Livros Espíritas
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Se o Sr. bispo de Argel tivesse colhido seus ensinamentos alhures, e não em fontes interessadas, teria sabido o que são esses supostos loucos e não se teria rendido ao eco de uma história inventada pela má-fé, em que o ridículo ressalta do próprio exagero. Um primeiro jornal falou de quatro casos, que teriam sido constatados num hospício; outro jornal, citando o primeiro, elevou a cifra para quarenta; um terceiro, citando o segundo, elevou-a para quatrocentos e acrescenta que vão ampliar o hospício. Todos os jornais hostis repetem até não mais poder esta história. Depois o Sr. bispo de Argel, movido pelo zelo, retomando-a em sua base, a aumenta ainda mais, dizendo que as casas de alienados da França, Inglaterra e América regurgitam de vítimas da nova doutrina. Coisa curiosa! ele cita a Inglaterra, um dos países onde o Espiritismo é menos espalhado e onde certamente há menos adeptos do que na Itália, na Espanha e na Rússia. Que uma brochura efêmera e sem importância, que um jornal pouco exigente quanto às fontes noticiosas que publica, adiantem um fato arriscado por necessidade de ofício, nada é de admirar, embora seja imoral; mas um documento episcopal, com caráter oficial, só deveria conter coisas de uma autenticidade de tal modo comprovada, que deveria escapar até à suspeita de inexatidão, ainda que involuntária. Quanto à paz das famílias perturbadas pela prática do Espiritismo, não conhecemos senão aqueles casos em que mulheres, ludibriadas por seus confessores, foram instigadas a abandonar o lar para se subtraírem às influências demoníacas trazidas por seus maridos espíritas. Em contrapartida, numerosos são os exemplos de famílias outrora separadas, cujos membros se reconciliaram depois dos conselhos de seus Espíritos protetores e sob a influência da doutrina que, a exemplo de Jesus, prega a união, a concórdia, a doçura, a tolerância, o esquecimento das injúrias, a indulgência para com as imperfeições alheias e restabelece a paz onde reinava a cizânia. Ainda aqui é o caso de dizer que se julga a qualidade da árvore pelo seu fruto. É um fato confirmado que, quando há divisão das famílias, a cisão parte sempre do lado da intolerância religiosa. A carta pastoral termina pela seguinte ordenação: “Por estas razões, e invocado o Espírito Santo, prescrevemos e ordenamos o que se segue: o “Art. 1 – A prática do Espiritismo ou a invocação dos mortos é proibida a todos e a cada um na diocese de Argel; o “Art. 2 – Os confessores recusarão a absolvição a quem quer que não renuncie a toda participação, seja como médium, seja como adepto, seja como simples testemunha às sessões privadas ou públicas, ou, enfim, a uma operação qualquer do Espiritismo; o “Art. 3 – Em todas as cidades da Argélia e nas paróquias rurais onde o Espiritismo se introduziu com algum brilho, os senhores curas lerão publicamente esta epístola do púlpito, no primeiro domingo após o seu recebimento. Aliás, por toda parte ela será comunicada em particular, conforme as necessidades. “Argel, 18 de agosto de 1863.” É a primeira ordenação lançada com vistas a interditar oficialmente o Espiritismo numa localidade. É de 18 de agosto de 1863. Esta data marcará nos anais do Espiritismo, como a de 9 de outubro de 186037, dia para sempre memorável do auto-de-fé de Barcelona, ordenado pelo bispo dessa cidade. Como os ataques, as críticas e os sermões nada produziram de satisfatório, quiseram dar um golpe pela excomunhão oficial. Vejamos se o objetivo será mais bem atingido. Pelo primeiro artigo, a ordenação é dirigida a todos e a cada um na diocese de Argel, isto é, a proibição de ocupar-se do Espiritismo é feita a todos os indivíduos sem exceção. Mas a população não se compõe apenas de católicos fervorosos; sem falar dos judeus, protestantes e muçulmanos, ela compreende todos os materialistas, panteístas, incrédulos, livres-pensadores, doutores e indiferentes, cujo número é incalculável; figuram no contingente nominal do catolicismo, porque nascidos e batizados nessa religião, mas, na realidade, eles mesmos abandonaram a Igreja; neste numero o Sr. Renan e tantos outros figuram na população católica. Assim, a ordenação não alcança todos os indivíduos, mas somente os que observam a mais estrita ortodoxia. Dar-se-á o mesmo em toda parte onde for feita semelhante proibição. Sendo, pois, materialmente impossível que uma interdição dessa natureza, venha de onde vier, atinja a população inteira, para um que for afastado do Espiritismo, haverá cem que dele continuarão se ocupando. Depois põem de lado os Espíritos que vêm sem ser chamados, mesmo junto àqueles proibidos de os receber; que falam aos que não os querem ouvir; que passam através das paredes quando se lhes fecha a porta. Aí está a maior dificuldade, para a qual falta um artigo na ordenação acima. Esta diz respeito apenas aos católicos fervorosos. Ora, já o repetimos várias vezes, o Espiritismo vem dar fé aos que em nada crêem ou que estão em dúvida. Aos que têm uma fé inabalável e aos quais esta é suficiente, ele diz: “Guardai-a e procurai não vos afastar dela.” Nunca diz a alguém: “Deixai a vossa crença para vir a mim”, pois tem bastante a colher no campo dos incrédulos. Assim, a proibição não pode atingir aos que se dirigem ao Espiritismo e só alcança aqueles a quem ele não se dirige. Como disse Jesus, “não são os sadios que necessitam de médico.” Se estes últimos vêm a ele, sem que o Espiritismo os busque, é que neste encontram consolações e certezas que não encontraram em parte alguma; neste caso, não levarão em conta a proibição. Eis quase três meses que foi dada esta ordenação e já podemos apreciar os seus efeitos. Desde o seu aparecimento, mais de vinte cartas nos foram enviadas da Argélia, todas confirmando os resultados previstos. Veremos o que há no próximo número.
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(36) N. do T.: A Argélia deixou de ser colônia francesa em 1961.
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(37) N. do T.: O auto-de-fé de Barcelona ocorreu em 9 de outubro de 1861.
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