Livros Espíritas
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Meus companheiros de missão pareciam menos interessados em seguir o caso Dimas, durante a noite, inclusive Jerônimo, reservando-se para a continuidade do esforço no dia imediato, quando nos caberia transportá-lo até ao abençoado abrigo de Fabiano. Não se verificava o mesmo quanto a mim. Desembaraçando-me dos laços físicos, noutro tempo, não conseguira efetuar observações educativas para o meu acervo de conhecimentos. O choque sensorial no transe, para a minha personalidade ainda desatenta ante as questões do Espírito eterno, impedira-me a análise minuciosa do assunto. Agora, porém, a oportunidade poderia fazer mais luz em minhalma, quanto à posição dos recém-desencarnados, antes da inumação do envoltório grosseiro. Expondo ao Assistente o meu propósito de aprender, recebi dele a mais ampla permissão. Poderia visitar a residência de Dimas, à vontade, lá permanecendo durante as horas que desejasse. A aquiescência de Jerônimo enchia-me de prazer. Não só pela ocasião de enriquecer-me na esfera prática, mas também porque o fato, em si, era bastante expressivo. Pela primeira vez, um companheiro de trabalho, com autoridade suficiente, concordava com o meu desejo de humílimo operário. O consentimento, portanto, representava preciosa conquista. Constituía a liberdade instrutiva, com a responsabilidade de minha consciência e a confiança de meus superiores hierárquicos. Deixando a Casa Transitória, em plena noite, vi-me, em breve, no ambiente doméstico onde o amigo se desfizera dos elos da matéria mais espessa. Entrei. A casa enchia-se de amigos e simpatizantes, encarnados e desencarnados. Não se articulavam quaisquer serviços de defesa. Notei que havia trânsito livre pelos grupos de variadas procedências. Em recuado recanto, ainda ligado às vísceras inertes pelo cordão fluídico-prateado, permanecia Dimas no regaço da genitora, ao pé de dois amigos que, cuidadosos, o assistiam. A nobre matrona reconheceu-me, comovida, apresentando-me aos companheiros presentes. Um deles, Fabriciano, acolheu-me, prestativo, interessando-se pelos informes atinentes ao desenlace. Relatei-lhe os trabalhos, pormenorizadamente. Em seguida, o interlocutor passou a explicar-se: — Sempre tive por Dimas sincera admiração, pelo proveitoso concurso que soube oferecer-nos. Integro a comissão espiritual de serviço que vem atendendo aos necessitados, por intermédio dele, nos últimos seis anos. Foi sempre assíduo nas obrigações, bom companheiro, leal irmão. Surpreso com as referências, indaguei: — Há, desse modo, comissões de colaboração permanente para os médiuns em geral? — Não me reporto à generalidade, — redarguiu o interlocutor, — porque a mediunidade é título de serviço como qualquer outro. E há pessoas que pugnam pela obtenção dos títulos, mas desestimam as obrigações que lhes correspondem. Gostariam, por certo, do intercâmbio com o nosso Plano, mas, não cogitam de finalidades e responsabilidades. Em vista disso não se estabelecem conjuntos de cooperação para os médiuns em geral, mas apenas para aqueles que estejam dispostos ao trabalho ativo. Há muitos aprendizes que não ultrapassam a fronteira da tentativa, da observação. Desejariam o caminho bem aplainado, exigindo a convivência exclusiva dos Espíritos genuinamente bondosos. Experimentam a luta construtiva, através de sondagens superficiais e, à primeira dificuldade, abandonam compromissos assumidos. A aquisição da fortaleza moral não prescinde das provas arriscadas e angustiosas. Entretanto, em face das exigências naturais do aprendizado, dizem-se feridos na dignidade pessoal. Não suportam a aproximação de infelizes encarnados ou desencarnados, estacionando à menor picada de dor. Para semelhantes experimentadores, seria extremamente difícil a formação de equipes eficientes, representativas de nosso Plano. Não se sabe quando estão dispostos a servir. Se recebem faculdades intuitivas, pedem a incorporação; se contam com a vidência, querem a possibilidade de exteriorizar fluidos vitais para os fenômenos de materialização. Escutei as observações sensatas do novo amigo e, registando-lhe a nobreza dalma, passei a considerações íntimas em torno da tarefa que nos levara até ali. Porque se formara expedição destinada a socorro de servidor que dispunha de amigos de tamanha competência moral? Fabriciano demonstrava conhecimentos elevados e condição superior. O obsequioso amigo, porém, evidenciando extrema acuidade perceptiva, antes que eu fizesse qualquer pergunta inoportuna, acrescentou: — Não obstante nossa amizade ao médium, não nos foi possível acompanhar-lhe o transe. Temos delegação de trabalho, mas, no assunto, entrou em jogo a autoridade de superiores nossos, que resolveram proporcionar-lhe repouso, o que não nos seria possível