Livros Espíritas
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Vivi igualmente na Terra e não padeci quanto devia, considerado o tesouro da iluminação espiritual que recebi do Céu pela dor. Perdi meus sonhos, meu lar, meu esposo, meus filhos! O Senhor mos deu, o Senhor mos retomou. Meus dois rapazes foram assassinados numa guerra civil, em nome de princípios legais; minhas duas filhas, seduzidas pelo fascínio do prazer e do ouro, escarneceram de minhas esperanças e permanecem na Esfera sombria, emaranhadas em perigosas ilusões. O esposo era o único amigo que me restava; entretanto, quando a lepra acometeu minha carne, abandonou-me também, empolgado por visível horror. Desprezaram-me todas as afeições, fugiram os favores do mundo; contudo, enquanto meus membros se desatavam do corpo que se corrompia, quando me achava relegada ao extremo desamparo dos que me eram caros, robustecia-se dentro em mim o cântico da esperança. Minhalma glorificava o Senhor da Vida Triunfante… Concedera-me Ele, um dia, todas as graças da saúde e da mocidade, retomando, em seguida, esses bens, que eu guardava por empréstimo. Privou-me dos entes queridos, desfez-me o equilíbrio orgânico, enviou-me a fome e a dor; no entanto, quando a minha solidão se fez amarga e completa, minha fé elevou-se mais clara e mais viva… Que necessitava eu, miserável mulher, senão padecer, para santificar a esperança? Que não precisarei ainda, para lograr o acesso às fontes superiores? Quem somos nós, senão vaidosos vermes com inteligência mal aplicada, aos quais se tem de mil modos manifestado a Misericórdia Infinita, mas em vão? Foi, então, a vez de Camilo ajoelhar-se. Do tórax de Cipriana partia radioso feixe de luz, que lhe atravessava o coração, qual venábulo de luar cristalino. O infeliz, genuflexo agora, beijava-lhe a destra, num transporte comovente de gratidão, rociando-a de lágrimas. — Sim, — disse ele, chorando, — não me falaríeis desta maneira, se me não amásseis! Não são vossas palavras que me convencem…, senão o vosso sentimento que me transmuda! E, como acontecera a Pedro, também gritou: — Mãe do Céu, libertai-me de minhas próprias paixões! Desfechai-me as algemas que eu mesmo forjei…, quero fugir de minhas sinistras recordações…, quero partir, esquecer, empenhar-me na luta regeneradora, recomeçando a trabalhar! Cipriana confiou-nos o doente, cujo veículo denso descansava no hospital próximo, e, num triunfante sorriso de ternura materna, enlaçou o ex-perseguidor, murmurando: — Abençoado sejas tu, que ouviste o apelo do perdão redentor. Que o Pai te abençoe para sempre! Vamos! A Providência oferece trabalho regenerativo a todos nós… Abraçou-se à figura repulsiva do ex-verdugo, aconchegou-o ao coração e aproximou-se de nós, dirigindo-nos a palavra gentilmente: — Irmãos, agradeço-lhes o concurso fraterno. Nosso amigo sofredor seguirá em minha companhia. Espero localizá-lo em terreno de atividade restauradora. E, antes de despedir-se, notificou ao meu orientador: — Irmão Calderaro, aguardo-lhe a colaboração hoje à noite, em favor de Cândida, que deve regressar ao “nosso lado” amanhã, em definitivo. Precisamos salvar-lhe da loucura total a filhinha. Retirou-se a mensageira, conduzindo o transviado como se lhe fora precioso fardo, enquanto nova luz me dealvava o espírito. O Assistente tocou-me o ombro e falou: — O coração que ama está cheio de poder renovador. Certa feita, disse Jesus que existem demônios somente suscetíveis de regeneração “pelo jejum e pela prece”. () Às vezes, André, como neste caso, o conhecimento não basta: há que ser o homem animado da força divina, que flui do jejum pela renúncia, e da luz da oração, que nasce do amor universal. Dispúnhamo-nos a reconduzir o enfermo à casa de saúde, quando a dona da casa assomou à sala, em traje de sair, e disse aos meninos: — Preparem-se, filhinhos. Visitaremos o papai dentro em pouco. Transportamos Pedro ao leito, dispensando-lhe os cuidados possíveis. Em breve, despertava a sorrir, melhorado, quase feliz. Chamou a enfermeira, demonstrando novo brilho no olhar. Não sentia mais a dor persistente no peito. Algo, — refletia ele, — expungira-lhe de negrores a cabeça, como a chuva benéfica lava e clareia um céu de chumbo. Decorrida uma hora, a esposa e os filhinhos penetravam no aposento, partilhando-lhe o bem-estar. Contou-lhes Pedro, chorando de júbilo, que tivera um sonho iluminativo; assegurava ter sido visitado pela Mãe Santíssima, que lhe estendera as divinas mãos, transbordantes de luz. A esposa, ouvindo-o, verteu copioso pranto de alegria e de reconhecimento. E Guilherme, o pequenino cheio de fé viva, tomou a destra paterna, osculando-a com filial afeição e agradecimento a Deus. Sensibilizado, acompanhei a cena íntima em que a família reencontrava a paz e, recordando Cipriana, com a sua milagrosa atuação salvadora, compreendi que a mulher, santificada pelo sacrifício e pelo sofrimento, se converte em portadora do Divino Amor Maternal, que intervém no mundo para enobrecer o sentimento das criaturas.
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