Livros Espíritas
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A questão das origens sempre excitou a curiosidade, sobretudo no que respeita à procedência do homem, e em tal proporção que hoje é impossível às criaturas sensatas aceitarem ao pé da letra o relato bíblico, nele vendo apenas uma dessas alegorias de que é pródigo o estilo oriental. Aliás, a Ciência vem oferecer-lhe a prova ao demonstrar, por meios irrefutáveis, a impossibilidade material da formação do globo em seis vezes vinte e quatro horas. Ante a evidência dos fatos, escritos em caracteres irrecusáveis nas camadas geológicas, a Igreja teve de se submeter à opinião dos sábios e com eles concordar que os seis dias da Criação representam seis períodos de extensão indeterminada, como fizera outrora em relação ao movimento da Terra. Se, pois, o texto bíblico é susceptível de interpretação quanto a este ponto capital, também poderá sê-lo em relação a outros pontos, notadamente sobre a época do aparecimento do homem na Terra, sua origem e o sentido que deve ser atribuído à qualificação de anjos decaídos. Como o princípio das coisas está nos segredos de Deus, que no-lo não revela senão à medida que o julga conveniente, ficamos reduzidos a conjecturas. Muitos sistemas foram imaginados para resolver esta questão, mas nenhum, até hoje, satisfaz completamente à razão. Tentaremos, também, levantar uma ponta do véu. Seremos mais felizes do que os nossos antecessores? Ignoramo-lo; só o futuro dirá. A opinião que apresentamos é, pois, uma opinião pessoal; parece concordar com a razão e a lógica, o que, aos nossos olhos, lhe dá certo grau de probabilidade. Antes de tudo, constatamos que só é possível descobrir alguma parcela da verdade com o auxílio da teoria espírita; ela já resolveu uma imensidão de problemas até agora insolúveis, e é com a ajuda das balizas que ela nos oferece que vamos tentar remontar à cadeia dos tempos. O sentido literal de certas passagens dos livros sacros, contraditado pela Ciência, repelido pela razão, produziu muito mais incrédulos do que se pensa, dada a obstinação de fazer daquilo um artigo de fé. Se uma interpretação racional os fizesse aceitar, evidentemente reaproximaria da Igreja os que dela se afastaram. Antes de prosseguir, é essencial que nos entendamos sobre as palavras. Quantas disputas não deveram a sua perpetuação à ambigüidade de certas expressões, que cada um tomava no sentido de suas idéias pessoais! Nós o demonstramos, em O Livro dos Espíritos, a propósito do vocábulo alma. Dizendo claramente em que acepção a tomávamos, cortamos pela raiz qualquer controvérsia. A palavra anjo está no mesmo caso; empregam-na indiferentemente, no bom e no mau sentido, dizendo: os anjos bons e maus, o anjo da luz e o anjo das trevas, donde se segue que, em sua acepção geral, significa apenas Espírito. Evidentemente é neste último sentido que deve ser entendido, ao se falar de anjos decaídos e de anjos rebeldes. Conforme a Doutrina Espírita, nisto concordando com vários teólogos, os anjos não são seres de criação privilegiada, isentos, por um favor especial, do trabalho imposto aos outros, mas de Espíritos chegados à perfeição por seus esforços e por seus méritos. Se fossem seres criados perfeitos, sendo a revolta contra Deus um sinal de inferioridade, os que se revoltassem não poderiam ser anjos. Também nos diz a doutrina que os Espíritos progridem, mas não retrogradam, porquanto jamais perdem as qualidades adquiridas. Ora, a rebelião por parte de seres perfeitos seria uma retrogradação, desde que ela só se concebe partindo de seres ainda atrasados. Para evitar qualquer equívoco, conviria reservar a qualificação de anjos para os Espíritos puros e chamar os demais simplesmente de Espíritos bons ou maus. Como, entretanto, prevaleceu o emprego dessa palavra para os anjos decaídos só o tomaremos na sua acepção geral. Ver-se-á, neste caso, que a idéia de queda e de rebelião é perfeitamente admissível. Não conhecemos, e provavelmente jamais conhe-ceremos, o ponto de partida da alma humana. Tudo quanto sabemos é que os Espíritos são criados simples e ignorantes; que progridem intelectual e moralmente; que, em virtude do livre-arbítrio, uns tomaram o bom caminho, outros um caminho errado; que, uma vez posto o pé no atoleiro, nele se afundaram cada vez mais; que, depois de uma série ilimitada de existências corporais, realizadas na Terra e em outros mundos, depuram-se e alcançam a perfeição, que os aproxima de Deus. Um ponto de difícil compreensão é a formação dos primeiros seres vivos na Terra, cada um em sua espécie, desde a planta até o homem. A esse respeito, a teoria contida em O Livro dos Espíritos se nos afigura a mais racional, conquanto só incompletamente e de maneira hipotética resolva esse problema, que reputamos insolúvel, tanto para nós, quanto para a maioria dos Espíritos, a quem não é dado penetrar o mistério das origens. Se os interrogamos a respeito, os mais sábios respondem que não o sabem; mas outros, menos modestos, tomam a iniciativa e a postura de reveladores, ditando sistemas, produto de idéias pessoais, que apresentam como verdade absoluta. É contra a mania dos sistemas de certos Espíritos, em relação ao princípio das coisas, que devemos nos precaver. O que, aos nossos olhos, prova