Livros Espíritas
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Obra traduzida do inglês e comentada por Camille Flammarion (Segundo artigo – Vide a Revista de junho de 1869) Como era nosso desejo, podemos anunciar hoje o aparecimento desta tradução tão longamente elaborada. Já fizemos notar no último número da Revista que esta obra, escrita nos últimos anos de sua vida por um dos maiores químicos do mundo, expôs ao livre-exame dos pensadores de quarenta anos atrás – 1829 – as teorias sobre as quais hoje se apóia a Doutrina Espírita, isto é, a pluralidade dos mundos habitados, a pluralidade das existências da alma, a reencarnação (na Terra e em outros planetas), a comunicação com os Espíritos através dos sonhos e dos pressentimentos, e até a teoria do perispírito. A tradução do Sr. Flammarion aparece hoje, ao mesmo tempo que a Revista. Logo esta obra estará nas mãos de todos os nossos leitores. Aliás, sua leitura será tanto mais instrutiva quanto o autor passa em revista os principais temas da ciência moderna e os grandes feitos da história da Humanidade, e que o tradutor teve o cuidado de completar por meio de notas sobre os progressos posteriormente realizados pela Ciência. O livro se divide em seis diálogos, que têm por títulos: a Visão, – a Religião, – o Desconhecido, – a Imortalidade, – a Filosofia da Química, – e o Tempo. Anunciando esta excelente obra, julgamos por bem extrair algumas de suas passagens, que darão uma justa idéia das opiniões filosóficas do ilustre químico inglês. O primeiro diálogo, a Visão, cuja cena se passa no Coliseu de Roma, tem por objeto uma viagem aos planetas, sob a condução de um Espírito, que Sir Humphry Davy escuta sem o ver. O Espírito faz aparecer o quadro das fases primitivas da Humanidade, e em seguida dirige a seguinte pergunta ao autor: “Tu vais dizer-me: ‘O Espírito é gerado? A alma é criada com o corpo?’ Ou isto: ‘A faculdade mental é o resultado da matéria organizada e um novo aperfeiçoamento dado à máquina, que provoca o movimento e o pensamento?’ “Depois de ter posto esta pergunta em minha cabeça, como se eu mesmo tivesse tido a intenção de lha dirigir, diz Davy, meu Gênio desconhecido modificou a inflexão de sua voz que, em vez de sua melodiosa doçura, tomou um timbre sonoro e majestoso. Eu vos proclamo, disse-me ele, que nem uma nem outra dessas visões são verdadeiras. Minha intenção é vos revelar os mistérios das naturezas espirituais; mas é de temer que, velado como sois pelos sentidos corporais, esses mistérios não vos possam ser compreensíveis. “As almas são eternas e indivisíveis, mas suas maneiras de ser são tão infinitamente variadas quanto as formas da matéria. Elas nada têm de comum com o espaço e, em suas transições, são independentes do tempo, de sorte que podem passar de uma parte a outra do Universo, por leis completamente estranhas ao movimento. As almas são seres intelectuais de diversos graus, pertencendo de fato ao Espírito infinito. Nos sistemas planetários (de um dos quais depende o globo que habitas) elas se encontram transitoriamente num estado de provação, tendendo constantemente e, em geral, gravitando sem cessar para um modo de existência mais elevado. “Se me fosse possível estender tua visão até os destinos das existências individuais, eu te poderia mostrar como o mesmo Espírito, que no corpo de Sócrates desenvolveu os fundamentos das virtudes morais e sociais, no corpo do czar Pedro foi dotado do poder supremo, gozando da incomparável felicidade de melhorar um povo grosseiro. Eu te poderia mostrar a mônada espiritual que, com os órgãos de Newton, deixou ver uma inteligência quase sobre-humana, situada agora num maior e mais elevado estado de existência planetária, haurindo a luz intelectual de uma fonte mais pura e se aproximando ainda mais do Espírito infinito e divino. Prepara, pois, o teu pensamento e pressentirás ao menos esse estado superior e esplêndido, no qual vivem desde sua morte os seres que já revelaram uma alta inteligência na Terra, e que se elevam em suas transições a naturezas novas e mais celestes.” Aqui, Sir Humphry, transportado pelo Espírito através do nosso sistema planetário, faz uma descrição das mais interessantes do espetáculo que se descortina aos seus olhos e, em particular, o mundo de Saturno. – A falta de espaço nos obriga a passar em silêncio. – Sir Humphry Davy considerava com admiração o aspecto estranho dos seres que tinha sob os olhos, quando o Espírito replicou: “Sei quais as reflexões que te agitam. A analogia te faz falta aqui e não dispões dos elementos do saber para compreenderes a cena que se desdobra à tua frente. No momento