Livros Espíritas
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O caso é que cada médium é único, ou seja, um indivíduo singular, com suas peculiaridades, capacidades e limitações. Por isso, embora o sistema e o processo da comunicação, reduzidos à sua estrutura mais singela, sejam sempre os mesmos, há matizes inesperados, criados pela coloração que cada um - médium e espírito comunicante - empresta àquilo que faz. Isto é particularmente observável quando o mesmo espírito se manifesta ocasionalmente através de médiuns diferentes ou quando o mesmo médium recebe espíritos diferentes. Em verdade, tanto na psicografia como na psicofonia, o caminho é o sempre o mesmo, ou seja, a circulação do pensamento pelos canais condutores e a 'materialização' desse pensamento na palavra escrita ou falada, através dos dispositivos expressores. É costume afirmar-se que, na psicografia, a entidade comunicante atua sobre o braço ou a mão do médium para movimentá-los e que, na psicofonia, a atuação se exerce sobre os órgãos da fala. Isso é verdadeiro, segundo nos esclarecem amigos espirituais competentes, mas num sentido mais profundo. Não é a entidade comunica que toma literalmente a mão do médium, como alguém que ajuda uma criança a escrever guiando sua mãozinha sobre o papel. A entidade atua com o seu pensamento através dos canais condutores que levam o impulso da sua vontade ao cérebro do médium, a fim de ativar o centro próprio que comanda os movimentos do braço e da mão. O mesmo mecanismo atua, de maneira idêntica, na psicofonia. Os impulsos chegam ao cérebro através dos canais condutores e ali estimulam os centros próprios da fala. No caso do companheiro espiritual que falava com forte sotaque francês, é possível que ele precisasse mesmo elaborar, com auxílio do médium, algumas adaptações à garganta deste, por não conseguir, sem esse recurso adicional, ativar de maneira adequada e eficaz os centros cerebrais de comando da fala. O certo, porém, é que o espírito comunicante não vai diretamente aos órgãos que 'materializam' a comunicação, mas aos centros que comandam esses órgãos; mesmo assim, não vai a esses centros diretamente, mas sempre por intermédio dos canais condutores. Frederick W. Myers informou, já na condição de espírito, através da mediunidade da sra. Geraldine Cummins (Ver The Road to Immortality, Ed. Aquarian Press, Londres, 1955), o seguinte: É muito difícil, deste lado em que nos encontramos, lidar com a mente do médium. Nós a impressionamos com a nossa mensagem, nunca impressionamos diretamente o cérebro do médium. Isto está fora de dúvida. É a mente que recebe nossa mensagem e a envia ao cérebro. Este é um simples mecanismo. A mente é como cera macia, recebe nossos pensamentos como um todo, mas deve produzir as palavras com que vesti-los. (Cummins, Geraldine. 1955.) As observações de Myers-espírito nos levam de volta, ainda que sob outro ângulo, à questão da 'vestidura' do pensamento. Por não haver encontrado expressão mais adequada - também nós, encarnados, enfrentamos dificuldades para 'vestir' nossos próprios pensamentos -, eu costumava dizer que o espírito comunicante transmite seu pensamento em bloco ao médium ou, mais especificamente, à individualidade espiritual do médium (Myers emprega aqui a expressão 'inner mind', ao pé da letra, mente interna, e que, na tradução, simplifiquei para mente apenas, pois acho que a mente é sempre interna). Recebido esse 'bloco' de informações, o médium trataria de explicitá-lo em palavras faladas ou escritas. Seria mesmo correta a expressão bloco? E mais: poderá a entidade alternativamente ditar o seu pensamento palavra por palavra? O amigo espiritual que se colocou à nossa disposição para estes esclarecimentos explicou que pode ocorrer uma e outra coisa, segundo o tipo de mediunidade, bem como conforme o 'espaço mental' que a individualidade do médium conceda ao manifestante e a própria condição evolutiva da entidade comunicante. São, portanto, vários e de naturezas bem diversas os componentes do processo. No caso da comunicação em 'bloco', portanto, caberia ao médium expliicitar o pensamento recebido? Novamente, pode ocorrer uma e outra coisa, ainda segundo a capacidade do médium, seu nível ou grau de desprendimento e características de sua mediunidade. A expressão 'em bloco' não caracteriza a contento o que ocorre. Não se trata de um bloco, como um tijolo, uma pedra ou um pacote, devidamente arranjado, como poderia parecer. A expressão mais aproximada e correta seria uma unidade. Esse pensamento uno - Myers emprega a expressão "como um todo" - é composto de partes. Não é difícil entender que uma unidade (ou um todo) seja a resultante de harmoniosa integração de partes ou unidades menores, da mesma forma que um átomo é um conjunto de partículas subatômicas, uma molécula resulta de uma aglomeração de átomos e um corpo físico é a integração de vários órgãos que, por sua vez, constituem sistemas operacionais ou um grupo de indivíduos