Livros Espíritas
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Proclamar, no século vinte, em face de uma geração febricitante, atormentada da ânsia de infinito, perante homens e povos que aspiram à verdade sem a poder atingir, que procuram a justiça, a liberdade, como o veado sequioso procura e aspira à água da fonte, o manancial do rio, proclamar – dizemos – num mundo assim, em adiantada gestação, que um único homem na Terra possui toda a verdade, toda a luz, toda a ciência, não será – repetimos – lançar um desafio a toda a Humanidade, a essa Humanidade condenada, na Terra, ao suplício de Tântalo, às dilacerações de Prometeu? Dificilmente se reabilitará dessa gravíssima falta a Igreja Católica. No dia em que divinizou um homem, tornou-se ela merecedora da encrespação de idolatria, que Montalembert lhe dirigiu quando, ao lhe ser comunicada, no leito de morte, a definição da infalibilidade pontifícia, exclamou: “Nunca hei de adorar o ídolo do Vaticano!” Será exagerado o termo “ídolo”? – Como os Césares romanos, a quem era oferecido um culto, o papa faz questão de ser chamado pontífice e rei. Que é ele senão o sucessor dos imperadores de Roma e de Bizâncio? Seu próprio vestuário, seus gestos e atitudes, o obsoleto cerimonial e o fausto da sua cúria, tudo recorda as pompas cesarianas dos piores dias, e foi o eloqüente orador espanhol, o religioso Emílio Castelar, que exclamou um dia, vendo Pio IX carregado na seda, em forma de procissão, a caminho de S. Pedro: “Aquele não é o pescador da Galiléia, é um sátrapa do Oriente!” A causa íntima da decadência e impopularidade da Igreja Romana reside em ter colocado o papa no lugar de Deus. O espírito do Cristo retirou-se dela! Perdendo a virtude do Alto, que a sustentava, a Igreja caiu nas mãos da política humana. Já não é uma instituição de ordem divina; o pensamento de Jesus não mais a inspira e os maravilhosos dons que o Espírito de Pentecostes lhe comunicava desapareceram. Ainda mais: atacada de cegueira, como os padres da antiga Sinagoga, ao advento de Jesus, a Igreja esqueceu o sentido profundo da sua liturgia e dos seus mistérios. Os padres já não conhecem a oculta significação das coisas; perderam o segredo da iniciação. Seus gestos se tornaram estéreis, suas bênçãos não mais abençoam, seus anátemas já não amaldiçoam. Foram apeados até ao nível comum e o povo, compreendendo que é nulo o seu poder e ilusório o seu mistério, encaminhou-se a outras influências e foi a outros deuses que passou a incensar. Na Igreja a teologia aniquilou o Evangelho, como na velha Sinagoga o Talmude havia desnaturado a Lei. E são os cultores da letra que atualmente a dirigem. Uma coletividade de fanáticos mesquinhos e violentos acabará por tirar à Igreja os últimos vestígios da sua grandeza e consumar-lhe a impopularidade. Assistiremos provavelmente à ruína progressiva dessa instituição que foi durante vinte séculos a educadora do mundo, mas que parece haver falido à sua verdadeira vocação. Daí se deve concluir que o futuro religioso da Humanidade esteja comprometido irrevogavelmente e que o mundo inteiro deva soçobrar no materialismo como num oceano de lama? Longe disso. O reinado da letra acaba, o do espírito começa. A chama de Pentecostes, que abandona o candelabro de ouro da Igreja, vem acender outros archotes. A verdadeira revelação se inaugura no mundo pela virtude do invisível. Quando em um ponto o fogo sagrado se extingue, é para se atear noutro lugar. Jamais a noite envolve completamente em treva o mundo. Sempre no firmamento cintila alguma estrela. A alma humana, mediante suas profundas ramificações, mergulha no infinito. O homem não é um átomo isolado no imenso turbilhão vital. Seu espírito sempre está, por algum lado, em comunhão com a Causa eterna; seu destino faz parte integrante das harmonias divinas e da vida universal. Pela força das coisas há de o homem se aproximar de Deus. A morte das Igrejas, a decadência das religiões formalistas, não constituem sintoma de crepúsculo, mas, ao contrário, a aurora inicial de um astro que desponta. Nesta hora de perturbação em que nos encontramos, grande combate se trava entre a luz e as caligens, como sucede quando uma tempestade se forma sobre o vale; mas as culminâncias do pensamento continuam sempre imersas no azul e na serenidade. Sursum corda! E de fato a vida eterna ante nós se descerra ilimitada e radiosa! Assim como no infinito milhares de mundos são arrebatados por seus sóis, rumo do incomensurável, num giro harmonioso, ritmado qual dança antiga e nem astro nem terra alguma torna a passar jamais pelo mesmo ponto, as almas, por seu turno, arrastadas pela atração magnética do seu invisível centro, prosseguem evolvendo no espaço, atraídas incessantemente por um Deus, de quem sempre se aproximam sem jamais o alcançar. Força é reconhecer que esta doutrina é bem mais ampla que os dogmas exclusivos das Igrejas agonizantes e que, se o futuro pertence a alguém ou alguma coisa, há de o ser indubitavelmente ao espiritualismo universal, a esse Evangelho da eternidade e do infinito! Fevereiro, 1910.
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