Livros Espíritas
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Dispúnhamos, Alexandre e eu, a regressar à nossa sede espiritual de trabalho, quando o orientador foi procurado por um companheiro de elevada expressão hierárquica, que me saudou igualmente, demonstrando grande apreço e carinho. — Serei breve, — disse ele ao meu instrutor, que o atendia, solícito, — o tempo não me permite longas conversações. E, modificando a expressão fisionômica, acentuou: — Lembra-se de Segismundo, nosso velho amigo? — Como não? — Redarguiu o interpelado, — ambos lhe devemos significativos favores de outro tempo. — Pois bem, — tornou o visitante, — Segismundo necessita colaboração urgente. Reconheço que você não é especialista em trabalhos referentes à reencarnação. No entanto, sinto-me compelido a recorrer ao concurso dos amigos. O novo companheiro fez pequeno intervalo e continuou: — Não se esqueceu você de que o nosso amigo, não obstante os rasgos de generosidade, assumiu compromissos muito sérios no passado? — Sim, sim, — respondeu o orientador, — o drama dele vive ainda em nossa memória. — Segismundo, presentemente, — prosseguiu o outro, — voltará ao rio da vida física. A situação assim o exige e não devemos perder a oportunidade de encaminhá-lo ao resgate preciso. Segundo está informado, Raquel, a pobre criatura que ele desviou, em nossa época de laços afetivos mais fortes, e Adelino, o infeliz marido que o nosso irmão assassinou em lamentável competição armada, já se encontram na Crosta desde muito e, há quatro anos, religaram-se nos elos do matrimônio. Tudo está preparado a fim de que Segismundo regresse à companhia da vítima e do inimigo do pretérito, no sentido de santificar o coração. Será ele, de conformidade com a permissão de nossos Maiores, o segundo filhinho do casal. Todavia, estamos lutando com grandes dificuldades para localizá-lo. Infelizmente, Adelino, que lhe será o futuro pai transitório, repele-o com calor, tão logo surgem as horas de sono físico, trabalhando contra os nossos melhores propósitos de harmonização. Em vista disso, o trabalho preparatório da nova experiência tem sido muito moroso e desagradável. — E Segismundo? — Indagou o mentor, preocupado, — qual a sua atitude dominante? Herculano, o mensageiro que nos visitava, informou com fraternal interesse: — A princípio, animava-se da melhor esperança. Agora, porém, que o rival antigo lhe oferece pensamentos de ódio e ciúme, olvidando compromissos assumidos em nossa Esfera de ação, sente-se novamente desventurado e sem forças para reparar o mal. De outras vezes, enche-se-lhe a tristeza de profunda revolta e, nesse estado negativo, subtrai-se à nossa cooperação eficiente. O visitante fez ligeira pausa e acrescentou, com inflexão de rogativa: — Não poderá você ajudar-nos nesse difícil processo de reencarnação? Lembro-me de que sua amizade dividia-se entre ambos. Quem sabe a sua intervenção afetuosa conseguiria convencer Adelino? — Conte comigo, — redarguiu o orientador, atenciosamente, — farei quanto estiver em minhas possibilidades para que não se perca o ensejo em curso. Ante o sorriso de satisfação do outro, Alexandre concluiu: — Na próxima semana, estarei a seu lado para conversar espiritualmente com Adelino e solucionar o problema da reaproximação. Estejamos confiantes no auxílio divino. Herculano agradeceu e despediu-se comovidamente. A sós com o mentor devotado e amigo, comecei a meditar na possibilidade de contribuir igualmente no caso que se me deparava. Nunca tivera oportunidade de acompanhar, de perto, um processo de reencarnação, estudando os ascendentes espirituais nas questões da embriologia. Não seria interessante, para mim, utilizar a experiência? Nesse propósito, dirigi-me ao instrutor, sem abordar, porém, a minha pretensão em sentido direto: — Notável para mim a solicitação de hoje, — exclamei. — Longe estava de pensar, no mundo, na multiplicidade de tarefas atribuídas aos benfeitores e missionários desencarnados. A extensão do serviço em nosso campo de ação assombraria a qualquer mortal. — Sem dúvida, — respondeu o mentor, atencioso, — os trabalhos se desdobram em todas as direções. O pedido de Herculano vem focalizar um dos mais importantes problemas da felicidade humana: o da aproximação fraternal, do perdão recíproco, da semeadura do amor, através da lei reencarnacionista. Alexandre meditou alguns momentos e continuou: — O caso é típico. O drama de Segismundo é demasiadamente complexo para ser comentado em poucas palavras. Basta, todavia, recordar que ele, Adelino e Raquel são os protagonistas culminantes de dolorosa tragédia, ocorrida ao tempo de minha última peregrinação pela Crosta. Em seguida a uma paixão desvairada, Adelino foi vítima de homicídio; Segismundo, do crime; e Raquel, do prostíbulo. Desencarnaram, cada