Livros Espíritas
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Enfim, numa audiência que lhe concede o coronel Alexandre, o Grande, no círculo dos oficiais, o antigo conquistador lhe expõe um projeto de congresso internacional universal, encarregando-o de o propor à Terra, a fim de estabelecer, para sempre, em nosso globo, a paz, a concórdia e a fraternidade. “Meu coronel, exclama Pamphile entusiasmado, vosso projeto é tão lógico, parece-me de tal modo indispensável e a idéia em si é tão natural, que me parece que assim que for conhecido na Terra todos dirão: Como é possível que não se tenha pensado mais cedo em estabelecer um congresso universal? “Em que pese a esperança do bom cabo, duvidamos que os diferentes governos do nosso planeta se apressem em acolher o projeto de Alexandre; mas o congresso da paz, que se reunirá em Berna em setembro próximo, não pode deixar de o levar em consideração. Nós o recomendamos especialmente ao relator encarregado de estudar qual poderia ser a constituição dos Estados Unidos da Europa.” 36 E.-D. de Biéville Se o Sr. Victor Dazu (por certo esse nome deve ser um pseudônimo) inspirou-se na Pluralidade dos Mundos Habitados, do Sr. Flammarion, do qual se declara leitor assíduo, também respigou largamente nas obras espíritas. Salvo o quadro de que se serviu, sua teoria filosófica das penas futuras, da pluralidade das existências, do estado dos Espíritos desprendidos do corpo, da responsabilidade moral, etc., evidentemente é colhida na Doutrina Espírita, da qual não só reproduz a idéia, mas, muitas vezes, até a forma. As passagens seguintes não podem deixar dúvida sobre este ponto: “Tu sonhas, meu amigo, pensei eu; tu sonhas! Todos esses soberanos da Terra, que recomeçam uma nova existência no planeta Marte, esse gênio diáfano e de asas azuis, tudo isto cheira a Espiritismo... E, contudo, quando estás desperto, não acreditas nessa invenção. Depois, dirigindo-me a Francisco I, eu lhe disse: “– Major, vem-me ao espírito uma idéia singular; esta idéia me faz supor que tudo quanto vejo e tudo quanto ouço, desde que aqui cheguei, não passa do efeito de um sonho. Dizei, por favor, a vossa opinião. Pensais, como eu, que eu sonho? “– Mas não! não sonhais, respondeu-me Francisco I com um ar tão indignado como se eu lhe tivesse feito uma pergunta muito estúpida. Não, não sonhais! Se sonhásseis, desfilariam diante do vosso espírito uma porção de quimeras sem pé nem cabeça. Os acontecimentos de que sereis testemunha não teriam entre si nenhuma relação razoável. “– Mas não é tudo, major. O que ainda me faz crer que sonho, é que me apalpei e não encontrei o corpo... Apalpo-me ainda agora, e também não me encontro. Todavia, sinto-me viver e me vejo braços e pernas. Desnecessário dizer que sendo impalpáveis esses braços e pernas, não passam de aparências fantásticas. Eu bem poderia explicar essas aparências, mas para isto seria preciso, a mim que não creio no Espiritismo, admitir certa teoria espírita que, verdadeira ou falsa, é, em todo o caso, muito engenhosa. “Essa teoria pretende que o Espírito de um corpo é rodeado de um perispírito, isto é, de um invólucro semimaterial, que pode tomar a forma desse corpo e tornar-se visível em certos casos. Uma vez admitido o perispírito, a mesma teoria pretende que um indivíduo pode ser visto algumas vezes e no mesmo instante em dois lugares, mesmo muito afastados um do outro, o corpo dormindo num lugar e a aparência do corpo, isto é, o perispírito, agindo em outra parte. “Se esta asserção é verdadeira, eu estaria pondo em prática a teoria de que acabo de falar. Poder-se-ia ver neste momento meu corpo a dormir em Paris, enquanto vedes o meu perispírito como se fosse o meu corpo. Mas eu só acreditaria numa coisa tão extraordinária se ela fosse provada. “Seria ainda adotar o Espiritismo, que admite como real essa reunião de potentados, realizada aqui, como pretendem, para expiar os erros que cometeram quando estavam na Terra. “– Se quiserdes, disse-me Francisco I, não acrediteis no que tendes diante dos olhos. Suponde por um momento que, em vez de estar neste planeta, estejais no domínio ideal da razão, e dizei-me se acreditais que os homens que fazem o mal, seja qual for a sua posição na sociedade, podem estar isentos do purgatório depois de sua vida terrena? – Major, não sei que responder. – Mas eu sei o que pensais. Pensais que o purgatório existe, não importa onde, mas apenas para as pessoas que ocupam os graus mais elevados da escala social. E o que vos leva a pensar assim, é que as faltas das pessoas altamente colocadas no mundo são muito mais aparentes que as dos simples particulares. Mas ides modificar imediatamente esta idéia, pensando que, para o Ser Supremo, não há faltas ocultas. Com efeito, o Grande Desconhecido vê constantemente na Terra simples particulares que, relativamente, fazem tanto mal na sua pequena esfera de ação, quanto o fazem, em seus Estados, certos tiranos manchados pela História. Os simples particulares de que falo, em vez de exercerem sua tirania num reino, a exercem em sua família e em seu círculo, fazendo sofrer sem piedade mulher, filhos e subordinados. Esses tiranetes só têm uma preocupação: gozar a vida, escapando ao código penal do país em que habitam. Ora, eu vos pergunto, credes que esses malfeitores, que às vezes passam por criaturas virtuosas, aos olhos de quem quer que não lhes conheça a vida, digo