Livros Espíritas
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Sob o título de O diabo do moinho, o Moniteur de l’Indre de fevereiro de 1867 contém o seguinte relato: “O Sr. François Garnier é fazendeiro e moendeiro no burgo de Vicq-sur-Nahon. É, gostamos de pensar, um homem pacífico e, contudo, desde o mês de setembro, seu moinho é teatro de fatos miraculosos, próprios a fazer supor que o diabo, ou pelo menos um Espírito brincalhão, ali elegeu o seu domicílio. Por exemplo, parece fora de dúvida que, diabo ou Espírito, o autor dos fatos que vamos narrar gosta de dormir à noite, porque só trabalha de dia. “Nosso Espírito gosta de fazer malabarismos com as cobertas das camas. Toma-as sem que ninguém o perceba, leva-as e vai escondê-las, ora nas vigas do teto, ora no forno, ora sob montes de feno. Transporta de uma cavalariça para a outra os lençóis da cama do rapaz, e mais de uma hora depois são encontrados sob o feno ou nas grades da manjedoura. Para abrir as portas, o Espírito Vicq-sur-Nahon não precisa de chave. Um dia o Sr. Garnier, em presença de seus empregados, fechou com duas voltas a porta da padaria e pôs a chave no bolso; mesmo assim, a porta abriu-se quase imediatamente, aos olhos de Garnier e dos criados, sem que pudessem explicar como. “Outra vez, a 1o de janeiro – maneira inteiramente nova de fazer votos de feliz ano-novo a alguém – um pouco antes da noite, o leito de penas, os lençóis, os cobertores de uma cama situada num quarto são levantados sem que a cama se desarrume e encontram esses objetos no chão, perto da porta do quarto. Garnier e os seus imaginam, então, na esperança de conjurar toda esta feitiçaria, mudar as camas de quarto, o que de fato ocorre; mas, feita a troca, os fatos diabólicos que acabamos de contar recomeçam com mais intensidade. Por diversas vezes, um rapaz da cavalariça encontra aberta sua arca, onde guarda seus objetos pessoais, e estes espalhados na cocheira. “Mas eis duas circunstâncias em que se revela toda a diabólica habilidade do Espírito. No número dos domésticos do Sr. Garnier encontra-se uma mocinha de 13 anos, chamada Marie Richard. Um dia, estando esta menina num quarto, de repente viu surgir sobre o leito uma pequena capela, e todos os objetos colocados sobre a chaminé, 4 vasos, 1 Cristo, 3 copos, 2 xícaras, numa das quais havia água-benta, e uma pequena garrafa também cheia de água-benta, ir sucessivamente, como se obedecesse à ordem de um ser invisível, tomar lugar sobre o altar improvisado. A porta do quarto estava entreaberta, e a mulher do irmão da pequena Richard, perto da porta. Uma sombra saiu da capela, no dizer da pequena Richard, aproximou-se dela e a encarregou de convidar os donos a dar um pão bento e mandar dizer uma missa. A menina promete; durante nove dias reina a calma no moinho. Garnier manda rezar a missa pelo cura de Vicq, oferece um pão bento e a partir do dia seguinte, 15 de janeiro, as diabruras recomeçam. “As chaves das portas desaparecem; as portas, deixadas abertas, aparecem fechadas; um serralheiro, chamado para abrir a porta do moinho, não o consegue e se vê na necessidade de desmontar a fechadura. Estes últimos fatos se passavam a 29 de janeiro. No mesmo dia, por volta do meio-dia, quando os empregados tomavam sua refeição, a menina Richard toma um cântaro de bebida, serve-se, e o relógio do Sr. Garnier, pendurado a um prego na chaminé, cai em seu copo. Repõem o relógio na chaminé; mas a menina Richard, tomando um prato servido sobre a mesa, traz o relógio com sua colher. Pela terceira vez penduram o relógio em seu lugar e, pela terceira vez, a pequena Richard o encontra numa panela que fervia ao fogo, assim como uma garrafinha de remédio, cuja rolha lhe salta ao rosto. “Em suma, o terror se apodera dos habitantes do moinho; ninguém mais quer ficar numa casa enfeitiçada. Por fim Garnier toma o partido de prevenir o sr. comissário de polícia de Valençay, que se dirige a Vicq, acompanhado de dois guardas. Mas o diabo não quis mostrar-se aos agentes da autoridade. Apenas estes aconselharam Garnier que despedisse a mocinha Richard, o que logo fez. Esta medida terá bastado para pôr o diabo em debandada? Esperemo-lo, para tranqüilidade da gente do moinho.” Num número posterior, o Moniteur de l’Indre contém o que segue: “Contamos, no devido tempo, todas as diabruras que se passaram no moinho de Vicq-sur-Nahon, cujo locatário é o Sr. Garnier. Até agora cômicas, essas diabruras começam a virar tragédia. Depois das farsas, dos malabarismos, das prestidigitações, eis que o diabo recorre ao incêndio. “No dia 12 deste mês ocorreram duas tentativas de incêndio, quase que simultaneamente, nas