Livros Espíritas
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Reconheci que o instrutor percebeu, de relance, o estado de abatimento da médium, identificando as dificuldades que se opunham à prometida comunicação de Dionísio, mas, longe de se referir às advertências da véspera, ele próprio, agora, era quem se mostrava mais otimista, estimulando, ao que notei, o entusiasmo de Euclides a serviço do bem. Atingimos o vasto salão daquela oficina de espiritualidade, quando faltava precisamente um quarto para as vinte horas. Como sempre, os trabalhadores de nosso Plano eram numerosíssimos, nos múltiplos trabalhos de assistência, preparação e vigilância. Enquanto alguns amigos ansiosos e a família do comunicante, constituída de esposa e filhos, aguardavam a palavra de Dionísio, muito grande era o nosso esforço para melhorar a posição receptiva de Otávia. Alexandre, como de outras vezes, esmerava-se em ministrar o exemplo da cooperação sadia. Determinou que alguns colaboradores dos nossos auxiliassem o sistema endocrínico, de maneira geral, e proporcionassem ao fígado melhores recursos para a normalização imediata de suas funções, estabelecendo-se determinado equilíbrio para o estômago e intestinos, em virtude das necessidades do momento, para que o aparelho mediúnico funcionasse com a possível harmonia. Às vinte horas, reunida a pequena assembleia dos irmãos encarnados, foi iniciado o serviço, com a prece comovedora do companheiro que dirigia a casa. Valendo-se do concurso magnético que lhe fora oferecido, a médium sentia-se francamente mais forte. Mais uma vez, contemplava, admirado, o fenômeno luminoso da epífise e acompanhava o valioso trabalho de Alexandre na técnica de preparação mediúnica, reparando que ali o incansável instrutor se detinha com mais cuidado na tarefa de auxílio a todas as células do córtex cerebral, aos elementos do centro da linguagem e às peças e músculos do centro da fala. Terminada a oração e levado a efeito o equilíbrio vibratório do ambiente, com a cooperação de numerosos servidores de nosso Plano, Otávia foi cuidadosamente afastada do veículo físico, em sentido parcial, aproximando-se Dionísio, que também parcialmente começou a utilizar-se das possibilidades dela. Otávia mantinha-se a reduzida distância, mas com poderes para retomar o corpo a qualquer momento num impulso próprio, guardando relativa consciência do que estava ocorrendo, enquanto que Dionísio conseguia falar, de si mesmo, mobilizando, no entanto, potências que lhe não pertenciam e que deveria usar, cuidadosamente, sob o controle direto da proprietária legítima e com a vigilância afetuosa de amigos e benfeitores, que lhe fiscalizavam a expressão com o olhar, de modo a mantê-lo em boa posição de equilíbrio emotivo. Reconheci que o processo de incorporação comum era mais ou menos idêntico ao da enxertia da árvore frutífera. A planta estranha revela suas características e oferece seus frutos particulares, mas a árvore enxertada não perde sua personalidade e prossegue operando em sua vitalidade própria. Ali também, Dionísio era um elemento que aderia às faculdades de Otávia, utilizando-as na produção de valores espirituais que lhe eram característicos, mas naturalmente subordinado à médium, sem cujo crescimento mental, fortaleza e receptividade, não poderia o comunicante revelar os caracteres de si mesmo, perante os assistentes. Por isso mesmo, logicamente, não era possível isolar, por completo, a influenciação de Otávia, vigilante. A casa física era seu templo, que urgia defender contra qualquer expressão desequilibrante, e nenhum de nós, os desencarnados presentes, tinha o direito de exigir-lhe maior afastamento, porquanto, competia-lhe guardar as suas potências fisiológicas e preservá-las contra o mal, perto de nós outros, ou a distância de nossa assistência afetiva. A nossa atmosfera de harmonia, porém, não conseguia sossegar a perturbadora expectativa dos companheiros encarnados. Entre nós, prevaleciam o controle, a disciplina, o autodomínio; entre eles, sopravam o desequilíbrio e a inquietação. Exigiam um Dionísio-homem pela boca de Otávia, mas nosso Plano lhes impunha um Dionísio-Espírito, pelas expressões da médium. A família humana aguardava o pai emocionado e ainda submetido a paixões menos construtivas, mas auxiliávamos o irmão para que sua alma se mantivesse calma e enobrecida, em benefício dos próprios familiares terrestres. Falava o comunicante sob emotividade forte, mas Alexandre e Euclides, ocupando-se respectivamente dele e da intermediária, fiscalizavam-lhe as atitudes e palavras, para que se manifestasse tão somente nos assuntos necessários à edificação de todos, responsabilizando-o por todas as imagens mentais nocivas que a sua palavra criasse no cérebro e no coração dos