um por sua vez, sob intensa vibração de ódio e desesperação, padecendo vários anos, em zonas inferiores. Mais tarde, por intercessão de amigos redimidos, os antigos cônjuges obtiveram a volta ao corpo físico, a fim de santificarem os laços sentimentais e se reaproximarem dos antigos adversários. Mas, como acontece quase sempre, os heróis na promessa fraquejam na realização, porque se apegam muito mais aos próprios desejos que à compreensão da Vontade Divina. De posse dos bens da vida física, nega-se Adelino a perdoar, recapitulando erradamente as lições do passado. Antes mesmo da reencarnação do antigo transviado, já se manifesta contrário a qualquer auxílio. Sempre o velho círculo vicioso — quando fora da oportunidade bendita de trabalho terrestre e vendo a extensão das próprias necessidades, desvela-se o companheiro em prometer fidelidade e edificação, mas tão logo se apossa do tesouro, volta ao endurecimento espiritual e ao menosprezo das leis de Deus. Calou-se o mentor, por alguns instantes, acentuando em seguida: — Buscarei, porém, chamá-los à recordação dos compromissos. Neste ínterim, entendendo que a oportunidade era preciosa, roguei, humilde: — Ser-me-ia possível acompanhá-lo? Creio que aproveitaria muito. Poderia talvez adquirir valores significativos para o serviço do próximo e para meu benefício pessoal. Ignoro até quando ser-me-a permitido estudar em sua companhia e estimarei o aproveitamento integral de semelhante oportunidade. Alexandre sorriu, compassivo, e falou: — Não tenho objeções. Entretanto, não creio deva seguir os trabalhos sem algum conhecimento prévio do assunto. Em toda edificação verdadeiramente útil, não podemos prescindir da base. Temos bons amigos no Planejamento de Reencarnações, serviço muito importante em nossa colônia espiritual, diretamente relacionado com as atividades do Esclarecimento. Nessa instituição, durante alguns dias, você terá uma ideia aproximada de nossa tarefa, portas a dentro de semelhantes trabalhos. Grande percentagem de reencarnações na Crosta se processa em moldes padronizados para todos, no campo de manifestações puramente evolutivas. Mas outra percentagem não obedece ao mesmo programa. Elevando-se a alma em cultura e conhecimentos, e, consequentemente, em responsabilidade, o processo reencarnacionista individual é mais complexo, fugindo à expressão geral, como é lógico. Em vista disso, as colônias espirituais mais elevadas mantêm serviços especiais para a reencarnação de trabalhadores e missionários. As explicações eram sedutoras e relevantes e, compreendendo a importância dos esclarecimentos para meu pobre espírito, Alexandre continuou: — Quando me refiro a trabalhadores, falo dos companheiros não completamente bons e redimidos, mas daqueles que apresentam maior soma de qualidades superiores, a caminho da vitória plena sobre as condições e manifestações grosseiras da vida. Em geral, como acontece a nós outros, são entidades em débito, mas com valores de boa vontade, perseverança e sinceridade, que lhes outorgam o direito de influir sobre os fatores de sua reencarnação, escapando, de certo modo, ao padrão geral. Claro que nem sempre tais alterações se verificam em condições agradáveis para a experiência futura. Os serviços de retificação representam tarefas enormes. E desejando imprimir fortemente em meu espírito a noção da responsabilidade, o instrutor prosseguiu, tornando mais grave a inflexão de voz: — O problema da queda é também uma questão de aprendizado e o mal indica posição de desequilíbrio, exigindo restauração e corrigenda. A evolução confere-nos poder, mas gastamos muito tempo, aprendendo a utilizar esse poder harmonicamente. A racionalidade oferece campo seguro aos nossos conhecimentos; entretanto, André, quase todos nós, trabalhadores da Terra, nos demoramos séculos no serviço de iluminação íntima, porque não basta adquirir ideias e possibilidades, é preciso ser responsável, e nem é justo tenhamos tão somente a informação do raciocínio, mas também a luz do amor. — Daí as lutas sucessivas em continuadas reencarnações da alma! — Exclamei, vivamente impressionado. — Sim, — continuou meu amável interlocutor, — temos necessidade da luta que corrige, renova, restaura e aperfeiçoa. A reencarnação é o meio, a educação divina é o fim. Por isso mesmo, a par de milhões de semelhantes nossos que evoluem, existem milhões que se reeducam em determinados setores do sentimento, porquanto, se já possuem certos valores da vida, faltam-lhes outros não menos importantes. Identificando-me a dificuldade para compreender-lhe o ensinamento de maneira integral, meu orientador voltou a dizer: — Embora na condição de médico do mundo, acredito que você não tenha sido completamente estranho aos estudos evangélicos.
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