Livros Espíritas
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O zimbório estrelado, aos raios liriais da Lua, espalhava em torno vibrações de beleza inexprimível, semeando esperança, alegria e consolo. Informado quanto aos objetivos que nos conduziriam à Crosta, com escalas por uma colônia purgatorial de vasta expressão, vali-me da hora amena para aproveitar a convivência com o Instrutor, tentando arrancar-lhe observações que vinham sempre revestidas de preciosos ensinamentos. — É admirável pensar, — aventurei respeitosamente, — que se formam verdadeiras expedições em nossa Esfera para atender a simples caso de obsessão… — Os homens encarnados, — redarguiu o orientador com certa vaguidade no olhar, qual se trouxesse a alma presa a imagens fugidias do pretérito, — não suspeitam a extensão dos cuidados que despertam em nossos Círculos de ação. Somos todos, eles e nós, corações imantados uns aos outros, na forja de benditas experiências. No romance evolutivo e redentor da Humanidade, cada Espírito possui capítulo especial. Ternos e ríspidos laços de amor e ódio, simpatia e repulsão, acorrentam-nos reciprocamente. As almas corporificadas na Crosta guardam-se em passageiro sono, com esquecimento temporário quanto às atividades pregressas. Banham-se no , cujas águas lhes facultam, durante certo tempo, valiosa segurança para retorno a oportunidades de elevação, todavia, enquanto se mergulham em olvido benéfico, demoramo-nos, por nossa vez, em abençoada vigília. Os perigos que nos ameaçam os entes amados de agora ou de épocas que o tempo consumiu, desde muito, não nos deixam impassíveis. Os homens não se acham sozinhos na estreita senda de provas salutares em que se confinam. A responsabilidade pelo aperfeiçoamento do mundo compete-nos a todos. — Esclarecido, com respeito à jovem senhora que nos cabia socorrer, aduzi, reverente: — A enferma, a cuja assistência fomos admitidos, está por exemplo em vosso passado espiritual… — Sim, — confirmou Gúbio, humilde, — mas não fui designado para servir no caso de Margarida, a doente que nos compele à breve expedição do momento, apenas porque houvesse sido minha filha em eras recuadas. Em cada problema de socorro, é imprescindível considerar as várias partes em jogo. Em virtude do enigma de obsessão que nos propomos resolver, somos constrangidos a buscar todas as personalidades que compõem o quadro de serviço. Perseguidores e perseguidos entrelaçam-se, em cada processo de auxílio, em grande expressão numérica. Cada Espírito é um elo importante em extensa região da corrente humana. Quanto mais crescemos em conhecimentos e aptidões, amor e autoridade, maior é o âmbito de nossas ligações na esfera geral. Almas existem que se veem sob o interesse de milhões de outras almas. Enquanto os movimentos da vida se estendem, harmoniosos, sob os ascendentes do bem, as dificuldades não chegam a surgir; contudo, quando a perturbação se estabelece, não é fácil desfazer obstáculos, porque, em tais circunstâncias, é indispensável procedamos com absoluta imparcialidade, dando a cada um quanto lhe caiba. O homem terrestre, mormente nos dias tormentosos, costuma ver somente o “seu lado”, mas, acima da justiça comum, propriamente considerada, outros tribunais mais altos funcionam… Em razão disso, todos os casos de desarmonia espiritual na Terra movem aqui extensa rede de servidores que passam a tratá-los, sem inclinações pessoais, em bases do amor que Jesus exemplificou e, nessas ocasiões, preparamo-nos a satisfazer todos os imperativos de trabalho salvacionista que a tarefa nos imponha ou proporcione, dentro das atividades que lhe são conexas. A essa altura da instrutiva conversação, chegamos a gracioso templo. Nesse doce recanto consagrado à materialização de entidades sublimes, a luz suave da noite calma como que se fazia mais bela. As vibrações constantes das preces, aí emitidas por vários séculos, tinham criado em torno da edificação prodigioso clima de encantamento. Melodia celeste derramava-se à surdina e as flores delicadas do átrio pareciam corresponder aos sons cristalinos, variando no brilho e na cor, quase que imperceptivelmente. Eu trazia o coração opresso, como se a felicidade das últimas horas, em que ouvira tão confortadoras e tão graves reflexões atinentes à extensão do mundo e da vida, me aproximasse a insignificância pessoal da grandeza divina, e lágrimas tranquilas inundaram-me o rosto. O Instrutor tomou-nos a frente e, juntos, penetramos o jardim que circundava o aprazível santuário. Alguns irmãos adiantaram-se, acolhedores. Um deles, o Instrutor Gama, que se encarregava dos serviços da casa, abraçou-nos e disse com bondade: — Chegam no momento preciso. Os doadores de fluidos sublimados encontram-se a postos e a outra comissão já veio. Entramos sem detença. Soube, de imediato, que outro grupo, constituído, aliás, por duas irmãs, ali se achava com o