Livros Espíritas
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Como! garantiam que eram Espíritos que vinham manifestar-se em público em seu proveito, e eis que os irmãos Davenport tratavam esses Espíritos que, afinal de contas, não são seus empregados, com tanta sem-cerimônia quanto um diretor de teatro, ditando regras às suas coristas! Sem perguntar aos seus comparsas sobrenaturais se o dia lhes convinha, se não estavam cansados, se o calor não os incomodava, marcavam uma data fixa, uma hora determinada, e era preciso que os seres fluídicos se deslocassem naquela data, entrassem em cena naquela hora, executassem suas facécias musicais com a precisão de um músico, a quem o seu café-concerto outorga um cachê de alguns vinténs! “Francamente, era fazer do mundo espírita uma idéia muito mesquinha, no-lo apresentar assim como povoado de gênios por encomenda, de duendes assalariados, que iam à cidade a um sinal do patrão. Pois quê! nenhuma folga para esses figurantes supra-terrestres! Enquanto uma simples inchação dá ao mais humilde comediante o direito de mudar o espetáculo, as almas da trupe Davenport eram escravas, a quem era interdito tirar pequenas férias. Vale a pena morar em planetas fantásticos para ser reduzido a esse grau de escravidão? “E para que tarefa eram convocadas essas almas infelizes do além? Para fazer passar suas mãos – mãos de almas! – através da fresta de um armário! Para as aviltar a ponto de se exibirem como saltimbancos! para as constranger a fazer malabarismos com violões, esses instrumentos grotescos, que nem mesmo querem os trovadores que cantam nas praças, com os olhos em moedas de cinco centavos!...” Com efeito, não é pôr o dedo na ferida? Se o Sr. Neuter tivesse sabido que o Espiritismo diz exatamente a mesma coisa, embora de maneira menos espirituosa, não teria dito: “Mas isto não é Espiritismo!” absolutamente como vendo um curandeiro, diz: “Isto não é Medicina.” Ora, assim como nem a Ciência nem a religião são solidárias com os que delas abusam, o Espiritismo não se solidariza com os que lhe tomam o nome. A má impressão do autor vem, pois, não da pessoa dos irmãos Davenport, mas das condições nas quais se colocam perante o público e da idéia ridícula que dão do mundo espiritual as experiências feitas em tais condições, que chocam a própria incredulidade, por ver aquele mundo explorado e levado à força nos palcos improvisados. Essa foi a impressão da crítica em geral, que a traduziu em termos mais ou menos polidos, e será a mesma toda vez que os médiuns não forem capazes de respeitar a crença que professam. O insucesso dos irmãos Davenport é um feliz acontecimento para os adversários do Espiritismo, que, no entanto, precipitam-se ao cantar vitória, ridicularizando, desafiando e gritando que seus adeptos estão mortalmente feridos, como se o Espiritismo estivesse personificado nos irmãos Davenport. O Espiritismo não está personificado em ninguém; está em a Natureza, e de ninguém depende travar-lhe a marcha, porque os que tentam fazê-lo trabalham pelo seu avanço. O Espiritismo não consiste em se fazer amarrar por cordas, nem nesta ou naquela experiência física; jamais tendo patrocinado esses senhores, nem os apresentando como pilares da doutrina, que nem mesmo conhecem, nenhum desmentido recebe de sua desventura. Seu fracasso não depõe contra o Espiritismo, mas contra os exploradores do Espiritismo. De duas, uma: ou são hábeis prestidigitadores, ou são verdadeiros médiuns. Se são charlatães, devemos ser gratos a todos os que ajudam a desmascará-los; a propósito, devemos agradecimentos particulares ao Sr. Robin, por prestar em tudo isto notável serviço ao Espiritismo, que só poderia sofrer caso as suas fraudes se tivessem propagado. Todas as vezes que a imprensa assinalou abusos, explorações ou manobras capazes de comprometer a doutrina, os espíritas sinceros, longe de se lamentarem, aplaudiram. Se são verdadeiros médiuns, não podem servir utilmente à causa, pois as condições em que se apresentam são susceptíveis de produzir uma impressão desfavorável. Num e noutro caso o Espiritismo não tem nenhum interesse em tomar-lhes a defesa. Agora, qual será o resultado de todo esse escândalo? Ei-lo: A crônica, que nesses dias de calor tropical estava de folga, ganha um assunto que se apressa em segurar para encher suas colunas, carentes de acontecimentos políticos, de notícias teatrais ou de salões. O Sr. Robin aí encontra, para seu teatro de prestidigitação, uma excelente publicidade, que explorou com muita habilidade, que lhe desejamos seja muito frutuosa, porque todos os dias ele fala dos Espíritos e do Espiritismo. Com isto a crítica perde um pouco de consideração, pela excentricidade e pela incivilidade de sua polêmica. Os mais prejudicados, materialmente falando, talvez sejam os Srs. Davenport, cuja especulação se acha singularmente comprometida. Quanto ao Espiritismo, evidentemente é quem mais lucrará. Seus adeptos o compreendem tão bem que absolutamente não se emocionam com o que se passa e esperam o resultado com confiança. Na província, onde são, mais que em Paris, vítimas das zombarias dos adversários, contentam-se em lhes responder: Esperai, e em pouco tempo vereis que estará morto e enterrado. Antes de mais, o Espiritismo ganhará com isto uma imensa popularidade e se tornará conhecido, ao menos de nome, por uma porção de gente que dele nunca tinha ouvido falar. Mas, nesse número, muitos não se contentam com o nome; sua curiosidade é excitada pela salva dos ataques; querem saber o que há nesse doutrina, supostamente tão ridícula; irão à fonte, e quando virem que apenas lhes deram uma paródia, dirão a si mesmos que a coisa não é tão má assim. Assim, pois, o Espiritismo ganhará por ser mais bem compreendido, mais bem julgado e mais bem apreciado. Ganhará ainda pondo em evidência os adeptos sinceros e devotados, com os quais se pode contar, e os distinguir dos adeptos de fachada, que da doutrina só tomam as aparências ou a superfície. Seus adversários não deixarão de explorar a circunstância, para suscitar divisões ou defecções, reais ou simuladas, com a ajuda das quais esperam arruinar o Espiritismo. Depois de terem fracassado por todos os outros meios, é seu supremo e último recurso, mas que não lhes propiciará melhor êxito, porque só destacarão do tronco os galhos mortos, que não davam nenhuma seiva. Privado dos ramos paralíticos, o tronco será mais vigoroso. Estes resultados, e vários outros, que nos abstemos de enumerar, são inevitáveis e não nos surpreenderíamos se os Espíritos bons tivessem provocado todo esse reboliço apenas para lá chegarem mais depressa.
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