Livros Espíritas
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— replicou Apolodoro com um sorriso de santa resignação. — Ainda agora, perdi um filho amado nessas horrorosas carnificinas. — Mas, como? — tornou o chefe da coorte admi rado. - Muito simplesmente — esclareceu o velhinho —: os cristãos são conduzidos aos circos do martírio e da morte, como escravos faltosos e misérrimos. Como ainda não existe um fundamento legal que justifique seme lhantes condenações, as vítimas são designadas como cativos que mereceram os suplícios extremos. — Mas não existe um político, ao menos, que possa desmascarar o torpe sofisma? — Quase todos os estadistas honestos e justos estão exilados, para não falar dos muitos induzidos ao suicídio pelos prepostos diretos do Imperador. Acreditamos que a perseguição declarada aos discípulos do Evangelho não tardará muito. A medida tem sido retardada somente pela intervenção de algumas senhoras convertidas a Jesus, que tudo têm feito pela defesa de nossos ideais. Não fora isso, talvez a situação se revelasse mais dolorosa. — Precisamos negar a nós mesmos e tomar a cruz —exclamou Paulo de Tarso, compreendendo o rigor dos tempos. — Tudo isso é muito estranho para nós outros —ponderou Júlio acertadamente —, pois não vemos razão para tamanha tirania. É u m contrasenso a perseguição aos adeptos do Cristo, que trabalham pela formação de um mundo melhor, quando por aí medram tantas comunidades de malfeitores, a reclamarem repressão legal. Com que pretexto se promove esse movimento sorrateiro? Apolodoro pareceu concentrar-se e replicou: — Acusam-nos de inimigos do Estado, a solapar -lhe as bases políticas com idéias subversivas e destruidoras. A concepção de bondade, no Cristianismo, dá azo a que muitos interpretem mal os ensinamentos de Jesus. Os romanos abastados, os ilustres, não toleram a idéia de fraternidade humana. Para eles o inimigo é inimigo, o escravo é escravo, o miserável é miserável. Não lhes ocorre abandonar, por um momento sequer, o festim dos prazeres fáceis e criminosos, para cogitar da elevaç ão do nível social. Raríssimos os que se preocupam com os problemas da plebe. Um patrício caridoso é apontado com ironias. Num tal ambiente, os desfavorecidos da sorte encontraram no Cristo Jesus um Salvador bem -amado, e os avarentos um adversário a elimin ar, para que o povo não alimente esperanças. Examinada essa circunstância, podemos imaginar o progresso da doutrina cristã, entre os aflitos e pobres, tendo -se em vista que Roma sempre foi um enorme carro de triunfo mundano, que segue com os verdugos autor itários e tirânicos na boléia, cercado de multidões famintas, que vão apanhando as migalhas de sobejo. As primeiras pregações cristãs passaram despercebidas, mas, quando a massa popular demonstrou entender o elevado alcance da nova doutrina, começaram as l utas acerbas. De culto livre em suas manifestações, o Cristianismo passou a ser rigorosa -mente fiscalizado. Dizia-se que nossas células eram ori ginárias de feitiçarias e sortilégios. Em seguida, como se verificaram pequenas rebeliões de escravos, nos palácios nobres da cidade, nossas reuniões de preces e bene fícios espirituais foram proibidas. As agremiações foram dissolvidas à força. Em vista, porém, das garantias de que gozam as cooperativas funerárias, passamos a nos reunir alta noite no âmago das cat acumbas. Ainda assim, descobertos pelos sequazes do Imperador, nossos núcleos de oração têm experimentado pesadas torturas. — É horrível tudo isso! — exclamou o centurião compungido — e o que admira é haver funcionários dis postos a executar determinações tão injustas!... Apolodoro sorriu e acentuou: — A tirania contemporânea tudo justifica. Não le vais, vós mesmo, um apóstolo prisioneiro? Entretanto, reconheço que sois dele um grande amigo. A comparação do velho e arguto observador fez em palidecer ligeiramente o centurião. — Sim, sim — murmurava ele, tentando explicar -se. Paulo de Tarso, todavia, reconhecendo a posição e o embaraço do amigo, acudiu esclarecendo: — Mas a verdade é que não fui encarcerado por malvadez ou inópia dos romanos, desconhecedores d e Jesus-Cristo, mas por meus próprios irmãos de raça. Aliás, tanto em Jerusalém como em Cesaréia, encontrei a mais sincera boa-vontade dos prepostos do Império. Em tudo isso, amigos, preponderam as injunções do ser viço do Mestre. Para o êxito indispensáve l dos seus esforços remissores, os discípulos não poderão caminhar no mundo sem as marcas da cruz. Os interlocutores entreolharam -se satisfeitos. A explicação do Apóstolo vinha elucidar completamente o problema. O grupo numeroso alcançou Alba Longa, onde novo contingente de cavaleiros esperava o valoroso missioná rio. Daí até Roma, a caravana moveu se mais vagarosa, experimentando sublimadas sensações de alegria. Paulo de Tarso, muito sensibilizado, admirava a beleza singu lar das paisagens desdobradas ao longo da Via Apia. Mais alguns minutos e os viajores atingiam a Porta Capena, onde centenas de mulheres e crianças aguar davam