sabedoria dos que ditaram O Livro dos Espíritos, é a reserva que souberam guardar sobre questões dessa natureza. Em nossa opinião não é prova de sabedoria decidir essas questões de maneira absoluta, como fazem alguns, sem se inquietarem com impossibilidades materiais resultantes dos dados fornecidos pela Ciência e pela observação. O que dizemos da aparição dos primeiros homens na Terra se estende à formação dos corpos, porque, uma vez formado o corpo, é mais fácil conceber que o Espírito venha tomar conta dele. Considerando os corpos, o que nos propomos a examinar aqui é o estado dos Espíritos que os animaram, a fim de chegar, se possível, a definir, de modo mais racional do que se tem feito até agora, a doutrina da queda dos anjos e do paraíso perdido. Se não admitirmos a pluralidade das existências corpóreas, forçoso é concordar que a alma é criada ao mesmo tempo que o corpo. Porque, de duas uma: ou a alma que anima o corpo ao nascer já viveu, ou não viveu ainda; entre as duas hipóteses não há meio-termo. Ora, a segunda hipótese, aquela de que a alma não tenha vivido, enseja uma porção de problemas insolúveis, tais como a diversidade de aptidões e de instintos, incompatíveis com a justiça de Deus, a sorte das crianças que morrem em tenra idade, a dos cretinos, dos idiotas, etc., enquanto tudo se explica naturalmente se admitirmos que a alma já viveu e traz, ao encarnar em um novo corpo, o que havia adquirido anteriormente. É assim que as sociedades progridem gradativamente; sem isto, como explicar a diferença existente entre o atual estado social e o dos tempos de barbárie? Se as almas fossem criadas ao mesmo tempo que os corpos, as que hoje nascem seriam absolutamente novas, tão primitivas quanto as que viviam há milhares de anos; acrescente-se que entre elas não haveria nenhuma conexão, nenhuma relação necessária; que seriam completamente independentes umas das outras. Por que, então, as almas de hoje seriam mais bem favorecidas por Deus que as antepassadas? Por que compreenderiam melhor? Por que têm instintos mais depurados, hábitos mais suaves? Por que têm a intuição de certas coisas, sem as terem aprendido? Desafiamos que saiam dessa dificuldade, a menos que se admita tenha Deus criado almas de diversas qualidades, segundo os tempos e os lugares, proposição inconcebível com idéia de uma justiça soberana. Dizei, ao contrário, que as almas de hoje já viveram em épocas recuadas; que foram bárbaras como o seu século, mas progrediram; que em cada nova existência trazem as aquisições das existências anteriores; que, por conseguinte, as almas dos tempos civilizados não foram criadas mais perfeitas, mas se aperfeiçoaram com o tempo. Só assim tereis a única explicação plausível da causa do progresso social. Tiradas da teoria da reencarnação, estas considerações são essenciais para a compreensão de um fato de que falaremos daqui a pouco. Embora os Espíritos possam reencarnar-se em diferentes mundos, parece que, em geral, realizam um certo número de migrações corporais no mesmo globo e no mesmo meio, a fim de poderem aproveitar melhor a experiência adquirida; não saem desse meio senão para entrar num pior, por punição, ou num melhor, como recompensa. Disso resulta que, durante um certo período, a população do globo é composta mais ou menos pelos mesmos Espíritos, que ali reaparecem em diversas épocas, até atingirem um grau de depuração suficiente para merecerem habitar mundos mais adiantados. Conforme o ensino dado pelos Espíritos superiores, essas emigrações e imigrações dos Espíritos encarnados na Terra ocorrem de vez em quando, individualmente; porém, em certas épocas, se realizam em massa, em conseqüência das grandes revoluções que os fazem desaparecer em quantidades consideráveis, sendo substituídos por outros Espíritos que, de alguma sorte, na Terra ou numa parte da Terra, constituem uma nova geração.
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(3) N. do T.: Mateus, 24:34; Marcos, 13:30; e Lucas, 21:32.
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(4) N. do T.: Gênesis, 3:19.
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(5) N. do T.: Mateus, 25:33.
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(6) N. do T.: Vide A Gênese, capítulo XI, itens 47 a 49.
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(1) N. do T.: Essa teoria é aqui apresentada como simples hipótese e a título de ensaio, tendo em vista provocar o exame da questão. Faltava, então, a Allan Kardec, elementos bastantes para uma afirmação peremptória. Mais tarde, já havendo passado pela prova do controle universal, foi ela inserida em A Gênese, capítulo XI, item 43 e seguintes, integrando, definitivamente, o corpo doutrinário do Espiritismo. É por isso que dissemos, na introdução ao volume I (1858 – Notas do Tradutor), que a Revista Espírita era uma espécie de tribuna livre, na qual Allan Kardec sondava a reação dos homens e a impressão dos Espíritos acerca de determinados assuntos, ainda hipotéticos e mal compreendidos, enquanto lhes aguardava a confirmação.
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Nota 6:
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(2) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 529.
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