Livros Espíritas
Sugerir Edição de Documento
Editar documento
Título:
Autor:
Espiritos:
Capítulo:
Conteúdo:
20000
caracteres restantes
Mas, para evitar o exagero, que tudo amplia, não caiamos também na mania de negar ou de amesquinhar todas as coisas. Nolite omni spiritui credere, sed probate spiritus si ex Deo sint: Quoniam multi pseudoprophetoe exierunt in mundum. (I Joan. IV. 1).” Abade François Chesnel Senhor abade, O artigo que publicastes no Univers, relativamente ao Espiritismo, contém vários erros que importa retificar e que procedem, fora de dúvida, de um incompleto estudo da matéria. Para os refutar a todos, fora preciso retomar, desde o princípio, os diversos pontos da teoria, bem como os fatos que lhe servem de base, o que absolutamente não tenho a intenção de fazer aqui. Limito-me, pois, aos pontos principais. Fizestes bem em reconhecer que as idéias espíritas “recrutaram um certo número de homens honrosamente conhecidos no mundo”. Esse fato, cuja realidade ultrapassa de muito aquilo que acreditais, incontestavelmente merece a atenção de todo homem sério, pois tantas personalidades, eminentes pela inteligência, pelo saber e pela posição social não se apaixonariam por uma idéia despida de algum fundamento. A conclusão natural é que no fundo de tudo isso deve haver alguma coisa. Talvez objeteis que certas doutrinas, meio religiosas, meio sociais, nos últimos anos encontraram sectários nas próprias fileiras da aristocracia intelectual, o que não as impediu de cair no ridículo. Assim, pois, os homens de inteligência podem se deixar seduzir pelas utopias. A isso responderei que as utopias têm o seu tempo: cedo ou tarde a razão lhes faz justiça. Assim será com o Espiritismo, se ele não for uma utopia. Mas se for uma verdade, triunfará de todas as oposições, de todos os sarcasmos; direi mesmo, de todas as perseguições, se estas ainda pertencessem ao nosso século, e os detratores nada aproveitarão. Custe o que custar, seus opositores serão obrigados a aceitá-lo, como aceitaram tantas coisas contra as quais se havia protestado supostamente em nome da razão. O Espiritismo é uma verdade? O futuro o julgará. Parece, no entanto, que já se pronuncia, tal a rapidez com que essas idéias se propagam. E, notai bem, não é na classe ignorante e analfabeta que se encontram aderentes, mas, bem ao contrário, entre as pessoas esclarecidas. É de notar-se ainda que todas as doutrinas filosóficas constituem obra de homens, imbuídos de ideais mais ou menos grandes, mais ou menos justas; todas têm um chefe, em torno do qual se agruparam outros homens que partilham do mesmo ponto de vista. Quem é o autor do Espiritismo? Verdadeira ou falsa, quem imaginou essa teoria? É verdade que se procurou coordená-la, fomulá-la, explicá-la. Mas quem concebeu a idéia primeira? Ninguém; ou, melhor dizendo, todo mundo, porque todos puderam ver, e os que não viram foram aqueles que não quiseram ver ou o quiseram à sua maneira, sem sair do círculo das idéias preconcebidas, o que fez com que vissem e julgassem mal. O Espiritismo decorre de observações que cada um pode fazer e que não constituem privilégio de ninguém, o que explica a sua irresistível propagação. Não é o produto de nenhum sistema individual, e é isso que o distingue de todas as outras doutrinas filosóficas. Dissestes que essas revelações do outro mundo nem mesmo têm o mérito da novidade. Seria, pois, um mérito a novidade? Quem alguma vez pretendeu que fosse uma invenção moderna? Sendo uma conseqüência da natureza humana, e ocorrendo pela vontade de Deus, essas comunicações fazem parte das leis imutáveis pelas quais Ele rege o mundo; devem ter existido, pois, desde que o homem existe na Terra. Eis por que as encontramos na mais remota Antigüidade, entre todos os povos, tanto na história profana quanto na história sagrada. A ancianidade e a universalidade dessa crença são argumentos em seu favor. Daí a tirar conclusões desfavoráveis seria, acima de tudo, faltar de todo com a lógica. Em seguida dissestes que a faculdade dos médiuns pouco difere da dos sujeitos na mão do magnetizador, de outra maneira dito sonâmbulo; mas admitamos até que haja perfeita identidade. Qual poderia ser a causa dessa admirável clarividência sonambúlica que não encontra obstáculo nem na matéria nem na distância, e que se exerce sem o concurso dos órgãos da visão? Não seria a mais patente demonstração da existência e da individualidade da alma, pivô da religião? Se eu fosse sacerdote, e se durante o sermão quisesse provar que há em nós algo mais que o corpo, demonstrá-lo-ia de maneira irrecusável