Livros Espíritas
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Esta doutrina suscita várias objeções: 1ª) Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos. Como, sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade de Deus, em cuja presença se encontravam? Se ao menos tivessem conquistado tal eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfeição, poderíamos até conceber um triste retrocesso; contudo, o que torna a coisa mais incompreensível é o modo pelo qual no-los apresentam, isto é, criados perfeitos desde a origem. A consequência dessa teoria é esta: Deus quis criar seres perfeitos, já que os favorecera com todos os dons, mas se enganou; logo, segundo a Igreja, Deus não é infalível.⁶⁴ 2ª) Visto que nem a Igreja e nem os anais da história sagrada explicam a causa da rebelião dos anjos contra Deus e apenas dão como quase certa que se deveu à relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo, perguntamos que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena que então aconteceu? A que fonte recorreram para colher palavras tão claras e até simples colóquios? De duas uma: ou a cena é verdadeira ou não é. No primeiro caso, não havendo dúvida alguma, por que a Igreja não decide a questão? Se a Igreja e a História se calam, se somente a causa parece certa, é que não passa de hipótese e a cena descritiva é mero fruto da imaginação.⁶⁵ 3ª) As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirável num arcanjo que, por sua própria natureza e pelo grau alcançado, não deve participar, quanto à organização do universo, dos erros e prejuízos que os homens têm professado, até serem esclarecidos pela Ciência. Como, pois, poderia dizer que fixaria residência acima dos astros, dominando as mais elevadas nuvens? É sempre a velha crença da Terra como centro do universo, do céu como que formado de nuvens estendendo-se às estrelas, e da limitada região destas, que a Astronomia nos mostra disseminadas ao infinito no espaço infinito. Como hoje já se sabe que as nuvens não se elevam a mais de duas léguas da superfície terrena, seria preciso, para dizer que Lúcifer dominará as nuvens mais elevadas, referindo-se a montanhas, que a cena se passasse na superfície da Terra e que nela se localizasse a morada dos anjos. Por outro lado, se tal morada se localiza em região superior, é inútil dizer que ela se elevará acima das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem marcada pela ignorância é confessar que os homens contemporâneos são mais sábios do que os anjos. A Igreja sempre tem se equivocado ao não levar em conta os progressos da Ciência.
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(⁶⁴) Nota de Allan Kardec: Esta doutrina monstruosa é confirmada por Moisés, quando diz (Gênesis, 6:6 e 7): “Ele searrependeudehavercriadoohomemnaTerrae,sendotocadopelamaisíntimador,disse: ‘Exterminarei ohomemdafacedaTerra;exterminareitudo,desdeohomematéosanimais,desdeosquerastejamsobre a terra até os pássaros do céu, porque me arrependo de os ter criado’.”Ora, um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem infalível; por conseguinte, não é Deus. E são estas as palavras que a Igreja proclama como santas verdades.Também não se percebe o que poderia haver de comum entre os animais e a perversidade dos homens, para que merecessem tal extermínio.
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(⁶⁵) Nota de Allan Kardec: Encontra-se em Isaías, 14:11 e seguintes:“Teu orgulho foi precipitado nos infernos; teu corpo morto caiu no chão; tua cama exalará podridão e tuas vestes se cobrirão de vermes. Como caíste do céu, Lúcifer, tu que parecias tão brilhante ao romper do dia? Como foste arrojado sobre a Terra, tu que ferias as nações com teus golpes; que dizias de coração: Subirei aos céus, estabelecerei meu trono acima dos astros de Deus, sobre a montanha da aliança, nos flancos de Aquilão; sentar-me-ei acima das nuvens mais altas e serei igual ao Altíssimo! E, todavia, foste precipitado dessa glória no inferno, até o mais profundo dos abismos. Os que te virem, aproximando-se, encarar-te-ão, dizendo: Será este o homem que apavorou a Terra, que aterrou seus reinos, que fez do mundo um deserto, que destruiu cidades e reteve acorrentados todos os que aprisionou?” Estas palavras do Profeta não se referem à revolta dos anjos; é uma alusão ao orgulho e à queda do rei da Babilônia, que retinha os judeus em cativeiro, como atestam os últimos versículos. O rei da Babilônia é alegoricamente designado por Lúcifer, mas não se faz aí nenhuma menção da cena descrita. Essas palavras são do rei que as tinha no coração e se colocava por orgulho acima de Deus, cujo povo escravizara. A profecia da libertação do povo judeu, da ruína da Babilônia e da derrota dos assírios é, aliás, o assunto exclusivo desse capítulo.
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