Livros Espíritas
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O Evangelho do Cristo é o Sol que ilumina as tradições e os fatos da Antiga Lei!... Nesse ínterim, não obstante a estupefação de mui tos, estabeleceu-se nova balbúrdia. Os saduceus atiraram-se contra os fariseus, com gestos e apóstrofes delirantes. Em vão, o sumo -sacerdote procurava acalmar os ânimos. Um grupo mais exaltado tentava aproximar -se do ex-rabino, disposto a estrangulá-lo. Foi aí que Cláudio Lísias, apelando par a os soldados, fez-se ouvir na assembléia, ameaçando os contendores. Surpreendidos com o fato insólito, porqüanto os romanos jamais procuravam intervir em assuntos religiosos da raça, os trêfegos israelitas submeteram -se imediatamente. O tribuno dirigiu -se, então, a Ananias e reclamou o en cerramento dos trabalhos, declarando que o prisioneiro voltaria ao cárcere da Torre Antônia, até que os judeus resolvessem ventilar o caso com mais critério e sere nidade. As autoridades do Sinédrio não disfarçaram seu en orme espanto; mas, como o governador da província continuava em Cesaréia, não seria razoável desatender ao seu preposto em Jerusalém. Antes que se verificassem novos tumultos, Ananias declarou que o julgamento de Paulo de Tarso, consoante a ordem recebida, prosseguiria na próxima sessão do Tribunal, a realizar-se daí a três dias. Os guardas retiraram o prisioneiro, com grande cautela, enquanto os israelitas mais eminentes buscavam conter os protestos isolados dos que acusavam Cláudio Lísias de parcial e si mpatizante do novo credo. Reconduzido à cela silenciosa, Paulo pôde respirar e refazer o ânimo para enfrentar a situação. Experimentando justa simpatia por aquele homem valoroso e sincero, o tribuno tomou novas providências a seu favor. O ex -doutor da Lei estava mais satisfeito e aliviado. Teve um guarda para atendê -lo em qualquer necessidade, recebeu água em abundância, remédio, alimentos e a visita dos amigos mais íntimos. Essas mostras de apreço muito o comoviam. Espiritualmente, sen tiase até mais confortado; doía-lhe, porém, o corpo ferido, e físicamente estava exausto... Depois de palestrar alguns minutos, conforme a permissão recebida, com Lucas e Timóteo, sentiu que certas preocupações dolo rosas lhe amarguravam o coração. Seria justo pensar numa v iagem a Roma, quando seu estado físico era assim precário? Resistiria por muito tempo às tremendas per seguições iniciadas em Jerusalém? Contudo, as vozes do mundo superior haviam-lhe prometido essa viagem à capital do Império... Não deveria duvidar das promessas feitas em nome do Cristo. Certa fadiga, aliada a grande amargura, começava a infirmar -lhe as esperanças sempre ativas. Mas, caindo numa espécie de modorra, percebeu, como de outras vezes, que uma viva claridade inundava o cubículo, ao mesmo tempo q ue suavíssima voz lhe sus surrava: — Regozija-te pelas dores que resgatam e iluminam a consciência! Ainda que os sofrimentos se multipliquem, renova os júbilos divinos da esperança!... Guarda o teu bom ânimo, porque assim como testificaste de mim, em Jerusalém, importa que o faças também em Roma!... De pronto sentiu que novas forças lhe retempera vam o combalido organismo. A claridade da manhã surpreendeu -o quase bem disposto. Nas primeiras horas do dia, Estefânio procurava -o com certa ansiedade. Recebido com afetuoso interesse, o rapaz informou o tio dos graves projetos que se tra mavam na sombra. Os judeus haviam jurado exterminar o convertido de Damasco, ainda que para isso houvessem de assassinar o próprio Cláudio Lísias. O ambiente no Sinédrio era de atividades odiosas. Projetava -se matar o pregador da gentilidade, à plena luz do dia, na próxima sessão do Tribunal. Mais de quarenta comparsas, dos mais fanáticos, haviam prometido, solenemente, a consecução do sinistro desígnio. Paulo tudo ouviu e, calma mente chamando o guarda, disse-lhe: — Peço-te conduzir este moço à presença do chefe dos tribunos para que o ouça sobre um assunto urgente. Assim, Estefânio foi levado a Cláudio Lísias, apre sentando-lhe a denúncia, O arguto e nobre patrício, com o tacto político que lhe caracterizava as decisões, prometeu examinar devidamente a questão, sem deixar pre sumir a adoção de providências definitivas para burlar a conjura. Agradecendo a comunicação, recomendou ao jovem o máximo cuidado nos comentários da situação, a fim de não exacerbar maiormente os ânimos parti dários. Na solidão do seu gabinete, o tribuno romano pensou seriamente naquelas perspectivas sombrias. O Sinédrio, na sua capacidade de intrigar, poderia promover manifestações do povo sempre versátil e agressivo. Rabinos apaixonados podiam mobilizar facínoras e quiçá assas siná-lo em condições espetaculares. Mas, a denúncia par tia de um jovem, quase criança. Além disso, tratava-se de um sobrinho do prisioneiro. Teria dito a verdade ou seria mero instrumento de possível mistificação afetiva, nascida de justas preocupações da família? Ainda bem não conseguira destrinçar as dúvidas para firmar con duta, quando alguém pedia o obséquio