Livros Espíritas
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Entusiasmado com a atuação do nosso Instrutor, Saldanha entregou-se a gestos de humildade quase ingênua, e tanto ele quanto Leôncio passaram a cooperar ativamente conosco nos preparativos em benefício da solução que buscávamos. Ambos solicitaram continuidade do mesmo quadro ambiente, para não acordarmos, contra nós, desavisadamente, a fúria das entidades ignorantes que se mantinham em posição contrária à nossa. Poderiam organizar-se em legião ameaçadora e estragar-nos os melhores projetos. Conheciam processos de auxílio, iguais àquele em que funcionávamos e permaneciam informados quanto ao potencial da zona inimiga, do centro da qual poderiam surgir, de imediato, centenas de adversários, em massa, contra aquela instituição doméstica menos preparada a resistir um cerco de semelhante jaez. Ouvindo-lhes os pareceres, atentei para a situação de Gaspar, sem dissimular minha justificada estranheza. O hipnotizador, de presença desagradabilíssima pelos fluidos menos simpáticos que emitia, continuava ausente de nossas conversações. O próprio olhar, quase vítreo, incapaz de fixar-nos, dava ideia de paralisia da alma, de petrificação do pensamento. Não podendo sofrear a curiosidade por mais tempo, indaguei de Gúbio quanto ao que lhe ocorria. Que significava aquela máscara psicológica do magnetizador das sombras? Jazia surdo, quase cego, plenamente insensível. Respondia às mais longas e importantes perguntas, através de monossílabos, de modo vago, e demonstrava insistência irredutível, no setor de flagelação à vítima. O orientador, agora liberto de cuidados, esclareceu, prestimoso: — André, há obsessores marcadamente endurecidos de coração que se petrificam quando sob a influência de perseguidores ainda mais fortes e mais perversos que eles mesmos. Inteligências temíveis das trevas absorvem certos centros perispiríticos de determinadas entidades que se revelam pervertidas e ingratas ao bem e utilizam-nas como instrumentalidade na extensão do mal que elegeram por sementeira na vida. Gaspar encontra-se nessa situação. Hipnotizado por senhores da desordem, anestesiado pelos raios entorpecentes, perdeu transitoriamente a capacidade de ver, ouvir e sentir com elevação. Demora-se em aflitivo pesadelo, à maneira do homem comum, dentro do qual a dilaceração de Margarida se lhe torna a ideia fixa, obcecante. — Mas não poderá reintegrar-se na posse dos sentidos naturais? — Inquiri, sob forte impressão. — Perfeitamente. O magnetismo é uma força universal que assume a direção que lhe ditarmos. Passes contrários à ação paralisante restituí-lo-ão à normalidade. Tal operação, contudo, exige momento adequado. Há necessidade, no feito, de recursos regeneradores intensivos, suscetíveis de serem encontrados junto a serviços de grupo, em que a colaboração de muitos se entrosa a favor de um só, quando necessário. Nesse instante, Saldanha abeirou-se de nós e pediu instruções, sem rebuços. — Meu benfeitor, — disse a Gúbio, com reverência, — compreendo que demonstrar, de pronto, a nova situação seria atrair sobre nosso esforço terrível reação de quantos passarão a vigiar-nos desapiedadamente. Com franqueza, vejo-me num campo novo e desconheço o caminho por onde recomeçar. O interpelado anuiu com bondade: — Sim, Saldanha, permaneces bem inspirado. Estamos fracos para batalhar em conjunto. É indispensável que Margarida alcance melhoras positivas, antes de tudo. Aguardemos a noite. Espero situar o caso em algum núcleo de amor fraternal. Até lá, convém guardarmos o ambiente doméstico sem alterações, mesmo porque Gaspar é outro doente, exigindo especial atenção: traz o veículo perispirítico enfermiço e viciado, reclamando caridoso concurso. Mal não havia terminado a observação e Gabriel entrou no aposento e abeirou-se da esposa, desalentada e abatida. Gúbio agora, senhor da situação, aproximou-se do rapaz, sem alarde, e colocou sobre a fronte dele a destra paternal, dominando-lhe, no cérebro, as zonas diretas da inspiração, dando curso, naturalmente, a forças magnéticas suscetíveis de inclinar o problema de assistência a solução favorável. Reparei que o esposo de Margarida, sob a influência renovadora, passou a contemplar a companheira, enternecidamente. Tomou-lhe as mãos com sincera ternura e falou, espontâneo: — Margarida, dói-me ver-te assim, sob desânimo tão profundo. Pequena pausa pesou sobre ambos; contudo, ao cabo de alguns momentos, tornou o marido de olhos iluminados por indefinível esperança: — Ouve! Uma ideia súbita me brotou no pensamento. Desde muitos dias estamos atropelados por remédios violentos e medidas drásticas que não te socorreram com a eficiência precisa. Consentes em que eu peça, em nosso favor, o concurso de algum amigo