objetivo de receber instruções de serviço para Esferas mais baixas. Cariciosa claridade azul-brilhante banhava o largo recinto, adornado de flores níveas, semelhantes aos lírios que conhecemos na Terra. Não houve tempo para conversações prévias. Em seguida a saudações ligeiras e cordiais, foi composto o conjunto de oração. Os doadores de energia radiante, médiuns de materialização em nosso Plano, se alinhavam, não longe, em número de vinte. Comovedora partitura soou, argentina e leve, em aposento próximo, predispondo-nos à meditação de ordem superior. E logo após a prece, formosa e espontânea, pronunciada pelo responsável mais altamente categorizado na instituição, eis que a tribuna doméstica se ilumina. Esbranquiçada nuvem de substância leitosa-brilhante adensa-se em derredor e, pouco a pouco, desse bloco de neve translúcida, emerge a figura viva e respeitável de veneranda mulher. Indizível serenidade caracteriza-lhe o olhar simpático e o porte de madona antiga, repentinamente trazida à nossa frente. Cumprimenta-nos com um gesto de bênção, como que nos endereçando, a todos, os raios da luz esmeraldina que em forma de auréola lhe exornam a cabeça. As duas moças que formavam a comissão de serviços, estranha à nossa, avançaram com lágrimas discretas e rojaram-se, genuflexas. — Mãe querida, — clamou uma delas, com tal inflexão de voz que nos cortava as fibras mais íntimas, — ajuda-me a falar-te! A saudade longamente reprimida é um fogo que consome o coração. Auxilia-me! Não me deixes perder este doce e divino minuto! Apesar dos soluços de emoção que lhe vibravam no peito, continuou: — Abençoa-nos para a grande jornada!… Há muito tempo aguardamos esta hora breve de reencontro contigo… Perdoa-nos, mãezinha, se insistimos tanto na rogativa… Contudo, sem tua proteção amorosa, como vencer nos turbilhões do abismo? Desejando talvez justificar-se, ante os olhos maternos, acrescentava em pranto: — De conformidade com as tuas amadas recomendações, além de nossas tarefas habituais na zona de serviço em que a tua bondade nos situou, temos velado pelo paizinho, mergulhado nas sombras; todavia, há seis anos buscamo-lo embalde… Escapa-nos à influência renovadora e se compraz na companhia de entidades que, por onde passam, vampirizam as criaturas. Não nos recebe a atuação carinhosa, senão em forma de pensamentos vagos, de que se desvencilha facilmente, e, se multiplicamos providências salvacionistas, procede como louco… Gesticula a esmo, colérico e irritado, grita blasfêmias e solicita o concurso de seres viciados, a cujas radiações escuras se entrelaça, repelindo-nos as sugestões e a presença… Prefere o contato de entidades ignorantes e infelizes, detestando-nos a ternura… Nesse ponto, crise mais intensa de emotividade impediu-lhe continuar. A nobre senhora que descera da tribuna, erguendo as filhas e acolhendo-as nos braços, exclamou com acento consolador na voz sem lágrimas, não obstante a visível melancolia: — Filhas amadas, o Sol combate a treva todos os dias. Batalhemos contra o mal, incessantemente, até à vitória. Não se suponham sozinhas no conflito doloroso. Desculpemos o papai, infinitamente, e colaboremos por restituí-lo à terra firme da luz. Se o Cristo trabalha por nós, desde o princípio dos séculos, sem que lhe possamos compreender a amplitude dos sacrifícios, que dizer das nossas obrigações de amparo e tolerância, uns para com os outros? Cláudio se fez para sempre credor da nossa estima e gratidão, apesar do pavoroso crime oculto que no-lo arrebatou às profundezas… Envenenou um parente para conseguir a riqueza material que nos ofereceu educação e conforto na Esfera carnal. Por extrema dedicação a nós três, não hesitou diante da tentação que o constrangeu a infernal compromisso. Dono de afeição inquieta, não soube esperar a bênção do tempo e lançou mão de inconfessável processo para localizar-nos em um oásis de superioridade mentirosa… Para que ele nos sentisse garantidas e felizes, viveu durante quarenta anos consecutivos, entre o remorso e o sofrimento, psiquicamente sintonizado com Espíritos maliciosos e vingativos, das sombras, mas, na realidade, sobre as aflições dele nos foi possível atravessar abençoada existência de progresso e conforto, numa casa ditosa e farta, sem sabermos que em nossos alicerces espirituais vivia um ato escuro de assassínio e violência! A essa altura, a entidade materializada chorou, comovedoramente. Abraçadas as três, num quadro emocionante e mudo, a mãezinha encontrou recursos a fim de prosseguir: — Tornaremos, contudo, ao campo de luta regeneradora e benfazeja… Que vale para nós a paisagem celestial sem a libertação daqueles que amamos?
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A expressão “campos de saída” define lugares-limites, entre as Esferas inferiores e superiores. — Nota do Autor espiritual.
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