Livros Espíritas
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A essa altura, já estava ele, certamente, convicto de que o Espírito de Verdade, seu guia espiritual, era o próprio Cristo, mas manteve seu compromisso de não proclamar isso aos quatro ventos. É importante, ainda, observar que, ao colocar a mensagem sob reserva, por medida de prudência, embora nada visse no texto que a desabonasse, ressalvou com palavras inequívocas a correção do médium, sem, contudo, proclamá-la como um grande e excepcional medianeiro. Era apenas "um dos melhores médiuns" do grupo. Melhor em que sentido? Porque era mais médium do que os outros? Ele não o diz, mas, certamente, não por isso, e sim, porque era dos mais dedicados, dos mais assíduos, mais ajustado e moralizado, como pessoa humana. Esse episódio ainda tem um desdobramento curioso que também contém importantíssima lição. Certa vez - em 10 de junho de 1856 -, ia já adiantado O livro dos Espíritos, quando Kardec desejoso de acelerar os trabalhos de elaboração da obra, consultou seus amigos espirituais (no caso, foi Hahnemann) sobre se devia acolher mais um médium (que ele identifica apenas com uma inicial: B.) para que o ajudasse. Vejamos como transcorreu o diálogo, através da srta. Japhet: Kardec: (a Hahnemann) - Pois que dentro em breve teremos acabado a primeira parte do livro, lembrei-me de que, para andarmos mais depressa, eu poderia pedir a B ... que me ajudasse, como médium. Que achas? Hahnemann: Acho que será melhor não te servires dele. -Por quê? Porque a verdade não pode ser interpretada pela mentira. Kardec: Mesmo que o espírito familiar de B, seja afeito à mentira, isso não obstaria a que um bom espírito se comunicasse pelo médium, desde que não se evocasse outro espírito. Hahnemann: Sim, mas aqui o médium secunda o espírito e, quando o espírito é velhaco, ele se presta a auxiliá-lo.. Aristo, seu intérprete e B. acabarão mal. (Kardec. Allan. 1981., Em primeiro lugar, é preciso assinalar que Kardec era ainda um iniciante, Em 1854, ouvira falar das mesas girantes. Em 1855, teve uma conversa com o Sr. Carlotti, e só em maio do mesmo ano assistiu a uma demonstração prática em casa da sra. Roger, cuja mediunidade operava por magnetização. A mensagem de Zéfiro, o precursor de toda uma equipe de elevadas entidades, é datada de 11 de dezembro de 1855 e foi recebida pela srta. Baudin. A sua conversa com Hahnemann, há pouco reproduzida, foi seis meses após o contato com Zéfiro e cerca de um ano após ter assistido à sua primeira sessão mediúnica. Na sua inexperiência inicial, o prof. Rivail achava possível receber boas e confiáveis comunicações através de um médium duvidoso, desde que tomadas certas precauções. Seu propósito era o melhor possível, ou seja, acelerar o trabalho de elaboração de O livro dos espíritos. Se a consulta revela uma atitude humilde da parte de Kardec demonstra, também, a correta maneira de agir do espírito. De fato, Hahnemann não lhe deu uma ordem taxativa, que liquidasse prontamente o caso. Preferiu deixar a questão à decisão do próprio Kardec, não se eximindo, contudo, de uma advertência tranquila e amiga, ao dizer: "Acho que será melhor não te servires dele". Quando Kardec insiste, na esperança de que poderia contornar o risco, Hahnemann é firme na sua franqueza, mas nada proíbe. Limita-se a declarar que o espírito que se colocava como guia espiritual do médium era velhaco e que o médium o secundava. E concluiu com uma previsão que, aliás, deu certo, como era de se esperar: ambos, médium e espírito, acabariam mal. Não é difícil a nenhum de nós imaginar o desastre que teria sido para a obra da Codificação se o médium B, fosse chamado a colaborar na formulação de O Livro dos Espiritos, que estava, então, apenas com a primeira parte concluída ... A grande lição desses episódios, postos aqui lado a lado para efeito de confronto, é a seguinte: aquele que se propõe trabalhar com médiuns precisa ter humildade suficiente para não se julgar infalível, mesmo que aparentemente seguro de que está apoiado em razões aceitáveis, bem como ter personalidade bastante lúcida para admitir como possível uma mensagem mais rara, sem botar o médium sob suspeita de fraude. Como instrumento de comunicação, o médium tanto pode veicular mensagens aceitáveis e autênticas, como inaceitáveis e falsas, dependem das condições que oferece. Não deve ser endeusado, no primeiro caso, ou crucificado, no segundo. Seria o mesmo que destruir o telefone porque acabamos de receber, por ele, uma notícia falsa, ou elogiá-lo porque acaba de trazer alegria. Ao mesmo tempo, não há como perder de vista o fato de que o médium é um ser humano que pode falhar por ser endeusado e pode embotar-se ou perder-se quando, em vez de socorrido, for arrasado, porque a sua comunicação é considerada inaceitável. Será mesmo? E por quê? O problema é do médium? É do espírito? É do próprio dirigente? O que se pode fazer para corrigir a situação? Se o médium se revela inequivocamente um trapaceiro não é mais correto