o Apóstolo. Era um quadro comovente! O cortejo parou para que os amigos o abraçassem. Eminentemente emocionado, o centurião acomp anhou a cena inesquecível, contemplando anciãs de cabelos neva dos osculando as mãos de Paulo, com infinito carinho. O Apóstolo, enlevado naquelas explosões de afeto, não sabia se havia de contemplar os panoramas prodi giosos da cidade das sete colinas, se paralisar o curso das emoções para prosternar -se em espírito, num preito justo de reconhecimento a Jesus. Obedecendo às ponderações amigas de Apolodoro, o grupo dispersou -se. Roma inteira banhava-se suavemente no crepúsculo de opalas. Brisas cariciosas sopravam, de longe, balsa mizando a tarde quente. Considerando que Paulo precisava de repouso, o centurião resolveu passar a noite numa hospedaria e apresentar-se com os prisioneiros no dia imediato, ao Quartel dos Pretorianos, depois de refei tos da longa e exaustiva viagem. Somente na manhã seguinte, compareceu perante as autoridades competentes, apresentando os acusados. Feliz expediente aquele, porque o ex-rabino sentia-se perfeitamente reconfortado. Na véspera, Lucas, Timóteo e Aristarco separaram-se dele, a fim de se instalarem na companhia dos irmãos de ideal, até poderem fixar a sua posição. O centurião de Cesaréia encontrou no Quartel da Via Nomentana altos funcionários que podiam perfeita mente atendê-lo, com referência ao assunto que o trazia à capital do Império; mas, fez questão de esperar o General Búrrus, amigo pessoal do Imperador e conhecido por suas tradições de honestidade, no intuito de escla recer o caso do Apóstolo. O General o atendeu com presteza e solicitude e ficou suficientemente informado da causa do ex -rabino, tanto quanto dos seus antecedentes pessoais e das lutas e sacrifícios que vinha amargurando. Prometeu estu dar o caso com o maior interesse, depois de guardar, solícito, os pergaminhos remetidos pela Justiça de Ce saréia. Na presença do Apóstolo, afirmou ao centurião que, caso os documentos provassem a cidadania romana do acusado, ele poderia gozar das vantagens da “custódia libera”, passando a viver fora do cárcere, apenas acom panhado por um guarda, até que a magnanimidade de César decidisse o seu recurso. Paulo foi recolhido à prisão com os demais com panheiros, como medida preliminar ao exame da do cumentação trazida. Júlio despediu -se comovido, os guardas abraçaram o ex-rabino, contristados e respeitosos. Os altos funcionários do Quartel acompanharam a cena com indisfarçável surpresa. Prisioneiro algum havia ali entrado, até então, com tamanhas manifestações de carinho e apreço. Depois de uma semana, em que lhe fora permitido o contacto permanente com Lucas, Aristarco e Ti móteo, o Apóstolo recebia ordem para fixar residência nas proximidades da prisão — privilégio conferido pelos seus títulos, embora obrigado a permanecer sob as vistas de um guarda policial, até que o seu recurso fosse definitivamente julgado. Auxiliado pelos confrades da cidade, Lucas alugou um aposento humilde na Via Nomentana, para lá se transferindo o valoroso pregador do Evangelho, cheio de coragem e confiança em Deus. Longe de esmorecer diante dos obstáculos, conti nuou redigindo epístolas consoladoras e sábias às comunidades distantes. No segundo dia de sua nova instalação, recomendou aos três companheiros procurassem trabalho, para não serem pesados aos irmãos, explicando que ele, Paulo, viveria do pão dos encarcerados, como era justo, até que Cés ar pudesse atender ao seu apelo. Assim o fez, de fato, e diariamente lá se ia às grades do calabouço, onde tomava a sua ração alimen tar. Aproveitava, então, essas horas de convivência com os celerados ou com as vítimas da maldade humana para pregar as verdades confortadoras do Reino, ainda que algemados. Todos o ouviam em deslumbramento espiritual, jubilosos com a notícia de que não se encontravam desamparados pelo Salvador. Eram criminosos do Esquilino, bandidos das regiões provincianas, malfeitores da S uburra, servos ladrões entregues à justiça pelos senhores para a necessária regeneração, e pobres perseguidos pelo despotismo da época, que sofriam a terrível influência dos vícios da administração. A palavra de Paulo de Tarso atuava como bálsamo d e santas consolações. Os prisioneiros ganhavam novas esperanças e muitos se converteram ao Evangelho, como Onésimo, o escravo regenerado, que passou à história do Cristianismo na carinhosa epístola a Filêmon. No terceiro dia da nova situação, Paulo de Tars o chamou os amigos para resolver determinados empreen dimentos que julgava indispensáveis. Encareceu a diligência de um entendimento com os israelitas. Precisava transmitir-lhes as claridades da Boa Nova. No entanto, era impossível, no momento, uma visita à sinagoga. Sem paralisar, contudo, os impulsos dinâmicos da sua mentalidade vigorosa, pediu a Lucas convocasse os maiorais do judaísmo na capital do Império, a fim de lhes apre sentar uma exposição de princípios, que supunha con veniente.
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