Livros Espíritas
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Sua teoria, como a lanterna mágica da fábula, peca num ponto capital: perde-se num labirinto de explicações que demandariam outras explicações para serem compreendidas. Um outro defeito é que a cada passo é contraditada por fatos que não pode explicar e que o autor silencia por uma razão muito simples: é que não os conhece. Ele nada viu ou pouco viu por si mesmo; numa palavra, nada aprofundou de visu, com a sagacidade, a paciência e a independência das idéias do observador consciencioso; contentou-se com relatos mais ou menos fantásticos, encontrados em certas obras que não primam pela imparcialidade. Não leva em consideração os progressos que a ciência fez desde alguns anos; ele a toma em seu começo, quando marchava tateante e cada um trazia uma opinião incerta e prematura, estando longe de conhecer todos os fatos; absolutamente como se quisesses julgar a química de hoje pelo que era ao tempo de Nicolas Flamel. Em nossa opinião, e por mais sábio seja o Sr. Figuier falta-lhe a primeira qualidade que se exige de um crítico: a de conhecer a fundo aquilo de que fala, condição ainda mais necessária quando se quer explicá-lo. Não o acompanharemos em todos os seus raciocínios. Preferimos indicar a sua obra, que todo espírita pode ler sem o menor perigo para as suas convicções; só citaremos a passagem na qual ele explica sua teoria das mesas girantes, que resume mais ou menos a de todos os outros fenômenos. “Vem a seguir a teoria que explica os movimentos das mesas pelos Espíritos. Se a mesa girar após um quarto de hora de recolhimento e de atenção por parte dos experimentadores, é, dizem, que os Espíritos, bons ou maus, anjos ou demônios, entraram na mesa e a fizeram oscilar. Espera o leitor que discutamos tal hipótese? Não pensamos fazê-lo. Se empreendêssemos provar, com grandes reforços de argumentos lógicos, que o diabo não entra nos móveis para os fazer dançar, precisaríamos também demonstrar que não são os Espíritos que, introduzidos em nosso corpo, nos fazem agir, falar, sentir, etc.45 Todos esses fatos são da mesma ordem, e aquele que admite a intervenção do demônio para girar uma mesa deve recorrer à mesma influência sobrenatural para explicar os atos, que só ocorrem em virtude de nossa vontade e com auxílio de nossos órgãos. Ninguém jamais quis atribuir seriamente os efeitos da vontade sobre os nossos órgãos, por mais misteriosa que seja a essência desse fenômeno, a ação de um anjo ou de um demônio. É, entretanto, a essa conseqüência que são levados os que querem vincular a rotação das mesas a uma causa sobre-humana. “Digamos, para terminar esta breve discussão, que a razão proíbe recorrer a uma causa sobrenatural em todas as situações em que uma causa natural pode bastar. Poderíamos invocar uma causa natural, normal, fisiológica, para explicar o movimento das mesas? Esta é a questão. “Eis, pois, chegado o momento de expor o que nos parece dar conta do fenômeno estudado nesta última parte de nosso livro. “A explicação do fato das mesas girantes, considerada na sua maior simplicidade, parece-nos ser fornecida por esses fenômenos cujo nome até aqui variou muito, mas cuja natureza, no fundo, é idêntica, haja vista que, seguidamente, foi chamada hipnotismo com o Dr. Braid, biologismo com o Sr. Philips, sugestão com o Sr. Carpenter. Lembramos que, em conseqüência da forte tensão cerebral resultante da contemplação de um objeto imóvel, mantido por muito tempo, o cérebro cai num estado particular que recebeu, sucessivamente, os nomes de estado magnético, sono nervoso e estado biológico, nomes diferentes que designam certas variantes particulares de um estado geralmente idêntico. “Uma vez chegado a esse estado, quer pelos passes de um magnetizador, como se faz desde Mesmer, quer pela contemplação de um corpo brilhante, como operava Braid, imitado depois pelo Sr. Philips, e como operam ainda os feiticeiros árabes e egípcios, quer simplesmente, enfim, por uma forte contenção moral, de que já citamos mais de um exemplo, o indivíduo cai nessa passividade automática que constitui o sono nervoso. Perdeu a força de dirigir e controlar a própria vontade e está sob o império de uma vontade estranha. Apresentem-lhe um copo de água, afirmando, com autoridade, que é deliciosa bebida, e ele bebe julgando tomar vinho, licor ou leite, conforme a vontade daquele que se apoderou fortemente de seu ser. Privado assim do auxílio de seu próprio juízo, o indivíduo fica quase estranho às ações que executa e, uma vez voltando ao seu estado natural, perdeu a lembrança dos atos que realizou durante essa estranha e momentânea abdicação do seu eu. Está sob a influência de sugestões, isto é, aceita sem poder repeli-la, uma idéia