prodigalizar-lhe, caso viesse diretamente para a nossa companhia. A palestra conduzia-se a interessantes ângulos do problema da morte. Seduzido pelas considerações, interroguei sobre o que já sabia, mais ou menos, a fim de poder penetrar particularidades mais significantes: — Nem todas as desencarnações de pessoas dignas contam com o amparo de grupos socorristas? — Nem todas, — confirmou o interlocutor, acentuando, — todos os fenômenos do decesso contam com o amparo da caridade afeta às organizações de assistência indiscriminada; no entanto, a missão especialista não pode ser concedida a quem não se distinguiu no esforço perseverante do bem. — Todavia, — objetei, curioso, tangendo a corda que mais me interessava no assunto, — não há casos de criaturas, essencialmente bondosas, que se libertam dos laços físicos — mais ou menos entrosados em comissões de serviço espiritual de natureza superior — sem que haja missões salvacionistas, previamente designadas para socorrê-las? Após breve pausa, acrescentei para fazer-me mais claro: — Vamos que Dimas estivesse em ligação recente com a sua comissão de trabalho e desencarnasse sem o cuidado dum grupo socorrista: seria deixado à mercê das circunstâncias? Riu-se Fabriciano, com franqueza, e retrucou: — Isso poderia acontecer. Temos precedentes. De maneira geral, ocorrem semelhantes casos com os trabalhadores aflitos por conseguir de qualquer modo a desencarnação, alegando necessidades de repouso. Muitas vezes, no fundo, são criaturas bondosas, mas menos lógicas e pouco inteligentes. Na semana finda, por exemplo, observamos um caso dessa natureza. Respeitável senhora, jovem ainda, pelas disposições sadias que demonstrou no campo da benemerência social, foi ligada a dedicada corrente de serviço, organizada por amigos nossos. Verificando-se, contudo, pequenas rusgas entre ela e o esposo, e tendo conhecimento da imortalidade da vida, além do sepulcro, desejou a pobre criatura ardentemente morrer. Tolas leviandades do marido bastaram para que maldissesse o mundo e a Humanidade. Não soube quebrar a concha do personalismo inferior e colocar-se a caminho da vida maior. Pela cólera, pela intemperança mental, criou a ideia fixa de libertar-se do corpo de qualquer maneira, embora sem utilizar o suicídio direto. Conhecia os amigos espirituais a que se havia unido, mas, longe de assimilar-lhes ajuizadamente os conselhos, repelia-lhes as advertências fraternas para aceitar tão somente as palavras de consolação que lhe eram agradáveis, dentre as admoestações salutares que lhe endereçavam. E tanto pediu a morte, insistindo por ela, entre a mágoa e a irritação persistentes, que veio a desencarnar em manifestação de icterícia complicada com simples surto gripal. Tratava-se de verdadeiro suicídio inconsciente, mas a senhora, no fundo, era extraordinariamente caridosa e ingênua. Não se recebeu qualquer autorização para conceder-lhe descanso e muito menos auxílio especial. Os benfeitores de nossa Esfera, apesar de eficiente intercessão em benefício da infeliz, somente puderam afastá-la das vísceras cadavéricas, há dois dias, em condições impressionantes e tristes. Não havendo qualquer determinação de assistência particularizada, por parte das autoridades superiores, e porque não seria aconselhável entregá-la ao sabor da própria sorte, em face das virtudes potenciais de que era portadora, o diretor da comissão de serviço, a que se filiara a imprevidente amiga, recolheu-a, por espírito de compaixão, em plena luta, e ela se foi, de roldão, a trabalhar por aí, ativamente, em condições muito mais sérias e complicadas. A elucidação atingira-me, fundo. Informara-me sobre o que desejava. A lei divina, de fato, perfeita em seus fundamentos, é igualmente harmoniosa em suas aplicações. Fabriciano, estampando belo sorriso, aduziu: — Não frutifica a paz legítima sem a semeadura necessária. Alguém, para gozar o descanso, precisa, antes de tudo, merecê-lo. As almas inquietas entregam-se facilmente ao desespero, gerando causas de sofrimento cruel. Logo após, contemplando o recém-desencarnado, como a indicar que deveríamos centralizar todo o interesse da hora no bem-estar dele, considerou, acariciando-lhe a fronte: — Nosso amigo repousa agora, terminada a tormenta das provas incessantes. Está enfraquecido, o pobrezinho. A sensibilidade, posta a serviço da obrigação bem cumprida, castigou-lhe a alma, até ao fim; todavia, plantou a fé, a serenidade, o otimismo e a alegria em milhares de corações, estabelecendo sólidas causas de felicidade futura. Por enquanto, permanecerá na posição de ave frágil, incapaz de voar longe do ninho. — Felizmente, — aventou a genitora, satisfeita, — vem melhorando de modo visível. Os resíduos que o ligam ao cadáver estão quase extintos.
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