Livros Espíritas
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Os Espíritos têm suscitado o aparecimento de numerosos médiuns em todos os meios, no seio das classes e dos partidos mais diversos e até no fundo dos santuários. Sacerdotes têm recebido as suas instruções e as têm propagado abertamente ou, então, sob o véu do anonimato.(21) Seus parentes, seus amigos falecidos desempenhavam junto deles as funções de mestres e reveladores, ajuntando aos seus ensinos provas formais, irrecusáveis, da sua identidade. Foi por tais meios que, em cinqüenta anos, conseguiu o Espiritismo assenhorear-se do mundo e sobre ele derramar a sua claridade. Existe um acordo majestoso em todas essas vozes que se têm elevado simultaneamente para fazer ouvir às nossas sociedades cépticas a boa nova da sobrevivência e resolver os problemas da morte e da dor. A revelação tem penetrado por via mediúnica no coração das famílias, chegando até ao fundo dos antros e dos infernos sociais. Não dirigiram, como é sabido, os forçados da prisão de Tarragona ao Congresso Espírita Internacional de Barcelona, em 1888, uma tocante adesão em favor de uma doutrina que, diziam eles, os convertera ao bem e os reconciliara com o dever?! (22) No Espiritismo, a multiplicidade das fontes de ensino e de difusão constitui, portanto, um contraste permanente, que frustra e torna estéreis todas as oposições, todas as intrigas. Por sua própria natureza, a revelação dos Espíritos furta-se a todas as tentativas de monopólio ou falsificação. Em relação a ela é de todo impotente o espírito de domínio ou dissidência, porque, quando conseguissem extingui-la ou desnaturá-la num ponto, imediatamente ela reviveria em cem pontos diversos, malogrando assim ambições nocivas e perfídias. Nesse imenso movimento revelador, as almas obedecem a ordens que partem do Alto; são elas próprias que o declaram. A sua ação é regulada de acordo com um plano traçado de antemão e que se desenrola com majestosa amplitude. Um conselho invisível preside, do seio dos Espaços, à sua execução. É composto de grandes Espíritos de todas as raças, de todas as religiões, da fina flor das almas que viveram neste mundo segundo a lei do amor e do sacrifício. Essas potências benfazejas pairam entre o céu e a Terra, unindo-os num traço de luz por onde sem cessar sobem as preces, por onde descem as inspirações. Há, contudo, no que diz respeito à concordância dos ensinamentos espirituais, um fato, uma exceção que impressionou certos observadores e do qual eles se têm servido como de um argumento capital contra o Espiritismo: por que, objetam eles, os Espíritos que, na totalidade dos países latinos, afirmam a lei das vidas sucessivas e as reencarnações da alma na Terra, negam-na ou passam-na em claro nos países anglo-saxões? Como explicar uma contradição tão flagrante? Não há aí cabedal suficiente para destruir a unidade de doutrina que caracteriza a Revelação Nova? Notemos que não há contradição alguma, mas simplesmente uma graduação originada de preconceitos de casta, de raça e religião, inveterados em certos países. O ensino dos Espíritos, mais completo, mais extenso desde o princípio nos centros latinos, foi, em sua origem, restringido e graduado em outras regiões, por motivos de oportunidade. Pode-se verificar que todos os dias aumenta na Inglaterra e na América o número das comunicações espíritas que afirmam o princípio das reencarnações sucessivas. Muitas delas fornecem até argumentos preciosos à discussão travada entre espiritualistas de diferentes escolas. Tem lavrado de tal modo além do Atlântico à idéia reencarnacionista, que um dos principais órgãos espiritualistas americanos lhe é inteiramente favorável. O Light, de Londres, que ainda há pouco afastava essa questão, discute-a, hoje, com imparcialidade. Parece, pois, que, se a princípio houve sombras e contradições, eram elas apenas aparentes e quase nenhuma resistência oferecem a um exame sério.