fixa que lhe é imposta por uma vontade exterior, age e é forçado a agir sem idéia e sem vontade própria, conseguintemente, sem consciência. Este sistema levanta uma grave questão de psicologia, porquanto, assim influenciado, o homem perdeu o livre-arbítrio e não tem mais responsabilidade pelas ações que executa. Age determinado por imagens intrusas que lhe obsidiam o cérebro, análogas a essas visões que Cuvier supõe fixadas no sensorium da abelha, e que lhe representam a forma e as proporções da célula que o instinto a leva a construir. O princípio das sugestões explica perfeitamente os fenômenos, tão variados e por vezes tão terríveis, das alucinações, mostrando, ao mesmo tempo, o pequeno intervalo que separa o alucinado do monômano. Não é de admirar que, num grande número de giradores de mesas, a alucinação sobreviva à experiência e se transforme em loucura definitiva. “Esse princípio das sugestões, sob a influência do sono nervoso, parece-nos fornecer a explicação do fenômeno da rotação das mesas, tomado na sua maior simplicidade. Consideremos o que se passa numa corrente de pessoas que se entregam a uma experiência desse gênero. Tais pessoas estão atentas, preocupadas, fortemente emocionadas com a espera do fenômeno que se deve produzir. Uma grande atenção, um recolhimento completo de espírito lhes é recomendado. À medida que a espera se prolonga e a contenção moral fica muito tempo entretida pelos experimentadores, seu cérebro se fatiga cada vez mais e as idéias sofrem uma ligeira perturbação. Quando assistimos, durante o inverno do ano de 1860, às experiências realizadas em Paris pelo Sr. Philips; quando vimos as dez ou doze pessoas às quais ele confiava um disco metálico, com a injunção de olhar fixamente e unicamente esse disco, colocado na palma da mão durante cerca de meia hora, não pudemos deixar de ver nessas condições reconhecidas indispensáveis para a manifestação do estado hipnótico, a imagem fiel do estado em que se encontram as pessoas que, em silêncio, formam a corrente, com vistas a obter a rotação da mesa. Num e noutro caso, há uma forte contenção de espírito, uma idéia perseguida exclusivamente durante um tempo considerável. O cérebro humano não pode resistir por muito tempo a essa tensão excessiva, a esse acúmulo anormal do influxo nervoso. Das dez ou doze pessoas que se entregaram a essa operação, a maioria abandona a experiência, forçadas a renunciar pela fadiga nervosa que experimentam. Somente algumas, uma ou duas, que perseveram, são presas do estado hipnótico ou biológico, dando lugar, então, aos diversos fenômenos que examinamos no curso desta obra, ao falarmos do hipnotismo e do estado biológico. “Nessa reunião de pessoas fixamente ligadas, durante vinte minutos ou meia hora, a formar a corrente, com as mãos espalmadas sobre a mesa, sem liberdade de distrair, nem sequer por um instante, a atenção da operação em que tomam parte, a maioria não experimenta nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só que seja, não venha a cair, ainda que por um momento, no estado hipnótico ou biológico. Talvez esse estado não precise durar mais que um segundo para que se realize o fenômeno esperado. Caindo nessa espécie de sono nervoso, não tendo mais consciência de seus atos e sem outro pensamento que não seja a idéia fixa da rotação da mesa, o membro da corrente imprime inconscientemente o movimento ao móvel. Ele pode, nesse momento, exibir uma força muscular relativamente considerável e a mesa se move. Dado esse impulso, realizado esse ato inconsciente, nada mais é preciso. Assim passageiramente biologizado, o indivíduo pode a seguir voltar ao seu estado ordinário; porque, apenas manifestado esse movimento de deslocamento mecânico na mesa, logo todas as pessoas que compõem a corrente se levantam e seguem seus movimentos; em outras palavras, fazem a mesa marchar, pensando que apenas a acompanham. Quanto ao indivíduo, causa involuntária, inconsciente do fenômeno, posto não guardar nenhuma lembrança dos atos executados nesse estado de sono nervoso, ignora o que fez e, de boa-fé, fica indignado se o acusam de haver empurrado a mesa. Até suspeita que outros membros da corrente tenham feito uma brincadeira de mau gosto, de que o acusam. Daí essas freqüentes discussões e mesmo essas disputas graves, que tantas vezes deram origem ao divertimento das mesas girantes.
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(45) Não são os Espíritos que nos fazem agir e pensar, mas um Espírito que é a nossa alma. Negar esse Espírito é negar a alma; negar a alma é proclamar o materialismo puro. O Sr. Figuier parece pensar que, como ele, ninguém crê possuir uma alma imortal, ou que ele crê ser todo o mundo.
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