Livros Espíritas
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Concluiu, portanto, que o sonho era de fato premonitório; ele se equivocara apenas na sua interpretação. É que, nem passava pela sua cabeça (consciente) que viesse a ter algum problema cardíaco, de vez que dois médicos lhe haviam dito, ainda há pouco, que com uma coisa ele não precisava se preocupar: seu coração, que estava ótimo. Percebemos, portanto, que a individualidade (inconsciente) enviou a personalidade (consciente) uma clara mensagem de perigo iminente, com risco de vida. Não sei se isto lhe ocorreu, mas vejo nos fios elétricos, sob os quais voara o avião do seu sonho, o símbolo claro das veias e artérias pelas quais circula o sangue, enquanto pelos fios circulam mensagens telegráficas, telefônicas ou simples energia elétrica. Ele, porém, estava tão certo de que o problema não podia ser cardíaco, que viu na advertência do seu próprio pensamento um avião que, no entanto, simbolizava o risco de vida que ele estava correndo. Curioso ainda observar que, tal como no seu sonho, ele salvou-se do 'acidente' circulatório. 8. INTERPRETAÇÃO Boddington tem razão, portanto, ao ensinar que o grande problema é o da interpretação da mensagem contida no pensamento. E tem razão, Wilson que, ao reproduzir o sonho de Monroe, em seu livro Mysteries, concluiu: "O que parece sugerir que, mesmo os mais elevados níveis da mente têm problemas de comunicação." E como têm! É precisamente do trampolim da comunicação, de pensamento salta para a nossa limitada realidade de seres encarnados, que muita idéia se fratura irremediavelmente. E mesmo depois de integrada em nossa realidade, a idéia já simbolizada está sujeita a mil e uma deformações diferentes, ao menor descuido de quem a retransmite. Experiências conclusivas têm sido feitas para testar o testemunho visual e auditivo de grupos que acabam de assistir a uma cena. Os resultados são inacreditáveis nas suas dissonâncias e discordâncias frontais. Escreve a competente dra. Cerminara: "Se todos os seres humanos fossem dotados de faculdades telepáticas, problemas desses nunca ocorreriam. Mas, à falta de compreensão direta de mente a mente, os seres humanos têm de codificar suas mensagens em palavras (e algumas vezes em imagens). Em seguida, outras mentes precisam decodificar a mensagem. O 'verdadeiro' sentido de alguma coisa só pode estar, então, na correta decodificação da mensagem que ali está contida". (Cerminara Gina, 1978). Qualquer descuido, tanto na codificação quanto na decodificação, poderá ser fatal ao sentido da mensagem. Para enfatizar tais aspectos críticos da comunicação, a dra. Cerminara lembra algumas passagens importantes da Bíblia (Antigo e Novo Testamentos), algumas das quais servem de base a pontos doutrinários ou até dogmas da maior importância teológica e que, no entanto, apresentam dúvidas quanto à maneira pela qual foram codificadas em palavras e posteriormente decodificadas para serem aplicadas a situações específicas. Tomemos um de seus mais dramáticos exemplos. É o versículo 43, capítulo 23, do Evangelho de Lucas, que assim diz: "Eu te asseguro: hoje estarás comigo no Paraíso." O leitor sabe, naturalmente, que se trata do diálogo de Jesus com o chamado "bom ladrão". Pois bem, o dr. George M. Lamsa, competente conhecedor da Bíblia, nascido no Kurdistão, onde ainda se fala o aramaico, a língua de Jesus, entende que a ênfase correta para a frase deveria ser posta na palavra hoje, ficando o texto reapresentado da seguinte forma: "Eu te asseguro hoje: estarás comigo no Paraíso." Em verdade, se atentarmos para o processo evolutivo das vidas sucessivas (que a dra. Cerminara aceita, aliás), observamos que o texto proposto pelo Sr. Lamsa faz sentido. É difícil entender que mesmo um "bom ladrão" pudesse ir direto ao paraíso, naquele mesmo dia, para ficar em companhia do Cristo. Essa posição ele só teria conquistado ao cabo de inúmeras existências. (Estamos admitindo o termo paraíso, como um estado de pureza e felicidade espiritual, não um local geográfico). Poderiam ser facilmente multiplicados exemplos de dificuldades e tropeços que o pensamento encontra para se manifestar, ou seja, para se converter em símbolos gráficos, imagens ou palavras de forma a poder ser comunicado a alguém. As palavras - disse alguém cujo nome não encontro mais na memória - servem para ocultar o pensamento e não para expressá-la. Como isto é verdadeiro! Elas somente conseguem transmitir uma distorcida e esmaecida imagem daquilo que pensamos. Vemos numa tela a representação de uma paisagem, mas não o original, com as suas verdadeiras cores, perspectivas, momento e vida, pois a vida circula e pulsa na paisagem contemplada, mas não na tela pintada, por mais genial que seja o pintor. Além do mais, o pincel e a tinta, ou o mármore e o buril captam momentos fugidios de um tema real reproduzem movimento congelado, sugerem cores e formas, mas não a realidade mesma do tema, sua 'alma'. Não