pelos fenômenos do sonambulismo, natural ou artificial. Se a mediunidade nada mais é que uma variedade do sonambulismo, nem por isso seus efeitos são menos dignos de observação. Neles eu encontraria uma prova a mais em favor de minha tese e dela faria uma nova arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas as nossas faculdades são obra de Deus. Quanto maiores e mais maravilhosas, mais elas atestam o seu poder e a sua bondade. Para mim, que durante trinta e cinco anos fiz um estudo especial do sonambulismo; que nele vi uma variedade não menos profunda de quantas modalidades existem de médiuns, asseguro, como todos aqueles que não julgam à vista de uma só face do problema, que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não se pode confundir com o sonâmbulo, e que a perfeita independência de seu pensamento é provada por fatos da maior evidência, por todos aqueles que se colocam nas condições requeridas para observar sem parcialidade. Abstração feita das comunicações escritas, qual o sonâmbulo que jamais fez brotar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e até mesmo tangíveis? Que pôde manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Terá sido por efeito sonambúlico que um médium desenhou, há quinze dias, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma pessoa jovem, falecida há dezoito meses, que ele não havia jamais conhecido, retrato reconhecido pelo pai, que se achava presente na sessão? Será por efeito sonambúlico que uma mesa responde com precisão às perguntas propostas, inclusive a perguntas mentais? Certamente, se admitirmos que o médium esteja num estado magnético, parece difícil acreditar que a mesa seja sonâmbula. Dizeis que o médium não fala com clareza senão das coisas que conhece. Como explicar o seguinte fato, e centenas de outros do mesmo gênero, que se reproduziram inúmeras vezes e que são do meu conhecimento pessoal? Um de meus amigos, excelente médium psicógrafo, pergunta a um Espírito se uma pessoa que ele não via há quinze anos ainda pertencia a este mundo. “Sim, ela ainda vive; mora em Paris, à rua tal, número tanto.” Ele vai e encontra a pessoa no endereço indicado. Foi uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe essa resposta? Se, em certos casos, as respostas podem coincidir com o pensamento, é racional concluir que se trata de uma lei geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser desmentidos pelos fatos que não foram observados. Apesar disso, sr. abade, minha intenção não é dar aqui um curso de Espiritismo, nem discutir se ele é certo ou errado. Seria preciso, como o disse há pouco, relembrar os numerosos fatos que citei na Revista Espírita, bem como as explicações dadas em meus diversos escritos. Chego, enfim, à parte de vosso artigo que me parece mais importante. Intitulais vosso artigo: “Uma nova religião em Paris”. Admitindo que tal fosse, com efeito, o caráter do Espiritismo, aí haveria um primeiro erro, considerando-se que ele está longe de circunscrever-se a Paris. Conta milhões de aderentes espalhados nas cinco partes do mundo e Paris não foi o foco primitivo. Em segundo lugar, o Espiritismo é uma religião? Fácil é demonstrar o contrário.9 O Espiritismo está baseado na existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o espaço e que nada mais são do que as almas dos que viveram na Terra ou em outros globos, onde deixaram os seus invólucros materiais. São esses seres que havíamos dado, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos. Esses seres, que nos rodeiam incessantemente, exercem sobre os homens, mau grado seu, uma grande influência; desempenham um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo, pois, está em a Natureza e pode-se dizer que, numa certa ordem de idéias, é uma força, como a eletricidade também o é sob diferente ponto de vista, assim como a gravitação universal, igualmente.
Mais opções
Nota 1:
5000
caracteres restantes
(9) N. do T.: Em vão se tentará negar o aspecto religioso do Espiritismo, tomando por base, de forma isolada, o presente raciocínio de Allan Kardec. Há que se examinar o conjunto de sua obra, a fim de não se chegar a conclusões precipitadas. Na Revista Espírita de dezembro de 1868 o Codificador defende de maneira peremptória o caráter religioso da Doutrina Espírita.
Formatar
Nova Nota
TAG
Valor
Mensagem para o avaliador (caso precise explicar suas sugestões):
3000
caracteres restantes
Criado por (coloque telefone ou e-mail caso seja necessário entrar em contato):
Cancelar
Salvar
Aguarde um momento...
×
Deseja sair do sistema?
×
Confirma a operação?
×