Livros Espíritas
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O infortunado deixou pender a cabeça sobre um dos ombros dela, demonstrando infinita confiança, e murmurou infantilmente: — Mãe do Céu, ninguém na Terra jamais me falou assim… Via-se-lhe o alívio, através do semblante feliz. Cipriana amimou-o, bondosa, e explicou: — É imprescindível aquietes a mente afogueada, depositando nas mãos do Senhor as antigas angústias. A essa altura, voltei a Calderaro meu olhar comovido e notei que as lágrimas não brotavam exclusivamente dos meus olhos. O companheiro tinha-as abundantes a lhe deslizarem na face calma. Tocado por minha silenciosa indagação, falou-me em voz apenas perceptível: — Praza a Deus, André, possamos também aprender a amar, adquirindo o poder de transformar os corações. A emissária, que parecia não se dar conta de nossa presença, avançou para o verdugo, sustentando Pedro nos braços, como se lhe fora um filho doente. O perseguidor aguardou-a, ereto e altivo, revelando-se insensível ás palavras que nos haviam dominado os corações. A missionária, longe de intimidar-se, aproximou-se, tocando-o quase, e falou, humilde: — Que fazes tu, Camilo, cerrado à comiseração? O algoz, demonstrando incompreensível frieza, retorquiu, cruel: — Que pode fazer uma vítima como eu, senão odiar sem piedade? — Odiar? — Tornou Cipriana, sem se alterar. — Sabes a significação de tal atitude? As vítimas inacessíveis ao perdão e ao entendimento soem ultrapassar a dureza e a maldade dos precitos, provocando horror e compaixão. Quantos se valem desse título, para pôr de manifesto as monstruosidades que lhes povoam o ser! Quantos se aproveitam da hora de irreflexão de um amigo ignorante ou infeliz, para encetar séculos de perseguição no inferno da ira! A condição de vítima não te confere santidade; vales-te dela para semear, na própria senda, ruína e miséria, treva e destroços. Sem dúvida, Pedro feriu-te em momento de insânia, perdido de ilusão na mocidade turbulenta; no entanto, pai de família que foste, homem refletido e prudente que aparentavas ser, não encontraste no espírito mínima réstia de piedade fraternal para desculpá-lo. Há vinte anos instilas em torno de ti a peçonha da víbora, na postura do famulento chacal. Podendo conquistar a láurea dos vencedores com o Cristo, preferiste o punhal da vingança, ombreando-te com os malfeitores endurecidos. Onde esbarrarás, meu filho, com teus sentimentos desprezíveis? Em que muralha de angústia serás algemado pela Justiça de Deus? Dos olhos de Cipriana escorriam grossas lágrimas. Camilo vacilava entre a inflexibilidade e a capitulação. Extrema palidez cobria-lhe o rosto, e, quando nos pareceu que ia proferir uma resposta a esmo, a missionária dirigiu-se ao meu orientador, pedindo-lhe com humildade: — Calderaro, meu amigo, ajude-me a conduzi-los. Sigamos até ao lar de Pedro, onde Camilo atenderá nossos rogos. Meu companheiro não hesitou. Voltando-se para mim, obtemperou: — A Irmã transportará Pedro com os próprios recursos, mas o outro, terrivelmente escravizado aos pensamentos inferiores e às intenções criminosas, é pesado de carregar: conduzamo-lo nós ambos. Dando-lhe nossos braços, Calderaro à direita e eu à esquerda, reparei que o paciente não reagia; compreendendo, talvez, a inanidade de qualquer rebeldia, deixava-se levar sem protesto. Colocamo-nos, assim, em jornada rápida. Em breves minutos penetrávamos confortável residência, onde uma senhora, na sala de estar, tricotava, junto de dois filhos pequeninos. A conversação doméstica era doce, cristalina. — Mamãe, — dizia o menorzinho, — onde está o Neneco? — Voltou ao serviço. — E Celita? — No colégio. — E Marquinhos? — Também. — Eu queria “todo o mundo” aqui em casa… — Para quê? — Indagou a genitora, sorrindo. — Sabe, mamãe? Para rezarmos por papai. A senhora reparou, ontem à noite, como estava aflito e abatido? A jovem matrona transluziu certa angústia nos olhos, mas objetou, em tom firme: — Confiemos em Deus, meu filhinho. O médico recomendou-nos tranquilidade, e estou convencida de que a Providência nos ouvirá. Lançou inteligente olhar sobre a criança e acentuou: — Vá distrair-se, Guilherme; vá brincar. O pequeno Guilherme, porém, descansou o braço direito sobre um livro de primeiras letras, cismando, como se indiretamente percebesse nossa presença, enquanto a senhora súbito abandonava o tricô, para chorar num quarto, a distância. Acompanhávamos a cena, comovidos, quando Cipriana se dirigiu a Camilo, desapontado: — Continuemos. Efetivamente, nosso amigo subtraiu-te a vida física, noutro tempo, contraindo assim dolorosa dívida; entretanto, a voz deste menino devotado à prece não te sensibiliza o espírito endurecido? Este é o lar que o Pedro criminoso instituiu para criar