Livros Espíritas
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Resp. – Isso vos será explicado mais tarde. 62. Poderíeis descrever seu gênero de suplício? Resp. – É atroz para ele. Como sabeis, foi condenado a ficar na casa onde o crime foi cometido, sem poder dirigir o pensamento a outra coisa senão ao crime, sempre diante de seus olhos, e julga-se condenado a essa tortura para todo o sempre. 63. Está mergulhado na escuridão? Resp. – Escuridão, quando quer afastar-se desse lugar de exílio. 64. Qual o gênero de suplício mais terrível que pode experimentar um Espírito, neste caso? Resp. – Não há descrição possível das torturas morais que são a punição de certos crimes. O próprio que as experimenta teria dificuldade em vos dar uma idéia. Mas a mais horrível é a certeza de ser condenado sem apelação. 65. Ele se acha nessa situação há dois séculos. Avalia o tempo como o fazia quando encarnado, isto é, o tempo lhe parece mais ou menos longo, como quando vivia? Resp. – Parece-lhe antes mais longo: para ele o sono não existe. 66. Foi-nos dito que, para os Espíritos, o tempo não existia e que, para eles, um século é um ponto na eternidade. Não é o mesmo para todos? Resp. – Certo que não. Só o é para os Espíritos chegados a um grau muito elevado de progresso; mas para os Espíritos inferiores o tempo é por vezes muito longo, sobretudo quando sofrem. 67. Esse Espírito é punido muito severamente pelo crime que cometeu. Ora, dissestes-nos que antes desta última existência ele tinha vivido entre as tribos mais bárbaras. Lá deve ter cometido atos no mínimo tão atrozes quanto o último. Foi punido do mesmo modo? Resp. – Foi menos punido, porque, sendo mais ignorante, compreendia menos o alcance. Observação – Todas as observações confirmam este fato, eminentemente conforme à justiça de Deus, de que as penas são proporcionais, não à natureza da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à possibilidade de compreender o mal que faz. Assim, menos grave em aparência, uma falta poderá ser mais severamente punida num homem civilizado, que um ato de barbárie num selvagem. 68. O estado em que se encontra esse Espírito é o dos seres vulgarmente chamados danados? Resp. – Absolutamente; há outros ainda muito mais horríveis. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, inclusive para crimes semelhantes, pois variam conforme seja o culpado mais ou menos acessível ao arrependimento. Para este, a casa onde cometeu o crime é seu inferno; outros o trazem em si mesmos, pelas paixões que os atormentam e que não podem satisfazer. Observação – Com efeito, vimos avarentos sofrerem à vista do ouro, que se lhes tornara uma verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pela inveja das honras que viam prestar e que não se dirigiam a eles; homens que haviam mandado na Terra, humilhados pelo poder invisível que os constrangia a obedecer e pela visão de seus subordinados, que não mais se dobravam diante deles; ateus sofrendo as angústias da incerteza e se achando num isolamento absoluto em meio à imensidade, sem encontrar nenhum ser que os pudesse esclarecer. Se no mundo dos Espíritos há alegrias para todas as virtudes, há penas para todas as faltas, e as que não são alcançadas pelas leis dos homens, sempre o são pela lei de Deus. 69. Apesar de sua inferioridade, esse Espírito sente os bons efeitos da prece; vimos o mesmo da parte de outros Espíritos igualmente perversos e da mais bruta natureza. Como é possível a Espíritos mais esclarecidos, de inteligência mais desenvolvida, mostrarem completa ausência de sentimentos; sorrirem de tudo quanto há de mais sagrado; numa palavra, de nada se tocarem nem concederem a menor trégua ao seu cinismo? Resp. – A prece não tem efeito senão em favor do Espírito que se arrepende. Aquele que, impelido pelo orgulho, revolta-se contra Deus e persiste nos seus desvios, ainda os exagerando, como fazem os Espíritos infelizes, sobre estes a prece nada pode nem poderá fazer, a não ser quando um clarão de arrependimento neles se manifestar. Para eles a ineficácia da prece é também um castigo. Ela só alivia os que não estão totalmente endurecidos. 70. Quando vemos um Espírito inacessível aos bons efeitos da prece, há uma razão para nos abstermos de orar por ele? Resp. – Não, certamente, porque cedo ou tarde ela poderá triunfar de seu endurecimento e fazer com que nele germinem pensamentos salutares. (Sexta sessão – em casa do Sr. F...) 71. Evocação. Resp. – Eis-me aqui. 72. Então, agora podes deixar a casa de Castelnaudary quando quiseres? Resp. – Permitem-me, porque aproveito vossos bons conselhos. 73. Experimentas algum alívio? Resp. – Começo a ter esperança. 74. Se pudéssemos ver-te, sob que aparência te veríamos? Resp. – Ver-me-íeis de camisa e sem punhal. 75. Por que não mais terias o punhal? Que fizeste dele? Resp. – Eu o maldigo; Deus me poupa sua vista. 