formam uma família, uma raça ou nação. O elemento complicador, no caso da 'unidade' de pensamento, é o de que os 'componentes' desse conjunto têm sua velocidade própria, infinitamente maior do que a freqüência na qual se movimenta o ser encarnado. Não é, portanto, o pensamento - principalmente das entidades mais evoluídas - que se fraciona em inúmeros componentes. Ele parece fracionado ao ser trabalhado pelo médium, que se encontra situado numa faixa de freqüência, na qual a velocidade é muitíssimo menor do que aquela em que o pensamento é formulado, pela entidade comunicante. Talvez - e isto ocorre por minha conta, agora - uma imagem nos ajude a entender o aspecto particular da 'velocidade' neste contexto. Contemplado em estado de repouso, o disco de Newton apresenta, distintamente, as suas sete cores fundamentais. Levado, porém, a uma velocidade específica, as cores como que se fundem numa só e ele se apresenta totalmente branco. Não que as cores componentes deixassem de existir no disco, mas a vista do observador é que, incapaz de acompanhar a velocidade do disco, percebe apenas a tonalidade resultante. Da mesma forma, uma hélice em alta rotação se nos afigura um círculo. Quando duas entidades evoluídas se comunicam no mesmo nível de freqüência mental, o pensamento é um todo e, ao mesmo tempo, constituído de partes que o integram, assim como na fotografia de uma paisagem. E se pode perceber o conjunto de um só relance (velocidade), como focalizar a atenção nas partes que a constituem: uma árvore, um canteiro de flores, grupo de pedras, o céu e as nuvens à distância etc. Porque, neste caso, a imagem na foto é estática, isto é, não se apresenta com o efeito - velocidade. O que nos leva a dividir o pensamento, provocando inevitável retardamento no seu ritmo de expressão, é a dificuldade de colocá-la em palavras, um processo que se reduz a uma espécie de 'materialização' do pensamento. Podemos entender isso melhor se nos fixarmos na diferença que existe ver a fotografia de uma paisagem e descrevê-la, verbalmente ou por escrito. Para isso, temos de 'decompô-la' nas suas partes a fim de explicitá-la , de tal forma que a pessoa que não a tenha diante de seus olhos possa 'reconstituí-la' imaginariamente. E, mais uma vez, podemos observar que o processo da comunicação continua sendo, basicamente, o mesmo nas suas estruturas, quaisquer que sejam a modalidade e as peculiaridades individuais do médium ou do comunicante. A imagem da foto ilustra bem esse ponto. A foto de uma paisagem é uma 'mensagem' artística dotada de poder evocativo ou sugestivo, contida toda num só bloco ou unidade, composta de elementos ou detalhes que a integram. Também ela vai ao cérebro do médium pelos seus canais condutores - no caso, o sentido da visão, funcionando de fora para dentro. O processo estaria encerrado aí, a não ser que a pessoa que contempla a foto, deseje transmitir a alguém a 'mensagem' nela contida - digamos que seja uma mensagem de paz bucólica ou de simples beleza estética. Cabe-lhe, portanto, funcionar como 'médium' entre a foto e os canais condutores da pessoa à qual ele deseje transmitir a mensagem contida na paisagem. Essa mensagem é, de início, apenas um pensamento ou, para usar a nossa terminologia, uma unidade de pensamento que lhe compete 'vestir' com palavras que a descrevam para outrem, de tal forma que esta segunda pessoa possa reconstituir, na sua mente, a imagem original que irá gerar uma sensação de paz ou simplesmente de prazer estético. Aí está, pois, o mesmo processo estrutural: a mensagem inicial, sob forma de imagem fotográfica, como fonte geradora, e o 'médium', com seus canais condutores e expressores. Se a mensagem fica com o médium, encerra-se o processo, depois de percorridos os canais condutores e documentada a experiência sensorial. O médium a transmitiu a si mesmo. Se ela precisar ser retransmitida, os canais expressores terão de ser acionados de forma a movimentar mecanismos que possam atuar, sob o comando do cérebro, como os da palavra falada, escrita, ou, ainda, braços e mãos que reproduzam a foto, numa tela ou num papel, por meio de pincéis, lápis ou tinta própria. Como podemos observar, cada aspecto do exercício da mediunidade oferece saídas, entradas ou tomadas para especulações e explorações teoricamente inesgotáveis e de profundo interesse. Resta um aspecto relevante a abordar e que ressalta, espontâneo e conclusivo, destas observações. É o de que o corpo físico não passa de um instrumento, um mecanismo, ao passo que os comandos centrais e a capacidade, de decisão se localizam no espírito, ou seja, na individualidade. A tendência natural de quem observa a mediunidade em exercício é a de considerar o médium como um corpo físico, quando, na realidade, médium, de fato e de direito, é o perispírito, que funciona sempre como agente de ligação entre corpo e a unidade de comando, situada na individualidade.
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