Livros Espíritas
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— Os sábados. — Pois bem; depois de amanhã iremos juntos apre ciar os sandeus. Caso verifique o caráter inofensivo dos seus ensinamentos, haverá que os deixar em paz com a sua logomania, ao lado das mazelas do próximo; mas, caso contrário, pagarão muito caro a audácia de ofender nossos códigos religiosos, na própria metrópole do ju daísmo. Ainda por longo tempo comentaram os fatos sociais, as tricas do farisaísmo a que pertenciam, os sucesso s do presente e as esperanças do porvir. Ao cair da tarde desse mesmo dia, a biga elegante de SauLo de Tarso atravessava as portas de Jerusalém, tomando a direção do porto de Jope. O sol ardente, alto ainda no horizonte, enchia o caminho com a sua luz muito viva, O semblante do jovem doutor da Lei irradiava uma alegria louca, ao trote largo dos animais, que, de quando em vez, passa vam a galopar. Recordava, satisfeito, o esporte a que se afeiçoara na cidade natal, tão ao gosto grego em que fora educado, gra ças à solicitude paterna. Olhos fixos nos cavalos árdegos e velozes, vinham -lhe à mente as vitórias alcançadas, entre os parceiros de jogos na sua descuidosa adolescência. Poucas milhas distante, erguia -se uma casa confortável, entre grandes tamareiras e pessegueiros em flor. Em torno, grandes plantações de legumes, ao lado de tênue fio dágua inteligentemente aproveitado em extenso horto. A propriedade era parte integrante de uma das muitas pequenas aldeias que rodeavam a cidade santa, onde quer que houves se condições favoráveis para a pequena lavoura, de alto interesse nos mercados de Jerusalém, colocada no meio de uma secura singular. Era aí que Zacarias se instalara com a família, para recomeçar a vida honesta, Ruth e Abigail procuravam ajudá -lo no seu nobre esforço de homem ativo e traba lhador, cultivando frutos e flores, e com isso aproveitando toda a terra disponível. Deixando Corinto, o generoso israelita encontrou grandes dificuldades, até que desembarcou em Cesaréia, onde se lhe esgotaram os últim os recursos, Alguns conterrâneos, entretanto, o apresentaram a conhecido patrí cio romano, grande proprietário na Samaria e que lhe emprestou avultada soma, recomendando-lhe aquela zona de Jope onde poderia arrendar -lhe a propriedade de um amigo. Zacarias aceitou o auxílio e tudo ia às mil maravilhas. A venda de legumes e frutas, bem como a criação de aves e animais pesados, compensavam -lhe as fadigas. Embora distante de Jerusalém, tivera ensejo de visitar a cidade, mais de três vezes, sendo que, sob o amparo de Alexandre, parente próximo de Anás, conseguira incluir -se entre os negociantes privilegiados, que podiam vender animais para os sacrifícios do Templo. Auxiliado por amigos influentes, do estofo de Gamaliel e de Saulo de Tarso, que se emancipara da c ondição de discípulo para graduar -se em autoridade competente, no mais alto tribunal da raça, pudera resgatar grande parte de suas dívidas, caminhando vertiginosamente para uma bela posição de independência financeira, no país natal. Ruth regozijava -se com a vitória do marido, secundada por Abigail, em quem encontrara a dedicada afeição de verdadeira filha. A irmã de Jeziel parecia haver refundido a delica deza dos traços feminis, na forja dos sofrimentos expe rimentados. A gracilidade do semblante e o negrume dos olhos haviam -se irmanado a um véu de formosa tris teza, que a envolvera toda, a partir daqueles dias trá gicos e lúgubres, passados em Corinto. Quanto desejava uma notícia, ainda que ligeira e banal, do irmão que o destino havia convertido em escra vo de verdugos cruéis!... Para isso, desde os primeiros tempos, Zaca rias não poupara expedientes nem esforços. Incumbindo a um fiel amigo da Acaia de promover diligências em tal sentido, apenas fora informado de que Jeziel havia sido levado, quase a ferro s, para bordo de um navio mercante que se destinava a Nicópolis. Nada mais. Abigail instara novamente. E de Corinto vinham novas promessas dos amigos, que prosseguiriam investigando nas rodas afei çoadas a Licínio Minúcio, de modo a descobrirem o paradeiro do jovem cativo. Nesse dia, a moça recordava profundamente a figura do irmão querido, as suas advertências e conselhos tão carinhosos sempre. Desde que travara relações com o rapaz de Tarso e entrevira a possibilidade de uma união conjugal, era com ansie dade que suplicava a Deus a consoladora certeza da existência do irmão, fosse onde fosse. A seu ver, Jeziel gostaria de conhecer o eleito do seu coração, cujos pensamentos eram igualmente iluminados pelo zelo sincero de bem servir a Deus. Contar-lhe-ia que a afeição da sua alma era também entretecida de comentários religiosos e filosóficos, e não tinham conta as vezes em que ambos se submergiam na contemplação da Natureza, comparando as suas lições vivas com os símbolos divinos dos Escritos Sagrados. Saulo muito lhe ajudara no cultivo das flores da fé, que Jeziel havia semeado em sua alma singela. Não era ele um homem excessiva mente