha, apesar de julgar faltar-lhe algo, se não os tiver à frente; ficaria desorientado, como ficaria o nosso homem, caso não tivesse o seu copo na mão; teria dificuldade para falar, como certos oradores que nada sabem dizer se não estiverem em seu lugar habitual, ou se não tiverem na mão um caderno, embora não o leiam. Mas se há algumas pessoas sobre as quais esses objetos produzem o efeito de espelhos espirituais, há também muita gente que, não tendo outra faculdade senão a de ver pelos olhos, e possuir a linguagem convencional afetada a esses sinais, iludem os outros ou a si mesmos; depois a igualmente numerosa multidão dos charlatães, que exploram a credulidade. Só a superstição pôde consagrar o uso de tais processos, como meio de adivinhação e de uma porção de outros, que não têm mais valor, atribuindo uma virtude a palavras, uma significação a sinais materiais, a combinações fortuitas, sem qualquer ligação necessária com o objeto da pergunta ou do pensamento. Dizendo que com a ajuda de tais processos certas pessoas podem, às vezes, dizer verdades, não é nosso propósito reabilitá-las na opinião pública, mas mostrar que as idéias supersticiosas por vezes têm sua origem num princípio verdadeiro, desnaturado pelo abuso e pela ignorância. O Espiritismo, ao tornar conhecida a lei que rege as relações entre o mundo visível e o mundo invisível, destrói, por isso mesmo, as idéias falsas que se tinham feito sobre tais relações, como a lei da eletricidade destruiu, não o raio, mas as superstições engendradas pela ignorância das verdadeiras causas do raio. Em síntese, a visão espiritual é um dos atributos do Espírito e constitui uma das percepções do sentido espiritual; por conseguinte, é uma lei da Natureza. Sendo o homem um Espírito encarnado, possui os atributos do Espírito e, portanto, as percepções do sentido espiritual. Em estado de vigília essas percepções geralmente são vagas, difusas e, por vezes, até insensíveis e inapreciáveis, porque amortecidas pela atividade preponderante dos sentidos materiais. Todavia, pode dizer-se que toda percepção extracorpórea é devida à ação do sentido espiritual que, no caso, supera a resistência da matéria. Em estado de sonambulismo natural ou magnético, de hipnotismo, de catalepsia, de letargia, de êxtase e, mesmo, no sono ordinário, estando os sentidos corporais momentaneamente adormecidos, o sentido espiritual se desenvolve com mais liberdade. Toda causa exterior tendente a entorpecer os sentidos corporais provoca, por isto mesmo, a expansão e a atividade do sentido espiritual. As percepções pelo sentido espiritual não estão isentas de erro, desde que o Espírito encarnado pode ser mais ou menos adiantado e, conseqüentemente, mais ou menos apto a julgar as coisas sensatamente e compreendê-las, e porque ainda sofre a influência da matéria. Uma comparação fará melhor compreender o que se passa nesta circunstância. Na Terra, aquele que tem melhor visão pode ser enganado pelas aparências. Por muito tempo o homem acreditou no movimento do Sol. Necessitava da experiência e das luzes da Ciência para mostrar-lhe que era joguete de uma ilusão. Assim, há Espíritos pouco adiantados, encarnados ou desencarnados, que ignoram muitas coisas do mundo invisível, como sucede, aliás, com certos homens inteligentes, que ignoram muitas coisas da Terra; a visão espiritual só lhes mostra o que sabem e não basta para lhes dar os conhecimentos que lhes faltam; daí as aberrações e as excentricidades que se nota com tanta freqüência nos videntes e nos extáticos, sem contar que sua ignorância os põe, mais que outros, à mercê dos Espíritos enganadores, que lhes exploram a credulidade e, mais ainda, o seu orgulho. Eis por que haveria imprudência em aceitar suas revelações sem controle. Não se deve perder de vista que estamos na Terra, num mundo de expiação, onde abundam os Espíritos inferiores e onde os Espíritos realmente superiores são exceções. Nos mundos adiantados dá-se exatamente o contrário. As pessoas dotadas de visão espiritual podem ser consideradas médiuns? Sim e não, conforme as circunstâncias. A mediunidade consiste na intervenção dos Espíritos; o que se faz por si mesmo não é um ato mediúnico. Aquele que possui a visão espiritual vê pelo seu próprio Espírito e nada implica a necessidade do concurso de um Espírito estranho; ele não é médium porque vê, mas por suas relações com outros Espíritos. Conforme sua natureza boa ou má, os Espíritos que o assistem podem facilitar ou entravar sua lucidez, lhe fazer ver coisas justas ou falsas, o que também depende do objetivo a que se propõe e da utilidade que possam apresentar certas revelações. Aqui, como em todos os outros gêneros de mediunidade, as questões fúteis e de curiosidade, as intenções não sérias, os objetivos cúpidos e interesseiros, atraem os Espíritos levianos, que se divertem à custa das pessoas excessivamente crédulas e se comprazem em mistificá-las. Os Espíritos sérios só intervêm nas coisas sérias, e o vidente mais bem dotado nada verá se não lhe for permitido responder ao que perguntam, ou ser perturbado por visões ilusórias, a fim de punir os curiosos indiscretos. Embora possua sua própria faculdade, e por mais transcendente que ela seja, nem sempre é livre para usá-la à vontade. Muitas vezes os Espíritos lhe dirigem o emprego e, se dela abusa, será o primeiro punido pela intromissão dos Espíritos maus. Resta um ponto importante a esclarecer: o da previsão de acontecimentos futuros. Compreende-se a visão das coisas presentes, a visão retrospectiva do passado; mas como pode a visão espiritual dar a certos indivíduos o conhecimento do que ainda não existe? Para não nos repetirmos, aludimos ao nosso artigo do mês de maio de 1864, sobre a teoria da presciência, onde a questão é tratada de maneira completa. Apenas acrescentaremos algumas palavras. Em princípio, o futuro é oculto ao homem por motivos tantas vezes já expostos; só excepcionalmente lhe é revelado e, além disso, ele é mais pressentido do que predito. Para o conhecer, Deus não deu ao homem nenhum meio certo. É, pois, em vão que este emprega, para tal finalidade, uma imensidão de processos inventados pela superstição, e que o charlatanismo explora em seu proveito. Se, por vezes, entre os ledores de buena-dicha, profissionais ou não, alguns são dotados da visão espiritual, é de notar que vêem no passado e no presente com uma freqüência muito maior que no futuro. Seria, pois, uma imprudência confiar de maneira absoluta em suas predições e, em conseqüência, regular sua conduta.
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