Livros Espíritas
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A seguir vem a grave questão do esquecimento que, segundo o nosso correspondente, tira aos males da vida o caráter de expiação. É um erro. Dai-lhe o nome que quiserdes: jamais fareis que não sejam a conseqüência de uma falta. Se o ignorais, o Espiritismo vo-lo ensina. Quanto ao esquecimento das faltas em si, não tem as conseqüências que lhe atribuis. Temos demonstrado alhures que a lembrança precisa dessas faltas teria inconvenientes extremamente graves, uma vez que nos perturbaria, nos humilharia aos nossos próprios olhos e aos do próximo; trariam perturbação nas relações sociais e, por isto mesmo, entravaria o nosso livre-arbítrio. Por outro lado, o esquecimento não é tão absoluto quanto se supõe; ele só se dá na vida exterior de relação, no interesse da própria Humanidade; mas a vida espiritual não sofre solução de continuidade. Quer na erraticidade, quer nos momentos de emancipação, o Espírito se lembra perfeitamente e essa lembrança lhe deixa uma intuição que se traduz pela voz da consciência, que o adverte do que deve ou não deve fazer. Se não a escuta, é, pois, culpado. Além disso, o Espiritismo dá ao homem um meio de remontar ao seu passado, se não aos atos precisos, pelo menos aos caracteres gerais desses atos, que ficaram mais ou menos desbotados na vida atual. Das tribulações que suporta, das expiações e provas deve concluir que foi culpado; da natureza dessas tribulações, ajudado pelo estudo de suas tendências instintivas e apoiando-se no princípio de que a mais justa punição é a conseqüência da falta, ele pode deduzir seu passado moral; suas tendências más lhe ensinam o que resta de imperfeito a corrigir em si. A vida atual é para ele um novo ponto de partida; aí chega rico ou pobre de boas qualidades; basta-lhe, pois, estudar-se a si mesmo para ver o que lhe falta e dizer: “Se sou punido, é porque pequei”, e a própria punição lhe dirá o que fez. Citemos uma comparação: Suponhamos um homem condenado a tantos anos de trabalhos forçados, sofrendo um castigo especial mais ou menos rigoroso, de acordo com a sua falta; suponhamos, ainda, que ao entrar na cadeia perca a lembrança dos atos que para lá o conduziram. Poderá dizer: “Se estou na prisão, é que sou culpado, porquanto aqui não se põe gente virtuosa. Tratemos, pois, de ficar bom, para não voltarmos quando daqui sairmos.” Quer ele saber o que fez? Estudando a lei penal, saberá quais os crimes que para ali conduzem, porque ninguém é posto a ferros por uma leviandade. Da duração e da severidade da pena, concluirá o gênero dos que deve ter cometido. Para ter uma idéia mais exata, terá apenas de estudar aqueles para os quais irá sentir-se instintivamente arrastado. Saberá, então, o que deve evitar daí em diante para conservar a liberdade, e a isso será ainda estimulado pelas exortações dos homens de bem, encarregados de o instruir e o dirigir no bom caminho. Se não o aproveitar, sofrerá as conseqüências. Tal a situação do homem na Terra, onde, tanto quanto o grilheta, não pode ter sido posto por suas perfeições, considerando-se que é infeliz e obrigado a trabalhar. Deus lhe multiplica os ensinamentos de acordo com o seu adiantamento; adverte-o incessantemente e chega mesmo a feri-lo, para o despertar de seu torpor, e aquele que persiste no endurecimento não pode desculpar-se com sua ignorância. Em resumo, se certas situações da vida humana têm, mais particularmente, o caráter das provas, outras têm, de modo incontestável, o do castigo, e todo castigo pode servir de prova. É um erro pensar que o caráter essencial da expiação seja o de ser imposta. Vemos diariamente na vida expiações voluntárias, sem falar dos monges que se maceram e se fustigam com a disciplina e o cilício. Nada há, pois, de irracional em admitir que um Espírito, na erraticidade, escolha ou solicite uma existência terrena que o leve a reparar seus erros passados. Se tal existência lhe tivesse sido imposta, não teria sido menos justa, apesar da ausência momentânea da lembrança, pelos motivos acima desenvolvidos. As misérias da Terra são, pois, expiação, por seu lado efetivo e material, e provas, por suas conseqüências morais. Seja qual for o nome que se lhes dê, o resultado deve ser o mesmo: o melhoramento. Em presença de um objetivo tão importante, seria pueril fazer de um jogo de palavras uma questão de princípio. Isto provaria que se dá mais importância às palavras que à coisa. Temos prazer de responder às perguntas sérias e elucidá-las, quando possível. A discussão é tanto mais útil com pessoas de boa-fé, que estudaram e querem aprofundar as coisas, pois é trabalhar para o progresso da ciência, quanto ociosa com os que julgam sem conhecer e querem saber sem se darem ao trabalho de aprender.
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