Livros Espíritas
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A casa do Pai é o céu infinito com os mundos que o povoam e a vida imensa, prodigiosa, que se espalha na sua superfície. São as inumeráveis estações na nossa jornada, que somos chamados a conhecer se seguirmos os preceitos de Jesus. Ele descerá até nós para induzir-nos, por exemplo, à conquista dos mundos superiores à Terra. No Evangelho também se nos depara a afirmação das vidas sucessivas da alma: “Em verdade, se o homem não renascer de novo não poderá entrar no reino de Deus. – O que nasce da carne é carne, o que nasce do espírito, é espírito. – Não vos admireis do que vos digo, pois é necessário nascerdes de novo. – O espírito sopra onde quer e entendeis a sua voz, mas não sabeis donde ela vem, nem para onde vai; também sucede o mesmo com todo homem que nasce do espírito.” (l) Quando os seus discípulos lhe interrogam: “Por que dizem os escribas que é preciso primeiro que Elias volte?” Ele responde: “Elias já voltou, porém não o reconheceram.” E os discípulos compreendem então que Jesus se referia a João Batista. Ainda em outra ocasião diz o seguinte: “Em verdade, entre todos os filhos de mulher nenhum há maior que João Batista. E se quiserdes entender, é ele mesmo Elias que deve vir. Que ouça aquele que tem ouvidos para ouvir.” O alvo a que tende cada um de nós e a sociedade inteira está claramente indicado. É o reinado do “Filho do homem”, do Cristo social, ou, em outros termos, o reinado da Verdade, da Justiça e do Amor. As vistas de Jesus dirigem-se para o futuro, para esses tempos que nos são anunciados. “Enviar-vos-ei o Consolador. – Tinha ainda muitas coisas a dizer-vos, porém ainda não poderíeis compreendê-las. – Quando vier esse Espírito de Verdade, ele vo-las ensinará e restabelecerá tudo no seu sentido verdadeiro.” (li) Algumas vezes, o Cristo resumia as verdades eternas em imagens grandiosas, em traços brilhantes. Nem sempre os apóstolos o compreendiam, mas ele deixava aos séculos e aos acontecimentos o cuidado de fazer frutificar esses princípios na consciência da Humanidade, como a chuva e o Sol fazem germinar a semente confiada à terra. É nesse sentido que assim se exprimiu: “O céu e a Terra passarão, porém não as minhas palavras.” Jesus dirigia-se pois simultaneamente ao espírito e ao coração. Aqueles que não tivessem podido compreender Pitágoras e Platão, sentiam suas almas comoverem-se aos eloqüentes apelos do Nazareno. É por aí que a doutrina cristã domina todas as outras. Para atingir a sabedoria, era preciso, nos santuários do Egito e da Grécia, franquear os degraus de uma longa e penosa iniciação, ao passo que pela caridade todos podiam tornar-se bons cristãos e irmãos em Jesus. Mas, com o tempo, as verdades transcendentais se velaram. Aqueles que as possuíam foram suplantados pelos que acreditavam saber e o dogma material substituiu a pura doutrina. Dilatando-se, o Cristianismo perdeu em valor o que ganhava em extensão. A ciência profunda de Jesus vinha juntar-se à potência fluídica do iniciado superior, da alma livre do jugo das paixões, cuja vontade domina a matéria e impera sobre as forças sutis da Natureza. O Cristo possuía a dupla vista; seu olhar sondava os pensamentos e as consciências; curava com uma palavra, com um sinal, ou mesmo somente bastando a sua presença. Eflúvios benéficos se lhe escapavam do ser e à sua ordem os maus espíritos se afastavam. Comunicava-se facilmente com as potências celestes e, nas horas de provação, alentava desse modo a força moral que lhe era necessária em sua viagem dolorosa. No Tabor, seus discípulos, deslumbrados, o vêem conversar com Moisés e Elias. É assim mesmo que mais tarde, depois de crucificado, Jesus lhes aparece na irradiação do seu corpo fluídico,(lii) etéreo, desse corpo a que Paulo se refere nos seguintes termos: “Há em cada homem um corpo animal e um corpo espiritual.” (liii) A existência desse corpo espiritual está demonstrada pelas experiências da psicologia moderna. Não podem ser postas em dúvida tais aparições, pois explicam por si só a persistência da idéia cristã. Depois do suplício do Mestre e da dispersão dos discípulos, o Cristianismo estava moralmente morto. Foram, porém, as aparições e as conversas de Jesus que restituíram aos apóstolos sua energia e sua fé. Negaram certos autores a existência do Cristo e atribuíram a tradições anteriores ou à imaginação oriental tudo o que a respeito foi escrito. Nesse sentido, produziu-se um movimento de opinião, tendente a reduzir às proporções de lenda as origens do Cristianismo. É verdade que o Novo Testamento contém muitos erros.(liv) Vários acontecimentos por ele relatados encontram-se na história de outros povos mais antigos e certos fatos atribuídos ao Cristo figuram igualmente na vida de Krishna e na de Horus. Mas, também existem outras e numerosas provas da existência de Jesus de Nazaré, provas tanto mais peremptórias quanto foram fornecidas pelos próprios adversários do Cristianismo. Todos os rabinos israelitas reconheciam essa existência e dela fala o Talmude nos seguintes termos: “Na véspera da páscoa foi Jesus crucificado, por se ter entregado à magia e aos sortilégios.” Tácito e Suetônio mencionam também o suplício de Jesus e o rápido desenvolvimento das idéias cristãs. Plínio, o moço, governador da Bitínia, cinqüenta anos mais tarde, explica esse movimento a Trajano, num relatório que foi conservado. Como admitir, outrossim, que a crença em um mito houvesse bastado para inspirar aos primeiros cristãos tanto entusiasmo, coragem e firmeza em face da morte; que lhes tivesse dado os meios de derribarem o Paganismo, de se apossarem do império romano e, de século em século, invadirem todas as nações civilizadas? Não é sobre uma ficção que se funda solidamente uma religião que dura vinte séculos e revoluciona metade do mundo. E, se nos remontarmos da grandeza dos efeitos à força das causas que os produziram, pode-se com certeza dizer que há sempre uma personalidade eminente na origem de uma grande idéia. Quanto às teorias que de Jesus fazem uma das três pessoas da Trindade, ou um ser puramente fluídico, uma e outra parecem igualmente pouco fundadas. Pronunciando estas palavras: “De mim se afaste este cálice”, Jesus revelou-se homem, sujeito ao temor e aos desfalecimentos. Como nós, sofreu, chorou e esta fraqueza inteiramente humana, aproximando-nos dele, o faz ainda mais nosso irmão, tornando seus exemplos e suas virtudes mais admiráveis ainda.