sejamos, porém, ingratos aos mecanismos da palavra falada e escrita, que continuam sendo o mais sofisticado processo de comunicação de que dispomos, dentro das nossas limitações físicas e espaciais, mentais e biológicas. Esse dispositivo representa milênios incontáveis de refinamento de um processo que começou com os grunhidos inarticulados do ser que dava seus primeiros passos rumo à perfeição. A despeito de reconhecidas deficiências e da multiplicidade quase caótica em que se desdobrou, a linguagem é o nosso instrumento de comunicação no plano físico. Ela é um conjunto de sinais sonoros e gráficos que combinamos engenhosamente para identificar objetos, seres e coisas, bem como idéias e conceitos abstratos. Na verdade, é um prodígio que consigamos expressar tanta coisa com um punhado de sons e símbolos gráficos. A memória integral guarda zelosamente todo o conhecimento acumulado. Nada se perdeu ali nem se transformou, como poderia supor o fanático admirador de lavoisier. A memória é o registro fiel de tudo quanto nos ocorreu através dos tempos, tanto na carne como fora dela, no intervalo entre uma existência e outra. É preciso, contudo, lembrarmo-nos de que ela não é um depósito de palavras, nesta ou naquela língua, mas um video-teipe de eventos, idéias, conceitos e informações, tudo isso expresso em pensamento puro e não em códigos ou símbolos. Códigos e símbolos precisamos é para comunicar a alguém o que ali está arquivado, caso não o possamos fazer mente a mente. Tal acervo de conhecimento e de informação permanece em seu estado puro, como foi captado. Ao reencarnar-se, a individualidade como que se retira para os bastidores a fim de que a personalidade possa livremente desempenhar o papel que lhe foi atribuído na nova peça que se inicia. Está de novo no chamado 'palco da vida'. Ainda que receba uma ou outra 'dica' da individualidade, cabe-lhe demonstrar sua capacidade de viver por sua própria conta e risco o novo papel, de vez que continua inteiramente respeitado seu direito ao livre-arbítrio. Por mais amplo e valioso que seja o acervo de conhecimento de que disponha nos arquivos secretos da memória integral, o ser encarnado começa a nova vida com uma folha em branco diante de si, ou, para reverter à nossa imagem predileta, começa a gravar no seu cassete virgem os símbolos de um código que lhe servirá para comunicar-se com os demais seres que o cercam, procurando de certa forma 'traduzir' um pouco do muito que conhece. Ao mesmo tempo em que este cassete grava o material necessário - ambiente, família, cultura, civilização, costumes etc. -, também condiciona e limita o mecanismo da comunicação, que se resume, afinal em um processo de confronto de símbolos, como já vimos. Na realidade, portanto, o sensitivo é um comunicador, no sentido mais amplo da palavra, tanto consigo mesmo, ligando-se pela intuição, pelo sonho ou vidência aos armazéns da memória integral como voltado para fora de si mesmo, serve de canal de comunicação entre os seus conhecimentos e os demais seres ou, afinal, entre seres desencarnados e encarnados. Daí porque Boddington considera tão importante a acuidade ou capacidade de interpretar símbolos e imagens a fim de comunicar idéias com relativa precisão. 9. O CARROSSEL Extraímos de um mero e despretensioso filme feito para TV uma curiosa experiência e uma preciosa lição. O filme narrava a história de um maníaco que aterrorizava uma comunidade, colocando explosivos de alto poder destrutivo em pontos críticos da cidade, sacrificando inúmeras vidas. Incapaz de identificar o criminoso com a presteza necessária e fazer parar a chacina, a polícia, desesperada, recorreu a uma sensitiva no esforço de saber onde o terrorista faria explodir a sua próxima bomba. O maníaco incendiário sempre escrevia uma carta para a polícia, dizendo a hora em que iria provocar a próxima explosão, mas nunca o local. A moça concentrou-se e declarou, mais ou menos, o seguinte: estava entrando em contato com a mente do criminoso. Via um local com muitos cavalos; eram pequenos esses animais e andavam em círculo. Havia cores, muitas cores. E crianças. Muitas crianças alegres. Essa a 'mensagem' visual, telepática, que ela percebia. Diríamos, com a nossa terminologia, que era uma visão (anímica) diencefálica, uma projeção visual do que ia na mente do terrorista. Como interpretá-la, porém? De que maneira decodificá-la, a ponto de saber onde a polícia deveria atuar para impedir o massacre? A próxima e urgente etapa, por conseguinte, consistia em 'traduzir' aquele código visual em conhecimento e este em ação. Um policial presente logo arriscou o primeiro 'palpite' interpretativo. Talvez se tratasse de um hipódromo de corridas. A sensitiva admitia a interpretação como possível e justificava que não conseguia ver com maior clareza porque o homem estava bloqueando sua própria mente a fim de não 'irradiar' suas intenções por toda a parte.
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