(23) A Revelação Espírita levantou, como sucede com todas as doutrinas novas, muitas objeções e críticas. Ponderemos algumas. Acusam-nos, antes de tudo, de termos grande empenho em filosofar; acusam-nos de termos edificado, sobre a base de fenômenos, um sistema antecipado, uma doutrina prematura, e de havermos comprometido assim o caráter positivo do Espiritualismo moderno. Um escritor de valia, fazendo-se intérprete de um certo número de psiquistas, resumia as suas críticas nestes termos: “Uma objeção séria contra a hipótese espírita é a que se refere à filosofia com que certos homens demasiadamente apressados dotaram o Espiritismo. O Espiritismo, que apenas devia ser uma ciência no seu início, é já uma filosofia imensa para a qual o universo não tem segredos.” Poderíamos lembrar a esse autor que os homens de quem ele fala representaram em tudo isso simplesmente o papel de intermediários, limitando-se a coordenar e publicar os ensinamentos que recebiam por via mediúnica. Por outro lado, devemos notar, haverá sempre indiferentes, cépticos, espíritos retardados, prontos a achar que andamos com muita pressa. Não haveria progresso possível, se tivesse de esperar pelos retardatários. É deveras engraçado ver pessoas, cujo interesse por essas questões apenas data de ontem, darem regras a homens como Allan Kardec, por exemplo, que só se atreveu a publicar os seus trabalhos ao cabo de anos de investigações laboriosas e de maduras reflexões, obedecendo nisso a ordens formais e bebendo em fontes de informação das quais os nossos excelentes críticos nem sequer parecem ter idéia. Todos aqueles que seguem com atenção o desenvolvimento dos estudos psíquicos podem verificar que os resultados adquiridos vieram confirmar em todos os pontos e fortalecer cada vez mais a obra de Kardec. Friedrich Myers, o eminente professor de Cambridge, que foi durante vinte anos, diz Charles Richet, a alma da Society for Psychical Researches, de Londres, e que o Congresso oficial internacional de Psicologia de Paris elevou, em 1900, à dignidade de presidente honorário, declara nas últimas páginas de sua obra magistral, La Personnalité Humaine, cuja publicação produziu no mundo sábio uma sensação profunda: “Para todo investigador esclarecido e consciencioso essas indagações vão dar lugar, lógica e necessariamente, a uma vasta síntese filosófica e religiosa.” Partindo desses dados, consagra o capítulo décimo a uma “generalização ou conclusão que estabelece um nexo mais claro entre as novas descobertas e os esquemas já existentes do pensamento e das crenças dos homens civilizados”.(24) Termina assim a exposição de seu trabalho: “Bacon previra a vitória progressiva da observação e da experiência em todos os domínios dos estudos humanos; em todos, exceto um: o domínio das coisas divinas. Empenho-me em mostrar que essa grande exceção não é justificada. Pretendo que existe um método para chegar ao conhecimento das coisas divinas com a mesma certeza, a mesma segurança com que temos alcançado os progressos que possuímos no conhecimento das coisas terrestres. A autoridade das igrejas será substituída, assim, pela da observação e experiência. Os impulsos da fé transformar-se-ão em convicções racionais e firmes, que darão origem a um ideal superior a todos os que a humanidade houver conhecido até esse momento.” Assim, o que certos críticos de pouca sagacidade consideram como tentativa prematura, aparece a F. Myers como “evolução necessária e inevitável”. A síntese filosófica, que remata a sua obra, recebeu, no meio científico, a mais alta aprovação. Para Sir Oliver Lodge, o acadêmico inglês, “constitui ela um dos mais vastos, compreensíveis e bem fundados esquemas que, acerca da existência, têm sido vistos”.