(lv) O advento do Cristianismo teve resultados incalculáveis. Trouxe ao mundo a idéia humanitária que os antigos não conheceram em toda a sua plenitude. Tal idéia, encarnada na pessoa de Jesus,(lvi) penetrou pouco a pouco os espíritos e hoje se manifesta no Ocidente com todas as conseqüências sociais que se lhe prendem. A esta idéia, ele acrescentava as da lei moral e da vida eterna, que até aí tinham sido somente do domínio dos sábios e dos pensadores. Desde então, o dever do homem seria preparar por todas as suas obras, por todos os seus atos da vida social e individual, o reinado de Deus, isto é, o do Bem, da Verdade e da Justiça. “Venha a nós o vosso reino, assim na Terra como no céu.” Mas, esse reinado só se pode realizar pelo aperfeiçoamento de todos, pela melhoria constante das almas e das instituições. Essas noções encerram, pois, em si, uma potência ilimitada de desenvolvimento. E não nos devemos admirar que depois de vinte séculos de incubação, de trabalho obscuro, elas comecem apenas a produzir os seus efeitos na ordem social. O Cristianismo continha, no estado virtual, todos os elementos do Socialismo, mas desviou-se deles desde os primeiros séculos, e os princípios verdadeiros, tornando-se desconhecidos pelos seus representantes oficiais, passaram para a consciência dos povos, para a alma desses mesmos que, não se acreditando ou não se dizendo cristãos, trazem inconscientemente em si o ideal sonhado por Jesus. Não é, pois, na Igreja nem nas instituições do pretenso direito divino, o qual outra coisa não é que o reinado da força, onde se deve procurar a herança do Cristo. Essas, em realidade, não passam de instituições pagãs ou bárbaras. O pensamento de Jesus, agora, só vive na alma do povo. É por seus esforços para elevar-se, é por suas aspirações para um estado social mais conforme à Justiça e à Solidariedade, que se revela essa grande corrente humanitária, cuja nascente está no alto do Calvário e cujas ondas nos arrastam para um futuro que jamais conhecerá as vergonhas do pauperismo, da ignorância ou da guerra. O Catolicismo desnaturou as belas e puras doutrinas do Evangelho com falsas concepções de salvação pelas indulgências ou graças, de pecado original, de inferno e de redenção. Porém, o Catolicismo, na obra do Cristianismo, não passa em realidade de um elemento parasita, que parece ter tomado à Índia sua organização hierárquica, seus sacramentos e símbolos. Numerosos concílios têm, em todos os séculos, discutido a Bíblia, modificado os textos, proclamado novos dogmas, afastando-se cada vez mais dos preceitos do Cristo. O fausto e a simonia invadiram o culto. A Igreja dominou o mundo pelo terror, pela ameaça com os suplícios e, no entanto, Jesus queria reinar pelo amor e pela caridade. Armou uns povos contra outros, animou e tornou sistemática a perseguição, fez correr rios de sangue. Em vão a Ciência, em sua marcha progressiva, assinalou as contradições que existem entre o ensino católico e a ordem real das coisas; a Igreja não trepidou em maldizê-la como invenção de Satanás. Um abismo agora separa as doutrinas romanas da antiga sabedoria dos iniciados, que foi a mãe do Cristianismo. O materialismo aproveitou-se deste estado de coisas e implantou em toda parte as suas raízes vivazes.
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(l) João, 3:3, 6 e 8.
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(li) João, 16:12 e 13. A Igreja só vê nestas palavras o anúncio do Espírito Santo, descido, algum tempo depois, sobre os apóstolos; mas, se a Humanidade (porque é a ela que se dirige esta profecia) não era então capaz de compreender a verdade, como o poderia ser em poucos meses mais tarde?
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Nota 3:
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(lii) Ver Nota Especial nº 3, no fim do volume.
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Nota 4:
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(liii) 1ª Epístola aos Coríntios, capítulo, 15 versículos 5 a 8. Nesta epístola, Paulo enumera as aparições do cristo depois da sua morte. Conta seis, uma dessas aos Quinhentos “dos quais alguns ainda estão vivos”. A última é no caminho de Damasco, fazendo com que Paulo, inimigo encarniçado dos cristãos, se tornasse o mais ardente dos apóstolos.
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Nota 5:
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(liv) Ver Nota Especial nº 4, no fim do volume.
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Nota 6:
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(lv) Ver Notas Especiais nºs 2 e 3, no fim do volume.
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Nota 7:
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(lvi) Jesus nomeia-se a si mesmo, por muitas vezes, “filho do homem”.
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