sentimental, dado às efusões dos carinhos que passam sem maior significação, mas, compreendera-lhe o espírito nobre e leal, que um profundo sentimento de autodomínio assinalava. Abigail estava certa de enten der-lhe as aspirações mais íntimas, nos sonhos grandio sos que lhe empolgavam a mocidade. Sublime atração, essa que a impelia para o jovem sábio, voluntarioso e sincero! As vezes, parecia-lhe áspero e enérgico em demasia. Suas concepções da Lei não admitiam meios-termos. Sabia ordenar e desagradava -lhe qualquer expressão de desõbediência aos seus propósitos. Aqueles meses de convívio, quase diário, davam-lhe a conhecer o seu temperamento indômito e inquieto, a par de um coração eminentemente generoso, onde uma fonte de ignorada ternura se retraía em abismais profundezas. Mergulhada em cismas, num gracioso banco de pedra junto dos pessegueiros em festa primaveril, viu que o c arro de Saulo se aproximava ao trote largo dos animais. Zacarias o recebeu a distância e, juntos, em conver sação animada, demandaram o interior, para onde a jovem se dirigiu. A palestra estabeleceu-se no tom de cordialidade, que se repetia várias vezes na semana, e, como de cos tume, os dois jovens, no deslumbramento da paisagem crepuscular, quase de mãos dadas como dois prometidos, desceram ao pomar cuja relva se constituía de espaçosos canteiros de flores orientais. O mar estendia-se à distância de muitas milhas, mas o ar fresco da tarde dava a impressão dos ventos suaves que sopram do litoral. Saulo e Abigail falaram, a princípio, das banalidades de cada dia; contudo, em dado momento, reconhecendo o véu de tristeza que se estampava no rosto da compa nheira, o moço interrogou-a com ternura: — Por que estás tão triste hoje? — Não sei — respondeu ela de olhos úmidos mas tenho pensado muito em meu irmão. Espero, ansiosa, notícias dele, pois guardo a esperança de que te possa conhecer, mais cedo ou mais tarde. Jeziel acolheria tua palavra com entusiasmo e contentamento. Um amigo de Zacarias prometeu informações a respeito e estamos es perando notícias de Corinto. Depois de pequena pausa, ergueu os grandes olhos e prosseguiu: — Ouve, Saulo: Se Jeziel aind a estiver preso, prometes-me teu auxílio em seu favor? Teus prestigiosos amigos de Jerusalém poderão intervir para libertá lo, junto do Procônsul da Acaia! Quem sabe? Minhas espe ranças, agora, resumem-se exclusivamente em ti. Ele tomou-lhe a mão e replicou enternecido: — Farei tudo por ele. E, fixando nela os olhos dominadores e apaixonados, acentuou: — Abigail, amarias a teu irmão mais que a mim? — Que dizes? — exclamou, compreendendo a deli cadeza da pergunta. — Entendes o meu coração fra terno e isso me exime de mais amplas explicações. Como sabes, querido, Jeziel foi meu amparo nos dias da orfan dade materna. Companheiro de infância e amigo da juventude sem sonhos, foi sempre o irmão carinhoso que me ensinou a soletrar os mandamentos, a cantar os Salmos de mãos-postas, livrando-me das veredas do mal e inclinando -me ao bem e à virtude. Tudo que encon traste em mim, constitui dádiva da sua generosa assistência de irmão desvelado. Saulo observou-lhe o olhar úmido de pranto e con siderou com bondade: — Não chores. Compreendo as tuas sagradas razões afetivas. Se necessário, irei ao fim do mundo descobrir Jeziel, caso ainda esteja vivo. Levarei cartas de Jerusalém à Corte Provincial de Corinto. Farei tudo. Tran qüiliza-te, pois. Pelos teus informes, presumo nele um santo. Mas falemos de outras coisas. Há problemas imediatos a resolver. E nossos projetos, Abigail? — Deus há de abençoar-nos, murmurou a jovem, comovida. — Ontem, Dalila e o esposo foram a Lida, em visita a alguns parentes nossos. Entretanto, ficou tudo combinado para que estejas conosco em Jerusalém, daqui a dois meses. Antes que minha irmã empreenda a pró xima viagem a Tarso, quero que ela te conheça mais intimamente, a fim de que exponha, com franqueza, a meus pais, o nosso projeto de casamento. — Teu convite me sensibiliza sobremaneira, mas... — Nada de restrições nem timidez. Viremos bus car-te. Combinarei todas as providências indispensáveis, com Ruth e Zacarias, e, quanto ao necessário para que te apresentes numa cidade grande, não permitirei que façam aqui despesa alguma. Já estou providenciando para que recebas, em breves dias, várias túnicas de modelo grego. E rematava a observação com um belo sorriso: — Quero que apareças em Jerusalém como expoente perfeito da nossa raça, desenvolvida entre as antigas belezas de Corinto. A moça fez um gesto tímido, demonstrando íntimo contentamento. Mais alguns passos e sentaram -se sob velhos pesse gueiros floridos, respirando a longos haustos as virações suaves que perfumavam o ambiente. A terra cultivada e colorida de rosas de todos os matizes, exalava delicioso aroma. O fim do crepúsculo está sempre cheio de sons que passam apressados, como se a alma das coisas estivesse igualmente ansiosa pelo silêncio, amigo do grande repouso...
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