eu, que esses malfazejos logo sejam transportados a uma morada de delícias? – Não, não creio. – Não admitis que, fazendo o mal, contraíram uma certa dívida moral? – Sim, major, eu o admito. – Pois bem! então não vos deveis admirar de que certos planetas sejam verdadeiros purgatórios, nos quais os homens, em uma ou em várias existências, paguem as dívidas contraídas numa existência anterior. “– Mas, major, os sofrimentos que todo homem experimenta no curso de sua vida não pagam suficientemente o mal que pode fazer desde a idade da razão até a morte? “Isto só se daria com pequeno número de indivíduos, porque, o mais das vezes, o mal que um homem faz recai sobre certo número de seus semelhantes, o multiplica tanto mais a soma do mal pessoal e torna quase sempre a dívida tão grande que esse homem não poderia pagá-la no decorrer de sua curta existência. Ora, quando não se pôde pagar suas dívidas numa vida, forçosamente se deve pagá-las em outra, porquanto, no caso de dívidas criminais, o Grande Desconhecido dispôs as coisas de maneira que não haja bancarrota possível. “Admitido isto, admitireis também que é impossível que monstros como Nero, Calígula, Heliogábulo, Bórgia e tantos outros, cujos crimes não podem ser enumerados, tenham podido pagar semelhantes dívidas pelo pouco mal que sofreram em vida. Ora, de duas uma: Ou esses homens caíram no nada, ao morrerem, ou recomeçaram uma nova existência. Se se admitir que tivessem caído no nada, admite-se muito naturalmente que devem ter fracassado completamente. Convireis que a idéia de semelhante bancarrota revolta o espírito, ao passo que se se admitir que cada um recomeçou uma nova existência, o espírito se acha satisfeito ao pensar que essas novas vidas não poderão ser senão existências de expiação ou, melhor dizendo, de purificação.37 “– Major, não é mais simples admitir a danação eterna para os monstros de que falais? – Convenho que é mais simples, mas não mais lógico. A lógica, que deve ser a alma da justiça, recusa admitir a danação eterna, porque faltas finitas não poderiam merecer castigos infinitos.” Segue uma dissertação das mais interessantes e das mais lógicas que lemos contra o inferno e as penas eternas, sobre a justiça da proporcionalidade das penas e sobre a doutrina do trabalho, mas a sua extensão não nos permite reproduzi-la. “– Major, diz o cabo Pamphile, eu vos farei notar que a negação do inferno eterno, assim como a proporcionalidade das penas, é o fundo mesmo da doutrina dos espíritas. Ora, eu já vos disse que não creio no Espiritismo. – Então... acreditai no inferno eterno, se isto vos dá prazer.” Entre os soberanos que o cabo Pamphile encontra no planeta Marte, há os que viviam no tempo do dilúvio, reis da Assíria, ao tempo da torre de Babel, faraós do tempo da passagem do mar Vermelho pelos hebreus, etc. E cada um dá sobre esses acontecimentos explicações que, em sua maioria, têm o mérito, se não da prova material, ao menos o da lógica. Em suma, o quadro escolhido pelo autor para emitir suas idéias é feliz, até mesmo a sua negação do Espiritismo, que leva, em última análise, a uma afirmação indireta. Diremos, como o Siècle, que sob uma forma aparentemente leve, todas as questões aí são tratadas com certa erudição, com evidente boa-fé, quase sempre com graça, muitas vezes com espírito e por vezes com eloqüência. Acrescentaremos que, não conhecendo o autor, se este número lhe cair nas mãos, desejamos que aqui encontre a expressão de nossas sinceras felicitações, porque fez um livro interessante e muito útil.
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(36) N. do T.: Notável previsão do surgimento da Comunidade Econômica Européia, instituição criada pelo Tratado de Roma, em 1957, e que hoje agrupa boa parte dos países europeus. De fato, a circulação de mercadorias e de naturais desses países é livre, já circula uma moeda comum, o euro, e já se parte para a elaboração de uma constituição supra-nacional que contemple os interesses coletivos do povo europeu. Assim, muitos sonhos dos chamados “visionários” não passam da antecipação de fatos que se verificarão num futuro mais ou menos remoto, atestando a realidade da lei do progresso ou de evolução, um dos princípios fundamentais do Espiritismo.
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(37) Se o efeito da injustiça ou do mal que um homem comete em relação a um outro homem detém-se no indivíduo, a necessidade da reparação será individual; mas se, em conseqüência, esse mal prejudica pouco a pouco a centenas de indivíduos, sua dívida será centuplicada, porque serão centenas de reparações a realizar. Quanto mais vítimas tiver feito, direta ou indiretamente, maior o número dos que lhe pedirão contas de sua conduta. Como a responsabilidade e o número de reparações aumentam com a extensão da autoridade de que se é investido, somos responsáveis por indivíduos que jamais conhecemos, mas que, nem por isso, sofreram menos as conseqüências dos nossos atos.
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Nota 3:
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(35) Um grosso volume in-12. Preço: 3 fr. 50 c.; pelo correio: 4 fr. Esta obra foi impressa em Lyon e não traz nenhum nome do editor; diz apenas que se encontra em todos os livreiros de Paris. Nós a adquirimos na Livraria Internacional, 15, boulevard Montmartre.
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