76. Se o Sr. D... Filho voltasse a casa, ainda lhe farias mal? Resp. – Não, pois estou arrependido. 77. E se ele ainda te quisesse desafiar? Resp. – Oh! não me pergunteis isso; não poderia me dominar; isto estaria acima de minhas forças... porque não passo de um miserável. 78. As preces do Sr. D... Filho ser-te-iam mais salutares que as de outras pessoas? Resp. – Sim, pois a ele é que fiz o maior mal. 79. Muito bem! Continuaremos a fazer por ti o que pudermos. Resp. – Obrigado. Pelo menos encontrei em vós almas caridosas. Adeus. (Sétima sessão) 80. Evocação do homem assassinado. Resp. – Eis-me aqui. 81. Que nome tínheis quando vivo? Resp. – Eu me chamava Pierre Dupont. 82. Qual era a vossa profissão? Resp. – Era salsicheiro em Castelnaudary, onde meu irmão mais velho, Charles Dupont, assassinou-me com um punhal, no meio da noite do dia 6 de maio de 1608. 83. Qual foi a causa do crime? Resp. – Meu irmão pensou que eu queria cortejar uma mulher a quem ele amava, e que eu via com muita freqüência. Mas ele se enganava, porquanto eu jamais havia pensado nisso. 84. Como ele vos matou? Resp. – Eu dormia; ele me feriu na garganta, depois no coração. Ferindo, despertou-me; quis lutar, mas logo sucumbi. 85. Vós o perdoastes? Resp. – Sim; no momento de sua morte, há 200 anos. 86. Com que idade ele morreu? Resp. – Com 80 anos. 87. Então ele não foi punido em vida? Resp. – Não. 88. Quem foi acusado por vossa morte? Resp. – Ninguém; naquele tempo de confusão prestava-se pouca atenção a tais coisas; isto de nada adiantaria. 89. Que aconteceu à mulher? Resp. – Pouco depois foi assassinada em minha casa por meu irmão. 90. Por que a assassinou? Resp. – Amor frustrado. Ele a tinha desposado antes de minha morte. (Oitava sessão) 91. Por que ele não fala do assassinato dessa mulher? Resp. – Porque o meu é o pior para ele. 92. Evocação da mulher assassinada. Resp. – Eis-me aqui. 93. Que nome tínheis em vida? Resp. – Marguerite Aeder, senhora Dupont. 94. Quanto tempo estivestes casada? Resp. – Cinco anos. 95. Pierre nos disse que seu irmão suspeitava de relações criminosas entre vós dois. Isso é verdade? Resp. – Nenhuma relação criminosa existia entre nós. Não acrediteis nisso. 96. Quanto tempo depois da morte de seu irmão Charles ele vos assassinou? Resp. – Dois anos depois. 97. Que motivo o impeliu? Resp. – O ciúme e o desejo de ficar com meu dinheiro. 98. Podeis relatar as circunstâncias do crime? Resp. – Ele me agarrou e feriu-me na cabeça, no ateliê de trabalho, com sua faca de salsicheiro. 99. Como é que não foi perseguido? Resp. – Para quê? Tudo era desordem naqueles tempos infortunados. 100. O ciúme de Charles tinha fundamento? Resp. – Sim, mas não o autorizava a cometer semelhante crime, porque neste mundo todos somos pecadores. 101. Há quanto tempo estáveis casada, por ocasião da morte de Pierre? Resp. – Há três anos. 102. Podeis precisar a data de vossa morte? Resp. – Sim: 3 de maio de 1610. 103. Que pensaram da morte de Pierre? Resp. – Fizeram crer em assassinos que queriam roubar. Observação – Seja qual for a autenticidade desses relatos, que parecem difíceis de controlar, há um fato notável: a precisão e a concordância das datas e de todos os acontecimentos. Por si só essa circunstância é um curioso assunto de estudo, se considerarmos que esses três Espíritos, chamados em intervalos diversos, em nada se contradizem. O que pareceria confirmar suas palavras é que o principal culpado no caso, evocado por outro médium, deu respostas idênticas. (Nona sessão) 104. Evocação do Sr. D... Resp. – Eis-me aqui. 105. Desejamos pedir alguns detalhes sobre as circunstâncias de vossa morte. Poderíeis no-los dar? Resp. – De bom grado. 106. Sabíeis que a casa em que habitáveis era assombrada por um Espírito? Resp. – Sim; mas eu o quis desafiar e agi mal em fazê-lo. Melhor teria sido orar por ele. Observação – Por aí se vê que os meios geralmente empregados para nos desembaraçarmos dos Espíritos importunos não são os mais eficazes. As ameaças mais os excitam do que os intimidam. A benevolência e a comiseração têm mais poder que o emprego de meios coercitivos, que os irritam, ou das fórmulas, de que se riem. 107. Como esse Espírito vos apareceu? Resp. – À minha chegada em casa ele estava visível e me olhava fixamente; não pude escapar; fui tomado pelo pavor e expirei sob o olhar terrível desse Espírito que eu havia desprezado, e para o qual me havia mostrado tão pouco caridoso. 108. Não poderíeis pedir por socorro? Resp. – Impossível; minha hora havia chegado, e é assim que eu devia morrer. 109. Que aparência tinha ele? Resp. – De um furioso disposto a me devorar. 110. Sofrestes ao morrer?
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(9) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 569.
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