de uma entrevista. Desejoso de atreguar cogitações assim graves, acedeu prontamente. Abriu a porta luxuosa e um velhinho de semblante calmo apareceu sorridente. Cláudio Lisias alegrou -se. Conhecia-o de perto. Devia-lhe favores, O visitante inesperado era Tiago, que vinha interpor sua generosa influência em favor do grande amig o de suas edificações evangélicas. O filho de Alfeu repetiu o plano já denunciado por Estefânio, minutos antes. E foi mais longe. Contou a história comovedora de Paulo de Tarso, revelando -se como testemunha imparcial de toda a sua vida e esclarecendo que o Apóstolo viera à cidade, por insistência de sua parte, a fim de combinarem momen tosas providências atinentes à propaganda. Concluía a exposição atenciosa pedindo ao amigo ilustre medidas eficazes, para evitar o monstruoso atentado. Maiormente apreensivo agora, o tribuno ponderou: — Vossas considerações são justas; entretanto, sin to dificuldadeS para coordenar providências imediatas. Não será melhor aguardar que os fatos se apresentem e reagir, então, à força com a força? Tiago esboçou um sorriso de dúvid as e sentenciou: — Sou de parecer que vossa autoridade encontre recursos urgentes. Conheço as paixões judaicas e o furor de suas manifestações. Nunca poderei esquecer o odioso fermento dos fariseus, no dia do Calvário. Se receio pela sorte de Paulo, temo i gualmente por vos mesmo. A multidão de Jerusalém é criminosa muitas vezes. Lísias franziu a testa e refletiu longo tempo. Mas, arrancando -o de sua indecisão, o velho galileu apre sentou-lhe a idéia de transferir o prisioneiro para Cesaréia, tendo em vista um julgamento mais justo. A medida teria a virtude de subtrair o Apóstolo do ambiente irritado de Jerusalém e faria abortar de início o plano de homicídio; além disso, o tribuno permaneceria a salvo de suspeitas injustas, mantendo íntegras as tradições d e respeito em torno do seu nome, por parte dos judeus malevolentes e ingratos. O feito seria conhecido apenas dos mais íntimos e o patrício designaria uma escolta de soldados corajosos para acompanhar o prisioneiro, de vendo sair de Jerusalém depois de mei anoite. Cláudio Lísias considerou a excelência das sugestões e prometeu pô -las em prática nessa mesma noite. Logo que Tiago se despediu, o romano chamou dois auxiliares de confiança e deu as primeiras ordens para a formação da escolta, forte, de cento e trinta soldados. duzentos archeiros e setenta cavaleiros, sob cuja prote ção Paulo de Tarso haveria de comparecer perante o go vernador Félix, no grande porto palestinense. Os pre postos, atendendo às instruções recebidas, reservaram para o prisioneiro uma das melhores montarias. Alta noite, Paulo de Tarso foi chamado com grande surpresa. Cláudio Lísias explicou-lhe, em poucas palavras, o objetivo de sua decisão e a extensa caravana partiu em silêncio, rumo a Cesaréia. Dado o caráter secreto das providências tomadas, a viagem correu sem incidentes dignos de menção. Apenas muitas horas depois partiam da Torre Antônia os respectivos informes, convencendo -se os judeus, com grande desapontamento, da inutilidade de quaisquer represálias. Em Cesaréia o governador recebeu a expedição com enorme espanto. Conhecia o renome de Paulo e não era estranho às lutas que sustentava com os irmãos de raça, mas aquela caravana de quatrocentos homens armados, para proteger um preso, era de causar admiração. Depois do primeiro interrogatório, o preposto má ximo do Império, na província, sentenciou: — Atento à origem judaica do acusado, nada posso julgar sem ouvir o órgão competente, de Jerusalém. E mandou que o Sinédrio se fizesse representar na sede do Governo, com a maior urgência. Os israelitas estavam sumamente satisfeitos com a ordem. Conseqüentemente, cinco dias depois da remoção do Apóstolo, o próprio Ananias fizera questão de chefiar o conjunto de autoridades do Sinédrio e do Templo, que acorreram a Cesaréia com os projetos mais estranhos, relativamente à situação do adversário. Os velhos rabi nos, conhecendo o poder da lógica e a formosura da palavra do ex -doutor de Tarso, fizeram -se acompanhar de Tértulo, uma das mais notáveis mentalidades que co operavam no colendo sodalício. Improvisado o Tribunal para decidir o feito, o orador do Sinédrio teve a prioridade da palavra, usando -a em tremendas acusações contra o indiciado réu, desenhando a cores negras todas as atividades do Cristianismo, e ter minando por pedir ao governador a entrega do acusado aos seus irmãos de raça, a fim de ser por eles devida -mente julgado. Concedido ao ex-rabino o ensejo de explicar -se, Paulo começou a falar com grande serenidade. Félix lhe obser vou logo os elevados dotes intelectuais, os primores dialéticos e ouvia-lhe a argumentação com invulgar interesse. Os anciães de Jerusalém não sabiam ocultar a própria ira. Se possível, teriam espostejado o Apóstolo ali mes mo, tal a irritação que os assomava, a contrastar com a tranqüilidade transparente da o ratória e da pessoa do orador adverso.
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