Livros Espíritas
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Saulo e Sadoc entraram na igreja humilde de Je rusalém, notando a massa compacta de pobres e mise ráveis que ali se aglomeravam com um raio de esperança nos olhos tristes. O pavilhão singelo, construído à custa de tantos sacrifícios, não passava de grande telheiro revestido de paredes frágeis, carente de todo e qualquer conforto. Tiago, Pedro e João surpreenderam -Se singularmente com a presença do jovem doutor da Lei, que se populari zara na cidade pela sua oratória veemente e pelo acurado conhecimento das Escrituras. Os generosos galileus ofereceram -lhe o banco mais confortável. Ele aceitou as gentilezas que lhe dispensa vam, sorrindo com indisfarçável ironia de tudo que ali se lhe deparava. Íntimamente, considerava que o próprio Sadoc fora vítima de falsas apreciações. Que podiam fazer aqueleS homens ignorantes, irmanados a outros já envelhecidos, valetudinários e doentes ? Que podiam significar de perigoso para a Lei de Israel aquelas crian ças ao abandono, aquelas mulheres semimortas, em cujo coração pareciam aniquiladas todas as esperanças? Experimentava grande mal -estar defrontando tantos ros tos que a lepra havia devastado, que as úlceras ma lignas haviam desfigurado impiedosamente. Aqui, um velhote com chagas purulentas envolvidas em panos fétidos; além, um aleijado mal coberto de mulambos, ao lado de órfãos andrajosos que se acomodavam com humildade. O conhecido doutor da Lei notou a presença de várias pessoas que lhe acompanhavam a palavra na interpre tação dos textos de Moisés, na Sinagoga dos cilícios; outras que seguiam de perto as suas atividades no Sinédrio, onde a sua inteligência era tida como penhor de esperan ça racial. Pelo olhar, compreendeu que esses amigos ali estavam igualmente pela primeira vez. Sua visita, ao templo ignorado dos galileus sem -nome, atraira muitos afeiçoados do farisaísmo dominante, ansiosos pelos serviços eventuais que pudessem destacá-los e recomendá-los às autoridades mais importantes. Saulo concluiu que aquela fração do auditório fazia ato de presença e de solidariedade em qualquer providência que houvesse de tomar. Pareceu -lhe natural e lógica aquela atitude, conveniente aos fins a qu e se propunha. Não se contavam fatos incríveis, operados pelos adeptos do “Caminho”? Não seriam grosseiras e escandalosas mistificações? Quem diria que tudo aquilo não fosse o produto ignóbil de bruxarias e sortilégios condenáveis? Na hipótese de lhe iden tificar qualquer finalidade desonesta, podia contar, mesmo ali, com grande número de correligionários, dispostos a defender o rigoroso cumprimento da Lei, custasse lhes embora os mais pesados sacrifícios. Notando um que outro quadro menos grato ao seu olha r acostumado aos ambiéntes de luxo, evitava fixar os aleijados e doentes que se acotovelavam no recinto, chamando a atenção de Sadoc, com observações irônicas e pitorescas. Quando o vasto recinto, desnudo de orna tos e símbolos de qualquer natureza, de tod o se encheu, um Jovem permeou as filas extensas, ladeado de Pedro e João, galgando os três um estrado quase natural, for mado de pedras superpostas. — Estevão!... É Estevão!... Vozes abafadas inculcavam o pregador, enquanto seus admiradores mais fervorosos apontavam para ele com jubiloso sorriso. Inesperado silêncio mantinha todas as frontes em singulares expectativas, O moço, magro e pálido, em cuja assistência os mais infelizes julgavam encontrar um desdobramento do amor do Cristo, orou em voz alta suplic ando para si e para a assembléia a inspiração do Todo -Poderoso. Em seguida, abriu um livro em forma de rolo e leu uma passagem das anotações de Mateus: — Mas, ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e, indo, pregai dizendo: é chegado o reino dos C éus. (1) Estevão ergueu alto os olhos serenos e fulgurantes, e, sem se perturbar com a presença de Saulo e dos seus numerosos amigos, começou a falar mais ou menos nestes termos, com voz clara e vibrante: — “Meus caros, eis que chegados são os tempos em qu e o Pastor vem reunir as ovelhas em torno do seu zelo sem limites. éramos escravos das imposições pelos raciocínios, mas hoje somos livres pelo Evangelho do Cristo Jesus. Nossa raça guardou, de épocas imemoriais, a luz do Tabernáculo e Deus nos enviou seu Filho sem mácula. Onde estão, em Israel, os que ainda não ouviram as mensagens da Boa Nova? Onde os que ainda não se felicitaram com as alegrias da nova fé? Deus enviou sua resposta divina aos nossos anseios milenários, a revelação dos Céus aclara os nos sos caminhos. Consoante as promessas da profecia de todos quantos choraram e sofreram por amor ao Eterno, o Emissário Divino veio até ao antro de nossas dores amargas e justas, para iluminar a noite de nossas almas impenitentes, para que se nos desdobrassem os horizontes da redenção. O Messias atendeu aos problemas angustiosos da criatura humana, com a solução do amor que redime todos os seres e purifica todos os pecados. Mestre do trabalho e da perfeita alegria da vida, suas bênçãos