ouvintes. Em vista disso, o comunicante portou-se, em todos os pontos da mensagem falada, com admirável dignidade espiritual, fazendo, porém, verdadeiros prodígios de disciplina interior, para calar certas situações familiares e conter as lágrimas estancadas no coração. Depois de falar quase quarenta minutos, dirigindo-se à família e aos colegas de luta humana, Dionísio despediu-se, repetindo tocante oração de agradecimento que Alexandre lhe ditou, comovido. Nosso concurso decorrera com absoluta harmonia. O manifestante ofereceu os possíveis elementos de identificação pessoal, mas a pequena congregação de encarnados não recebeu a dádiva como seria de desejar. Interrompida a concentração mental com o encerramento, iniciaram-se as apreciações, verificando-se que quatro quintos dos assistentes não aceitavam a veracidade da manifestação. Somente a esposa de Dionísio e alguns raros amigos sentiram-lhe, efetivamente, a palavra viva e vibrante. Os próprios filhos internaram-se pela região da dúvida e da negativa. Interpelado por um dos companheiros, expressou-se o mais velho: — Impossível. Não pode ser meu pai. Se fosse ele o comunicante, teria naturalmente comentado nossa difícil situação em família… Outro dos filhos de Dionísio ajuntou, levianamente: — Não acredito em semelhante manifestação. Se fosse o papai, teria respondido às minhas interrogações íntimas. Será que no outro mundo os pais não mais se recordam do carinho devido aos filhos? No grupo em palestra, formado num dos recantos da sala, começou a insinuação maledicente. Apenas a viúva e mais três irmãos de ideal se mantinham juntos da médium, incentivando-lhe o espírito de serviço, através de palavras e pensamentos de compreensão e alegria. No agrupamento, onde os filhos externavam ingratas impressões, um amigo, tocado de cientificismo, afirmava, solene: — Não podemos aceitar a pretensa incorporação de Dionísio, Otávia conhece todos os pormenores de sua vida passada, permanece quase que diariamente em contato com a família, e o Espírito comunicante não revelou particularidade alguma, pela qual pudesse ser identificado. E depois de lançar a cinza do cigarro em pequenino vaso próximo, acrescentava, mordaz: — O problema da mediunidade é questão muito grave na Doutrina; o animismo é uma erva daninha em toda a parte. Nosso intercâmbio com o Plano invisível está repleto de lamentáveis enganos. Um dos rapazes presentes arregalou os olhos e perguntou, de súbito: — Considera, porém, o senhor que Dona Otávia seria capaz de enganar-nos? — Não, conscientemente, — tornou o cientificista com um sorriso superior, — entretanto, inconscientemente, sim. A maioria dos médiuns é vítima dos próprios desvairamentos emotivos. As personalidades comunicantes, em sentido comum, representam criações mentais dos sensitivos. Tenho estudado pacientemente o assunto para não cair, como acontece a muita gente, em conclusões fantásticas. Há que fugir do ridículo, meus amigos. Continuando a sorrir, sarcástico, acentuava, triunfante: — As emersões do subconsciente nas hipnoses profundas conseguem desnortear os mais valentes indagadores. E, como se as palavras difíceis e as referências preciosas representassem a derradeira solução do assunto, prosseguia, enfático: — A fim de corrigir os desbordamentos da imaginação no Espiritismo, criou-se a Metapsíquica para dirigir as nossas pesquisas intelectuais e não podemos esquecer que o próprio Richet morreu duvidando. Não lhe bastaram dezenas de anos consecutivos no estudo sistemático dos fenômenos. As próprias materializações não lhe asseguraram a certeza da sobrevivência. Portanto… A assembleia reduzida escutava-lhe a palavra importante, como se ouvisse um oráculo infalível. Noutro recanto do salão, comentava-se o mesmo assunto, discretamente. — Não acredito na veracidade da manifestação, — exclamava, em voz baixa, uma senhora relativamente moça, dirigindo-se ao marido e às amigas. — Afinal de contas, a comunicação primou pela banalidade… Nada de novo. Para mim, as palavras de Otávia procedem dela mesma. Não senti qualquer sinal concludente, com respeito à possível presença do nosso velho amigo. Seria muito desinteressante a Esfera dos desencarnados, se apenas proporcionasse aos que nos precedem as frivolidades que o suposto Dionísio nos trouxe. — Talvez tenha havido alguma perturbação, — disse o esposo da mesma senhora. — Não nos achamos livres dos mistificadores do Plano invisível… O grupo abafava o riso franco. Nunca experimentei tanta decepção como nesses instantes em que examinava o processo de incorporação mediúnica. Ninguém ali ponderava as dificuldades com que Euclides, o bom cooperador espiritual, fora defrontado para trazer à casa o conforto daquela noite.
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