te encontras na condição de uma mosca, cujo olho múltiplo fosse subitamente metamorfoseado num olho semelhante ao do homem, e és completamente incapaz de pôr o que vês em relação com os teus conhecimentos normais anteriores. Pois bem, esses seres que estão diante de ti são os habitantes de Saturno. Eles vivem na atmosfera. Seu grau de sensibilidade e de felicidade intelectual ultrapassa de muito o dos habitantes da Terra. São dotados de numerosos sentidos, de meios de percepção cuja ação és incapaz de apreender. Sua esfera de visão é muito mais extensa que a tua, e seus órgãos do tato são incomparavelmente mais delicados e mais finamente aperfeiçoados. É inútil que eu tente explicar-te a sua organização, pois evidentemente não a poderias conceber; quanto às suas ocupações intelectuais, tentarei dar-te alguma idéia. “Eles subjugaram, modificaram e aplicaram as forças físicas da Natureza, de maneira análoga à que caracteriza a obra industrial do homem terrestre; mas, gozando de poderes superiores, conseguiram resultados igualmente superiores. Sendo a sua atmosfera muito mais densa que a vossa, e menor o peso específico de seu planeta, eles foram capazes de determinar as leis que pertencem ao sistema solar com muito mais precisão do que vos seria possível dar desse conhecimento; e o primeiro deles que chegasse poderia anunciar-te quais são, nesse mundo, a posição e o aspecto da vossa Lua, com tal precisão que te convencerias de que ele a vê, ao passo que o seu conhecimento não passa do resultado de um cálculo. “Eles não têm guerras e só ambicionam a grandeza intelectual; não experimentam nenhuma de vossas paixões, senão um grande sentimento de emulação no amor da glória. Se eu pudesse mostrar-te as diversas partes da superfície deste planeta, apreciarias os resultados maravilhosos do poder de que são dotadas essas altas inteligências, e a maneira admirável pela qual puderam aplicar e modificar a matéria. “Eu te poderia transportar agora para outros planetas e te mostrar seres particulares em cada um deles, oferecendo certas analogias uns com os outros, mas diferindo essencialmente em suas faculdades características. “Em Júpiter verias criaturas semelhantes às que acabas de observar em Saturno, mas munidas de meios de locomoção bem diversos. Nos mundos de Marte e de Vênus encontrarias raças cujas formas se aproximam mais das que existem na Terra; mas, em cada parte do sistema planetário, existe um caráter especial a todas as naturezas intelectuais: é o sentido da visão, a faculdade orgânica de receber as impressões da luz. “Os mais perfeitos sistemas organizados, mesmo nas outras partes do Universo, possuem ainda esta fonte de sensibilidade e de prazer; mas os seus organismos, de uma sutileza inconcebível para vós, são formados de fluidos tão elevados, acima da idéia geral que fazeis da matéria, quanto os gases mais sutis, que teus estudos te mostraram, estão acima dos mais pesados sólidos terrestres. “O grande Universo é ocupado em toda parte pela vida; mas o modo de manifestação dessa vida é infinitamente diversificado, e é preciso que as formas possíveis, em número infinito, sejam revestidas pelas naturezas espirituais antes da consumação de todas as coisas. “O cometa, desaparecendo nos céus com o seu rastilho luminoso, já se mostrou ao teu olhar. Pois bem! esses mundos singulares são também a morada dos seres vivos, que haurem os elementos e as alegrias de sua existência na diversidade das circunstâncias a que são expostos; atravessam, por assim dizer, o espaço infinito; deleitam-se continuamente ante a visão de mundos e sistemas novos. Imagina, se puderes, a vastidão incomensurável de seus conhecimentos! “Esses seres, de tal modo grandes e gloriosos, dotados de funções que te são incompreensíveis, outrora pertenceram à Terra; suas naturezas espirituais, elevadas em diferentes graus da vida planetária, despojaram-se de sua poeira e não levaram consigo senão a pujança intelectual. Habitam atualmente esses astros gloriosos, que se põem em relação com as inúmeras regiões do grande Universo. “Perguntas-me em espírito se eles têm algum conhecimento ou lembrança de suas transmigrações? Conta-me tuas próprias recordações no seio de tua mãe e te darei minha resposta... “Aprende, pois, a lei da sabedoria suprema: Nenhum Espírito traz a outro estado de existência hábitos ou qualidades mentais diversas das que estão em relação com a sua nova situação.
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(24) Um vol. in-12. Preço: 3 fr. 50. Paris, 1869, Didier, e na Livraria Espírita, 7, rue de Lille.
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