representam nossa hera nça. Moisés foi a porta, o Cristo é a chave. Com a coroa do martírio adquiriu, para nós outros, a láurea imortal da salvação. éramos cativos do erro, mas seu sangue nos libertou. Na vida e na morte, nas (1) Mateus, capítulo 10º, versículos 6 e 7. — (Nota de Emmanuel.) alegrias de Caná, como nas angústias do Calvário, pelo que fez e por tudo que deixou de fazer em sua gloriosa passagem pela Terra, Ele é o Filho de Deus iluminando o caminho. “Acima de todas as cogitações humanas, fora de todos os atritos da s ambições terrestres, seu reino de paz e luz esplende na consciência das almas redimidas. “Ó Israel! tu que esperaste por tantos séculos, tuas angústias e dolorosas experiências não foram vãs!... Enquanto outros povos se debatiam nos interesses inferiores, cercando os falsos ídolos de falsa adoração e promovendo, simultaneamente, as guerras de extermínio com requintes de perversidade, tu, Israel, esperaste o Deus justo. Carregaste os grilhões da impiedade humana, na desolação e no deserto; converteste em cânticos de esperança as ignomínias do cativeiro; sofreste o opróbrio dos poderosos da Terra; viste os teus varões e as tuas mulheres, os teus jovens e as tuas crianças exterminados sob o guante das perseguições, mas nunca descreste da justiça dos Céus! Como o Salmista, afirmaste com teu heroismo que o amor e a misericórdia vibram em todos os teus dias! Choraste no caminho longo dos séculos, com as tuas amarguras e feridas. Como Job, viveste da tua fé, subjugada pelas algemas do mundo, mas já recebeste o sagrado depósito de Jeová — O Deus Único!... Oh! esperanças eternas de Jeru salém, cantai de júbilo, regozijai-vos, embora não tivés semos sido fiéis inteiramente à compreensão, por condu zir o Cordeiro Amado aos braços da cruz. Suas chagas, todavia, nos c ompraram para o céu, com o alto preço do sacrifício supremo!... “Isaías o contemplou, vergado ao peso de nossas iniqüidades, florescendo na aridez dos nossos corações, qual flor do céu num solo adusto, mas, revelou também, que, desde a hora da sua extrema renúncia, na morte infamante, a sagrada causa divina prosperaria para sem pre em suas mãos. “Amados, onde andarão aquelas ovelhas que não souberam ou não puderam esperar? Procuremo-las para o Cristo, como dracmas perdidas do seu desvelado amor! Anunciemos a todos os desesperançados as glórias e os júbilos do seu reino de paz e de amor imortal!... “A Lei nos retinha no espírito de nação, sem con seguir apagar de nossa alma o desejo humano de supre macia na Terra. Muitos de nossa raça hão esperado um príncipe dominador, que penetrasse em triunfo a cidade santa, com os troféus sangrentos de uma bata lha de ruína e morte; que nos fizesse empunhar um cetro odioso de força e tirania. Mas o Cristo nos libertou para sempre. Filho de Deus e emissário da sua glória, s eu maior mandamento confirma Moisés, quando reco menda o amor a Deus acima de todas as coisas, de todo o coração e entendimento, acrescentando, no mais formoso decreto divino, que nos amemos uns aos outros, como Ele próprio nos amou. “Seu reino é o da cons ciência reta e do coração purificado ao serviço de Deus. Suas portas constituem o maravilhoso caminho da redenção espiritual, abertas de par em par aos filhos de todas as nações. “Seus discípulos amados virão de todos os qua drantes. Fora de suas luzes haverá sempre tempestade para o viajor vacilante da Terra que, sem o Cristo, cairá vencido nas batalhas infrutuosas e destruidoras das me lhores energias do coração. Somente o seu Evangelho confere paz e liberdade. Ë o tesouro do mundo. Em sua glória sublime os justos encontrarão a coroa de triunfo, os infortunados o consolo, os tristes a fortaleza do bom ânimo, os pecadores a senda redentora dos resgates mi sericordiosos. “É verdade que o não havíamos compreendido. No grande testemunho, os homens não entenderam sua divina humildade, e os mais afeiçoados o abandonaram. Suas chagas clamaram pela nossa indiferença criminosa. Ninguém poderá eximir-se dessa culpa, visto sermos todos herdeiros das suas dádivas celestiais. Onde todos gozam do benefício, ninguém pode fugir à responsabilidade. Essa a razão por que respondemos pelo crime do Calvário. Mas, suas feridas foram a nossa luz, seus martírios o mais ardente apelo de amor, seu exemplo o roteiro aberto para o bem sublime e imortal. “Vinde, pois, comungar conosco à mesa do banquete divino! Não mais as festas do pão putrescível, mas o eterno alimento da alegria e da vida... Não mais o vinho que fermenta, mas o néctar confortante da alma, diluído nos perfumes do amor imortal. “O Cristo é a substância da nossa liberd ade. Dia virá em que o seu reino abrangerá os filhos do Oriente e do Ocidente, num amplexo de fraternidade e de luz. Então, compreenderemos que o Evangelho é a resposta de Deus aos nossos apelos, em face da Lei de Moisés. A Lei é humana; o Evangelho é divino. Moisés é o condutor; O Cristo, o Salvador. Os profetas foram mordomos fiéis; Jesus, porém, é o Senhor da Vinha.
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