Livros Espíritas
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Começa a crise maior. É evidente que tenta, ainda, reagir, e procura acalmar-se, dizendo que estou me esgotando inutilmente na tentativa de dominá-lo. Não tenho a menor intenção de dominá-lo e, sim, de despertar o seu Espírito. Dou-lhe prolongados passes, enquanto a crise se adensa e aprofunda. Subitamente, ele começa a gritar que não quer e não pode fazer aquilo, e informa, realmente em pânico, que tudo está ruindo em torno dele e dentro dele. Por fim, chora, desesperado, e parte. Este irmão voltou mais uma vez, na semana seguinte. Apresenta-se completamente desarvorado, mas ainda procura iludir-se, tentando convencer-se de que está vivendo um pesadelo, do qual vai acordar a qualquer momento. Digo-lhe que, ao contrário, agora é que ele acordou de um pesadelo multissecular. Ele está arrasado. Confessa que, pela primeira vez, tem medo: está vazio e quer dormir, para esquecer. É o grande momento da compreensão, da ternura, do amor fraterno. Muito respeito pela sua crise, muito carinho com as suas dificuldades, seus temores, seus desesperos. Ele sabe, ou pressente, o que o espera, em termos de resgates dolorosos, que se estenderão pelos séculos futuros, até onde e quando, somente Deus saberá. É preciso ajudá-lo, com muita paciência, levá-lo, terna-mente, a dar o passo final, que o tira de cima do fio da navalha e o coloca no lado positivo da fronteira da nova existência, cujas perspectivas se abrem diante dele, mas que ele ainda não consegue lobrigar com precisão. É necessário assegurar-lhe, nesse momento, a presença infalível de Deus em nossas vidas, o amor indubitável do Cristo, que deseja que o pecador se salve, e não que seja condenado a conviver com angústias que parecem eternizar- se. Além do mais, como temos visto, nunca falta, nessa hora, a presença de antigos e esquecidos amores: mães, esposas, irmãos, amigos, que nos ajudam na fase final da doutrinação. Este é o momento mais emocionante de todo o trabalho, O Espírito, em crise, precisa, mais do que nunca, de uma palavra de sincera afeição, mesmo que ainda tente uma reação desesperada, de última hora. Num caso desses, o irmão entrou em crise e começou a monologar, enquanto fico ao seu lado, em silêncio reverente. Depois de algum tempo, ele se volta para mim — e isto me comove profundamente — e me propõe uma visita minha aos seus domínios. Diz que determinará aos seus guardas que me deixem passar livremente. — Você sabe — acrescenta — que eu não te farei mal algum. Começa, em seguida, a ver cenas do seu passado distante. Ainda reage, tentando sugestionar-se de que é forte e não vai “cair”, mas sente um arrastamento incoercível, — E vocês — dirige-se a companheiros invisíveis — com essas caras luminosas, que estão aí me olhando? E para mim: — E você? Não diz nada? Só sei dizer duas palavras: — Meu amigo! Ele a repete, e depois esbraveja: — Maldito lago! As visões o atormentam implacavelmente. É o lago abençoado em que pregara o Cristo. Está arrasado, e diz que precisa recompor-se, pois seus soldados estão lá fora e não devem vê-lo naquele estado. Chama-me de traidor, mas não sinto nele nenhum ódio: é apenas desespero. Alguém, de elevada condição espiritual, uma mulher, o espera no limiar da nova existência, mas ele ainda reluta. Pensa em pedir uma licença aos seus chefes e afastar-se, por algum tempo, do “trabalho”. Estas crises caracterizam-se pela revolta, ante o inevitável. Há, porém, as que precipitam no arrependimento e no remorso mais patético. A um desses pobres irmãos desarvorados, que se manifestara com requintes de arrogância e ironia, vimos obrigar o médium a ajoelhar-se, em pranto. Julga-se um abutre sem remissão. Tivera o privilégio de viver na época do muito amado Francisco de Assis, a quem conhecera pessoalmente, mas cuja mensagem, de amor sem limites, não conseguira ainda assimilar; ao contrário, dedicava-se, com todo o poder de sua inteligência e de seus conhecimentos, à pavorosa técnica do “crime religioso”, segundo conceituação de um dos nossos companheiros. Em suma: a crise manifesta-se de muitas maneiras, mas dentro de certas configurações padronizadas: arrependimento, temor, revolta ou deslumbramento. Vem sempre acompanhada de profundas emoções; não é um momento que o Espírito consiga viver com indiferença e frieza, sendo, por conseguinte, a oportunidade preciosa, que o doutrinador não pode deixar passar, para alcançá-lo através do sentimento, da emotividade, do afeto. Trate-o com muito carinho, guie os seus passos vacilantes pelo novo caminho que começa a trilhar. Não o force, mas procure não desperdiçar a ocasião de estimulá-lo a tomar a decisão que vai mudar sua vida. Não tente enganá- lo, acenando-lhe com um paraíso imediato, que ele sabe não estar ao seu alcance. Não o atemorize com ameaças, não carregue nas cores do sofrimento que o espera. Seja simples, humano, amoroso, realista. Ofereça-lhe a sua ajuda, mencione a assistência espiritual que estará ao seu dispor, não para fazer por ele, mas para fazer com ele, o trabalho de reconstrução que o aguarda. Lembre a necessidade da prece constante, da confiança, da coragem otimista. Destaque os reencontros espirituais com os seus amados, que há tanto tempo o esperam. Não se esqueça de que a dor e o temor o atormentam. Coloque em seu coração a semente da esperança e mostre-lhe, confiante, as perspectivas da paz. A essa altura, ele não pode mais voltar sobre seus passos, para a proteção feroz da sua antiga organização ou do seu regime de irresponsabilidade pessoal. Seus ex- comparsas não mais o receberiam, senão para castigá-lo pela sua “fraqueza”. Ele não pode mais contar com aqueles que pensava serem seus amigos, e aqueles que o esperam, para ajudá-lo, ele não os conhece muito bem, ou então, sente diante deles uma vergonha mortal, pela enormidade de seus desvarios. Além do mais, ele teme vinganças cruéis, pois esse foi o clima em que viveu durante séculos, ou milênios; ou assusta-se ante a perspectiva de encarnações extremamente penosas, em corpos deformados, cegos ou mutilados. Um típico exemplo desses, quando o Espírito fica sobre a linha, contemplando as duas perspectivas — passado e presente — tenho-a num caso de que tratamos. Era extremamente rebelde, rude, agressivo e violento, fora também um inquisidor. Ao despertar para a verdade, confessa a aflição que experimenta, diante da enormidade de suas culpas. Não se julga digno da afeição de Espíritos tão elevados, como o de sua mãe. Está perplexo ante a cegueira espiritual que, por tanto tempo, o impeliu a cometer tantos e tão graves desatinos, e o impediu de atender ao apelo de seus verdadeiros amigos, dos quais nem percebia a presença junto de si. Preocupa-se com aqueles que liderava, no mundo das sombras, que, a seu ver, ficariam agora ao abandono. Digo-lhe que Deus vela por todos nós e que uma tarefa que poderia desempenhar, mais tarde, seria precisamente a de ajudar a recuperar os irmãos que ainda ficaram nas sombras. Pede que oremos por ele e que o perdoemos pelo tratamento que nos deu, de início, com a sua agressividade. Também eu lhe peço minhas desculpas, por uma ou outra palavra mais enérgica, necessária, às vezes, para o despertamento. Ele chora, pela primeira vez em muito, muito tempo, segundo nos informa. E parte.
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