cavalariças do Sr. Garnier. A primeira aconteceu pelas cinco horas da tarde. O fogo tomou a palha, ao pé da cama dos rapazes moendeiros. O segundo incêndio surgiu cerca de uma hora depois, mas em outra estrebaria. O fogo surgiu igualmente ao pé de uma cama e na palha. “Felizmente esses dois incêndios foram extintos pelo pai de Garnier, de oitenta anos, e seus empregados, prevenidos pela citada Marie Richard. “Nossos leitores devem lembrar-se de que essa mocinha de quatorze anos, era sempre a primeira que percebia as feitiçarias que ocorriam no moinho, não obstante, seguindo os conselhos que lhe tinham sido dados, Garnier houvesse despedido a pequena Richard. Quando os dois incêndios surgiram, essa jovem tinha voltado há quinze dias à casa do Sr. Garnier. Foi ela ainda a primeira a notar os dois incêndios de 12 de março. “Conforme as pesquisas feitas no moinho, as suspeitas caíram sobre duas empregadas. “A família Garnier está de tal modo chocada com os acontecimentos de que seu moinho foi teatro, que se persuadiu de que o diabo, ou pelo menos algum Espírito malfazejo, fixou domicílio em sua morada.” Um dos nossos amigos escreveu ao Sr. Garnier, pedindo que lhe informasse se eram reais ou contos para divertir, os fatos relatados no jornal e, em todo o caso, o que podia haver de verdadeiro ou de exagerado na história. O Sr. Garnier respondeu que tudo era perfeitamente exato e conforme à declaração que ele próprio havia feito ao comissário de polícia de Valençay. Confirma, também, os dois incêndios e acrescenta: O jornal nem contou tudo. De acordo com sua carta, os fatos se produziam há quatro ou cinco meses, e se viu forçado a fazer a declaração porque não conseguiu descobrir o autor. Termina dizendo: “Não sei, senhor, com que propósito me pedis estas informações; mas se tiverdes algum conhecimento dessas coisas, peço-vos participar de minhas penas, pois vos asseguro que não estamos à vontade em nossa casa. Se puderdes encontrar um meio de descobrir o autor de todos esses fatos escandalosos, prestar-nos-eis um grande serviço.” Um ponto importante a esclarecer era saber qual podia ser a participação da mocinha, seja voluntariamente por malícia, seja inconscientemente por sua influência. Sobre esta questão, o Sr. Garnier disse que a jovem, só tendo estado ausente da casa durante quinze dias, não tinha podido julgar o efeito de sua ausência; mas que não lhe tem nenhuma suspeita, como malevolência, nem sobre os outros empregados; que quase sempre ela tinha anunciado o que se passava fora de seu alcance; que, assim, dissera várias vezes: “Eis a cama que se desarruma em tal quarto” e que, aí entrando sem a perder de vista, encontravam o leito desarrumado; que também preveniu os dois incêndios, ocorridos depois de sua volta. Como se vê, esses fatos pertencem ao mesmo gênero de fenômenos dos de Poitiers (Revista de fevereiro e março de 1864; idem, maio de 1865); de Marselha (abril de 1865); de Dieppe (março de 1860), e tantos outros que podem ser chamados manifestações barulhentas e perturbadoras. De início faremos notar a diferença que existe entre o tom deste relato e o do jornal de Poitiers, por ocasião do que se passou naquela cidade. Lembre-se o dilúvio de sarcasmos que, a respeito, fizeram chover sobre os espíritas, e sua persistência em sustentar, contra a evidência, o que só podia ser obra de gracejadores de mau gosto, que não tardariam a ser descobertos, mas que, em definitivo, jamais descobriram. O Moniteur de l’Indre, mais prudente, limita-se a um relato, que não é temperado por nenhuma troça descabida, e que antes implica uma afirmação que uma negação. Uma outra observação é que fatos deste gênero ocorreram muito antes que se cogitasse do Espiritismo e que, desde então, quase sempre se passaram entre pessoas que não o conheciam nem de nome, o que exclui qualquer influência devida à crença e à imaginação. Se acusassem os espíritas de simular essas manifestações com vistas à propaganda, perguntar-se-ia quem os poderia produzir antes que houvesse espíritas. Não conhecendo o que se passou no moinho de Vicq-sur-Nahon senão pelo relato que fizeram, limitamo-nos a constatar que aqui nada se afasta daquilo cuja possibilidade o Espiritismo admite, nem das condições normais nas quais semelhantes fatos podem produzir-se; que esses fatos se explicam por leis perfeitamente naturais e, por conseguinte, nada têm de maravilhoso. Só a ignorância dessas leis pôde, até hoje, fazer que fossem consideradas como efeitos sobrenaturais, como tem ocorrido com quase todos os fenômenos cujas leis mais tarde a Ciência revelou.
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