(25) O Prof. Flournoy, de Genebra, tece-lhe o maior elogio nos seus Archives de Psychologie de la Suisse Romande (junho de 1903). Na França, outros homens de ciência, sem ser espíritas, chegam a conclusões idênticas. Sr. Maxwell, doutor em Medicina, substituto do Procurador Geral junto à Corte de Apelação de Paris, exprimia-se assim:(26) “O Espiritismo vem a seu tempo e corresponde a uma necessidade geral... A extensão que essa doutrina está tomando é um dos fenômenos mais curiosos da época atual. Assistimos ao que me parece ser o nascimento de uma verdadeira religião sem cerimônias rituais e sem clero, mas com assembléias e práticas. Pelo que me diz respeito, acho extremo interesse nessas reuniões e sinto a impressão de assistir ao nascimento de um movimento religioso fadado para grandes destinos.” À vista de tais apreciações, as argúcias e as recriminações dos nossos contraditores caem por si mesmas. A que devemos atribuir a sua aversão à doutrina dos Espíritos? Será por se tornar o ensino espírita, com a sua lei das responsabilidades, o encadeamento de causas e efeitos que se desenvolvem no domínio moral e a sanção dos exemplos que nos traz, um terrível embaraço para grande número de pessoas que pouca importância ligam à filosofia? Falando dos fatos psíquicos, diz F. Myers:(27) “Essas observações, experiências e induções abrem a porta a uma revelação.” É evidente que no dia em que se estabeleceram relações com o mundo dos Espíritos, pela própria força das coisas, levantou-se imediatamente, com todas as suas conseqüências, com aspectos novos, o problema do ser e do destino. Diga-se o que se disser, não era possível comunicar com os parentes e amigos falecidos, abstraindo de tudo o que diz respeito ao seu modo de existência, sem tomar interesse pelas suas vistas forçosamente ampliadas e diferentes do que eram na Terra, pelo menos para as almas já desenvolvidas.
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(21) Ver Rafael, Le Doute; Padre Marchai, O Espírito Consolador; Reverendo Stainton Moses, Ensinos Espiritualistas. O Padre Didon escrevia (4 de agosto de 1876), nas suas Letres à Mile. Th. V. (Plon-Nourrit, edit., Paris, 1902), pág. 34: “Creio na influência que os mortos e os santos exercem misteriosamente sobre nós. Vivo em profunda comunhão com os invisíveis e sinto com delícia os benefícios de sua secreta convivência.” Em outra obra citamos os sermões de certos pastores ligados ao Espiritismo. (Ver Cristianismo e Espiritismo, nota complementar nº 6.) Um pastor eminente da igreja reformada da França escrevia-nos recentemente (fevereiro de 1905), a respeito de fenômenos observados por ele mesmo: “Pressinto que o Espiritismo pode realmente vir a ser uma religião positiva, não à maneira das reveladas, mas na qualidade de religião de acordo com o racionalismo e a Ciência. Coisa estranha! Na nossa época de materialismo, em que as igrejas parecem estar a ponto de se desorganizar e dissolver, o pensamento religioso volta a nós por sábios, acompanhado pelo maravilhoso dos tempos antigos. Todavia, esse maravilhoso, que eu distingo do milagre, visto que não é mais do que um fato natural superior e raro, não continuará a estar a serviço de uma igreja particularmente honrada com os favores da divindade; será propriedade da humanidade, sem distinção de cultos. Quanto maior grandeza e moralidade não há nisso?”
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(22) Ver Compte rendu du Congrès Spirite de Barcelone, 1888. Livraria das Ciências Psíquicas, Paris, 42, rua Saint-Jacques.
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(23) Ver mais adiante, caps. XIV, XV e XVI, os testemunhos obtidos na América e na Inglaterra, favoráveis à reencarnação.
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(24) F. Myers - La Personnalité Humaine, Félix Alcan, edição de 1905, págs. 401/403.
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(25) A síntese de F. Myers pode resumir-se assim: Evolução gradual e infinita, com estádios numerosos, da alma humana, na sabedoria e no amor. A alma humana tira a sua força e a sua graça de um universo espiritual. Esse universo é animado e dirigido pelo Espírito Divino, o qual é acessível à alma e está em comunicação com ela.
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Nota 6:
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(26) J. Maxwell - Les Phénomènes Psychiques, Alcan, edit., 1903, págs. 8 e 11.
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(27) F. Myers - La Personnalité Humaine, pág. 417.
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