o Pedro renovado… Aqui trabalha ele, exaustivamente, para retificar-se perante a Lei. Compreendendo a responsabilidade terrível, assumida com o golpe que te aplicou sem reflexão, meteu ombros a uma atividade desordenada e incessante, derruindo os centros físicos. Antes dos cinquenta anos, no corpo terrestre, revela evidentes sinais de decrepitude. Se cometeu falta grave, tem feito o possível por erguer-se, numa vida nobre e útil. Amparou devotada mulher no instituto do casamento, deu refúgio a cinco filhinhos, esforçando-se por norteá-los para o bem, através do trabalho honesto e do estudo edificante. Sem dúvida, Pedro cresceu no conceito dos amigos, galgou posição de abastança material; todavia, sabe agora, de experiência própria, que o dinheiro não soluciona problemas fundamentais do destino e que o elevado conceito que possamos conseguir dos outros nem sempre corresponde à realidade. Não obstante todas as vantagens conquistadas no âmbito material, tem vivido enfermo, infortunado, aflito… Apesar disto, tem a seu crédito o serviço realizado com boas intenções, o reconhecimento de uma companheira que o nobilita e as preces de cinco filhos agradecidos. Quanto a ti, que fizeste? Faz precisamente vinte anos que não abrigas outro propósito senão o de extermínio. O desforço detestável tem sido o objeto exclusivo de teus intuitos destruidores. Teu sofrimento, agora, nasce da volúpia da vingança. Vale a pena ser vítima, receber a palma santificante da dor, para descer tanto na escala da vida? A benfeitora fez breve pausa, fitou-o compadecidamente, e prosseguiu: — Contudo, Camilo, nossa palavra enérgica não se faz ouvir neste santuário, à laia de juízo irrecorrível. És, acima de tudo, nosso irmão, credor de nosso afeto, de nossa estima leal. Com o te visitar, nosso objetivo é ajudar-te. Talvez recuses nossa aliança fraterna, mas confiamos em tua regeneração. Também nós, em épocas remotas, demoramos no desfiladeiro fatal, a que te conduziste. Passamos longo tempo, na atitude da serpe venenosa, concentrada em si mesma, aguardando o ensejo de exterminar ou de ferir. No entanto o Senhor Todo Misericordioso nos ensinou que a verdadeira liberdade é a que nasce da perfeita obediência às Suas leis sublimes, e que só o amor tem suficiente poder para salvar, elevar e remir. Somos todos irmãos, suscetíveis das mesmas quedas, filhos do mesmo Pai… Não te falamos, pois, como anjos, senão como seres humanos regenerados, em peregrinação aos Círculos Maiores! Havia tal inflexão de carinho naquelas ternas e sábias considerações, que o perseguidor, dantes frio e impassível, prorrompeu em pranto. Mau grado tal modificação, alçou o indicador na direção de Pedro e exclamou: — Quero ser bom, e, todavia, sofro! Confrangem-me atrozes padecimentos. Se Deus é compassivo, porque me deixou ao desamparo?! Aqueles soluços, a explodirem-lhe da alma torturada, feriam-me fundo o coração. Como não chorar também, ali, ante aquela cena simbólica? Camilo e Pedro, entrelaçados no crime e no resgate, não representavam todos nós, os seres humanos falíveis? Cipriana, tolerante e maternal, não personificava a Compaixão Divina, sempre inclinada a ensinar com o perdão e a corrigir através do amor? Ouvindo as palavras do verdugo, a missionária observou: — Quem de nós, meu amigo, poderá apreender toda a significação do sofrimento? Indagas a razão por que permitiu o Senhor atravessasses tão dura prova… Não será o mesmo que interrogar o oleiro pelos motivos que o compelem a cozer o delicado vaso em calor ardente, ou inquirir do artista os propósitos que o levam a martelar a pedra bruta, para a obra-prima de estatuária? Camilo, a dor expande a vida, o sacrifício liberta-a. O martírio é problema de origem divina. Tentando solvê-lo, pode o espírito elevar-se ao píncaro resplandecente ou precipitar-se em abismo tenebroso; porque muitos retiram do sofrimento o óleo da paciência, com que acendem a luz para vencer as próprias trevas, ao passo que outros dele extraem pedras e acúleos de revolta, com que se despenham na sombra dos precipícios. Notando que o desventurado chorava amargamente, Cipriana continuou, depois de breve silêncio: — Chora! Desabafa-te! O pranto de compunção tem miraculoso poder sobre a alma ferida. Calou-se a emissária por minutos. Seus olhos muito lúcidos pareciam agora vaguear em paisagem distante… Recolheu Camilo, quase maquinalmente, nos braços, conservando os contendores conchegados ao peito, qual se lhes fora mãe comum. Transcorrido algum tempo, dirigiu carinhoso olhar ao algoz de Pedro e prosseguiu: — Comentas o mal que te feriu, invocas a Providência com expressões desrespeitosas… Ó meu filho, cala o dom de falar quando não puderes servir ao bem.
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