interessado em Espiritismo Cristão? Tocada por aquela onda de abençoado carinho que fluía imperceptivelmente de Gúbio, por intermédio de Gabriel, a doente abriu os olhos, cheios de interesse novo, como quem encontrara inesperada senda salvadora e concordou, feliz: — Estou pronta. Aceitarei qualquer recurso que consideres por tua vez justo e digno. O esposo, num transporte de esperança, saiu precipitadamente, acompanhado de Gúbio, que nos recomendou a permanência ao lado de Saldanha, em preparativos de serviço para a noite próxima. Na intimidade do ex-perseguidor, não perdi tempo. Internara-me em atividade absolutamente nova para mim e desejava ampliar conhecimentos e recursos. Considerei que um trabalhador incompleto, em minha posição, precisa estudar sempre, e, aproximando-me do verdugo transformado em amigo, interroguei: — Saldanha, como explicar tamanho temor de nosso lado, perante os companheiros retardados? Ele fixou em mim o olhar espantado e observou: — Meu caro, conheço suficientemente este capítulo. Se nos dispusermos a lutar abertamente, conservando conosco esta jovem senhora enferma, em padrão físico de menor resistência, o malogro em nossos objetivos de socorro a ela será questão de alguns minutos. Nos Círculos inferiores em que nos encontramos, a maldade é força dominante em quase toda parte, contando com intérpretes que nos vigiam através de todos os flancos e não nos é fácil escapar. Para combater o mal e vencê-lo, urge possuir a prudência e a abnegação dos anjos. De outro modo é perder o tempo e cair, sem defesa, em perigosas armadilhas das trevas. O novo aliado relanceou o olhar pelo quarto, a fim de certificar-se de que não vínhamos sendo ouvidos por adversários comuns, e prosseguiu: — Eu mesmo, logo depois de minha vinda, tudo fiz por fugir ao mal, mas em vão. Velhas orações por mim aprendidas nos recessos do lar, que o tempo não consumiu de todo em meu espírito, articuladas então por minha boca, mereceram sarcasmo cruel dos inimigos do bem. Em verdade, pensamentos menos dignos me povoavam a cabeça, mas a vontade de melhorar-me era sincera em meu coração. Esforcei-me de alguma sorte, reagi quanto pude; todavia, meu impulso para o bem legítimo era, no fundo, um sopro frágil à frente de um tufão. Ao contato dessa gente desencarnada, infeliz e vingativa, perdi o resto da compostura moral que procurava debalde sustentar. Se a alma, liberta do corpo de carne, não se encontra amparada em princípios robustos de virtude santificante, sentida e vivida, é quase impossível sair vitoriosa das ciladas escuras que nos armam. — Entretanto, — objetei, — não será essa atitude mero reflexo da ignorância insustentável? — Admito que sim, — elucidou o obsessor modificado, surpreendendo-me pela clareza de argumentação; — todavia, não desconheces que a maior dificuldade não nasce da ignorância em si mesma, mas de nossa dureza contrária à capitulação indispensável. A sabedoria golpeia a insciência, a bondade humilha a perversidade, o amor verdadeiro sitia o ódio num círculo de ferro; no entanto, aqueles que são surpreendidos no campo da inferioridade manobram contra o bem, deliberadamente, mil armas de despeito, calúnia, inveja, ciúme, mentira e discórdia, provocando perturbação e desânimo. Assinalando-lhe a palavra tão fortemente esclarecida, cuja desenvoltura e acerto me assombravam, ponderei: — Teu próprio caso é um exemplo vivo. Espanta-me o cabedal de teus comentários inteligentes. De nenhum modo poderias ser um ignorante. — Ah! Sim! — Replicou o ex-verdugo, sorrindo, — inteligência não me falta. Leitura, idem. Estou positivamente informado com relação aos deveres de ordem geral que me competem. Faltava-me, contudo, a companhia de alguém que conseguisse mostrar-me a eficiência e a segurança do bem, no meio de tantos males. Imagina um esfomeado a ouvir discursos. Acreditas que as palavras lhe satisfaçam as exigências do estômago? Isso foi precisamente o que me ocorreu. Preocupado com a esposa e a nora, desencarnadas em terrível desequilíbrio, atormentado pelo filho louco e pela neta em perigo, não havia “espaço mental” em minha cabeça para simplesmente louvar teorias salvadoras. O benfeitor Gúbio, no entanto, demonstrou-me que o bem é mais poderoso que o mal. Isto para mim bastou, à saciedade. Nas dúvidas, o esclarecimento benéfico traduz verdadeira caridade. Reparou em derredor, com extrema desconfiança no olhar, e acentuou: — Sei, porém, de experiência própria, quem são os revoltados em cuja equipe trabalhei até ontem. Francamente, ainda não sei com certeza que será de mim mesmo. Perseguir-me-ão sem tréguas. Se puderem, conduzir-me-ão ao vale de miséria e penúria. Noto, contudo, que transformação salutar me possui agora o Espírito.
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