e humano procurar saber por que razões está ele trapaceando? E o que fazer para recuperá-lo? Vimos, há pouco, que Hahnemann não tem meias palavras ao identificar o espírito manifestante como velhaco, mas não acusa o médium da deformação moral, limitando- se a dizer que este o secunda, aceita, serve de instrumento. Não questiona, não examina, não critica aquilo que ele próprio, está veiculando. Isto não quer dizer que ele médium também seja trapaceiro: pode ser apenas uma vítima, um irresponsável, um joguete. Seja como for, estamos observando que é vital um bom sistema de comunicação ou de convivência entre os médiuns e aqueles que acompanham ou dirigem os trabalhos. Se a ambição, a vaidade ou a ânsia do poder surgirem, de um lado ou de outro, podemos contar com graves problemas. 3. DISPONIBILIDADE E DISCIPLINA Tão cedo quanto possível, no exercício de suas faculdades, o médium deve convencer- se de que o seu trabalho não se resume às poucas horas semanais, se tanto, que passa ao lado de outros companheiros, junto à mesa mediúnica. Aliás, a observação é válida para todos os que se dedicam ao trabalho na seara espírita. Como costuma nos dizer um dos nossos amigos espirituais, a qualquer momento, onde quer que estejamos, o Cristo pode precisar de nossa modesta colaboração para socorrer alguém em crise. De nada adianta preparar-se para o trabalho no dia da reunião ou fazer uma prece antes de sair de casa, se é só isso que você faz. De fato, o exercício da mediunidade exige preparação constante, estado de vigilância, a dose certa de renúncia; enfim, um elenco de atitudes nada fáceis de cultivar em nosso estágio de imperfeição, mas não impossível de conseguir, pelo menos em parte. Um veículo em movimento pára se cessar a força propulsora, que precisa ser constante, com a intensidade apropriada. A sustentação de um impulso regenerador, em nós, obedece a princípio semelhante. Todos aqueles que estiverem empenhados no processo de reconstrução íntima, na reforma moral, que Kardec colocou como característica básica do verdadeiro espírita, precisa manter-se atento, não tanto com relação aos outros, mas consigo mesmo, pois a luta se trava é em nossa intimidade; a guerra é pessoal, intransferível, permanente. Algumas batalhas ganhamos nós, outras, ganham nossas paixões ainda arraigadas nas profundezas do psiquismo, entrincheiradas em velhas e sólidas matrizes. O médium está particularmente exposto a certas dificuldades nesse aspecto, porque uma 'derrapagem' mais séria pode abrir caminho para influenciações indesejáveis, de vez que ele tem em si, as 'tomadas' apropriadas às ligações com entidades desencarnadas, tanto as boas como as outras, segundo as condições que lhes ofereça. Se, momentaneamente, a condição é negativa, é certo que pode sintonizar-se com as estações retransmissoras da faixa indesejável. É possível que nem sempre ele perceba que está sendo imprudente, neste ou naquele aspecto do seu proceder. Valemo-nos, mais uma vez, da experiência pessoal de Regina para ilustrar esta particularidade. Tinha ela por hábito ler regularmente certa publicação doutrinária, quando começou a ficar inquieta e insatisfeita com o teor de determinados artigos e mensagens, ali veiculados. No círculo de seus amigos e companheiros de trabalho, comentava a matéria lida, às vezes, com certa dose de indignação (Que absurdo! Como é que deixavam sair aquilo?). Sem muita demora, um amigo espiritual lhe disse: - Seria bom você parar com isso. Não é uma atitude cristã a que você está assumindo. Se as mensagens são autênticas ou não, se você concorda ou não com os artigos, não importa. Faça o seu trabalho. Cada um responde por si mesmo. Se você não consegue ler tais publicações sem desarmonizar-se, por favor, não as leia. Foi o que ela fez. Mal chegava, a publicação era despachada, sumariamente, para a cesta. Nunca se sabe em que momento o médium vai precisar entrar em ação. Não que ele tenha de ficar as vinte e quatro horas do dia à disposição dos espíritos como um telefone, no qual basta inserir uma ficha. Dentro de certa disciplina, que ele próprio acabará estabelecendo, há muito que ele pode e deve fazer nas horas em que não está no trabalho mediúnico propriamente dito. Como vimos neste mesmo livro, Regina recebe, de vez em quando, visitas de espíritos, pelas mais diversas razões. Alguns parecem um tanto perdidos, sem rumo e sem objetivo conhecido. Certa vez, recebeu a visita de um casal típico de nordestinos brasileiros (ambos desencarnados). Estavam indignados com alguém que certamente lhes fizera alguma patifaria. Tramavam um jeito de levar essa pessoa - ainda encarnada a quebrar a perna, obrigando-a a ficar uns dias' de molho' para e ver o quanto era bom sofrer. Regina foi puxando conversa até que consegue convencê-los de que era uma grande tolice o projeto e uma perda de tempo gastar energias para quebrar a perna alheia. Cuidassem, antes, de coisas necessárias. Prometeram fazê-lo e se retiraram.
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