Livros Espíritas
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“Não sinto nenhuma repugnância em admitir essas influências, essas inspirações, essas revelações, se quiserdes. O que repilo absolutamente é que, sob pretexto de revelação, venham dizer-me: Deus falou, portanto, ides submeter-vos. Deus falou pela boca de Moisés, do Cristo, de Maomé, portanto sereis judeus, cristãos ou muçulmanos, senão incorrereis nos castigos eternos; e, enquanto esperamos, iremos amaldiçoar-vos e vos torturar aqui. “Não! não! Semelhantes revelações não quero a preço nenhum. Acima de todas as revelações, de todas as inspirações, de todos os profetas presentes, passados e futuros, há uma lei suprema: a lei da liberdade. Com esta lei por base, admitirei, salvo discussão, tudo o que vos agradar. Suprimi esta lei e só haverá trevas e violência. Quero ter a liberdade de crer ou de não crer e dizê-lo claramente; é o meu direito e quero usá-lo; é a minha liberdade e faço questão de preservá-la. Dizeis-me que não crendo no que me ensinais, perco minha alma; é possível. Quero minha liberdade até esse limite; quero perder minha alma, se isto me apraz. Assim, quem será aqui o juiz de minha salvação e de minha perda? Quem, pois, poderá dizer: Aquele foi salvo e este perdido para sempre? Então a misericórdia de Deus não será infinita? Haverá alguém no mundo que possa sondar o abismo de uma consciência? ...................................................................................................................... “É porque esta doutrina também se encontra no curioso livro do Sr. Allan Kardec, que me reconcilio com os Espíritos que ele interrogou. O laconismo de suas repostas prova que os Espíritos não têm tempo a perder e, se de alguma coisa me admiro, é que ainda o tenham bastante para responder complacentemente ao chamado de tanta gente que perde o seu a evocá-los. ...................................................................................................................... “Tudo quanto, de maneira mais ou menos clara e mais ou menos sumária dizem os Espíritos, cujas respostas o Sr. Allan Kardec coligiu, foi exposto e desenvolvido com notável clareza por Michel, que, de longe, parece ser o mais adiantado e o mais completo de todos os místicos contemporâneos. Sua revelação é, ao mesmo tempo, uma doutrina e um poema, doutrina sã e fortificante, poema brilhante. A única vantagem que encontro nas perguntas e respostas que o Sr. Allan Kardec publicou é que apresentam, sob uma forma mais acessível à grande massas dos leitores, e sobretudo, das leitoras, as principais idéias sobre as quais importa chamar-lhes a atenção. Os livros de Michel não são de leitura fácil; exigem uma tensão de espírito muito pronunciada. O livro de que falamos, ao contrário, pode ser uma espécie de vade mecum; nós o tomamos, o deixamos ou o abrimos em qualquer página: logo a curiosidade é despertada. As perguntas dirigidas aos Espíritos são as que nos preocupam a todos; as respostas, por vezes, são muito fracas; outras vezes condensam em poucas palavras a solução dos problemas mais espinhosos e sempre oferecem um vivo interesse ou salutares indicações. Não sei de curso de moral mais atraente, mais consolador, mais encantador que esse. Todos os grandes princípios sobre os quais se fundam as civilizações modernas ali são confirmados e, notadamente, o princípio dos princípios: a liberdade! O espírito e o coração saem dali tranqüilizados e fortalecidos. “São, sobretudo, os capítulos relativos à pluralidade dos sistemas e à lei do progresso coletivo e individual que têm um atrativo e um encanto poderosos. Para mim, os Espíritos do Sr. Allan Kardec nada me ensinaram a este respeito. Há muito eu acreditava firmemente no desenvolvimento progressivo da vida através dos mundos; que a morte é o limiar de uma existência nova, cujas provas são proporcionadas aos méritos da existência anterior. Aliás, é a velha fé gaulesa, era a doutrina druídica, e nisto os Espíritos nada inventaram; mas acrescentaram uma série de deduções e de regras práticas excelentes na conduta da vida. Sob esse aspecto, como sob muitos outros, a leitura desse livro, independentemente do interesse e da curiosidade excitados por sua origem, pode ter um alto caráter de utilidade para os caracteres indecisos, para as almas pusilânimes que flutuam nos limbos da dúvida. A dúvida! É o pior dos males! É a mais horrível das prisões, e delas se deve sair a qualquer preço. Esse estranho livro ajudará mais de uma criatura a consolidar a sua vida, a quebrar os ferrolhos da prisão, precisamente porque é apresentado sob forma simples e elementar, como um catecismo popular, que todos podem ler e compreender”. ...................................................................................................................... Após ter citado algumas perguntas sobre o casamento e o divórcio, que acha um tanto pueris e não são tratadas ao seu gosto, o Sr. Jourdan assim termina: “Apresso-me a dizer, entretanto, que nem todas as respostas dos Espíritos são tão superficiais quanto as de que acabo de falar. É o conjunto desse livro que é admirável, é o fundamento geral que é marcado por uma certa grandeza e por uma viva originalidade. Quer emane ou não de uma fonte extranatural, a obra é surpreendente sob vários títulos e, só por isso, interessou-me vivamente e sou levado a crer que possa interessar a muita gente”. RESPOSTA O Sr. Jourdan faz uma pergunta, ou, antes, uma objeção, necessariamente motivada pela insuficiência de seus conhecimentos sobre a matéria. “Não é absolutamente impossível – diz ele – que alguns desses seres acidentalmente entrem em relação com os homens. Porém, o que nos parece pueril é que seja necessário o concurso material de uma mesa, de uma prancheta ou de um médium qualquer para que tais relações se estabeleçam. De duas, uma: ou essas comunicações são úteis, ou são desnecessárias. Se úteis, os Espíritos não devem ter necessidade de ser chamados de maneira misteriosa, nem de ser evocados e interrogados para ensinar aos homens o que importa saber; se inúteis, por que a elas recorrer?” No seu Filósofo ao pé do fogo, acrescenta a respeito: “Eis um dilema do qual a escola espírita terá dificuldade para sair”. Não; certamente não terá dificuldade para sair, porquanto há muito tempo o tinha proposto e também resolvido; e se não o foi pelo Sr. Jourdan é que ele não conhece tudo. Ora, nós cremos que se ele tivesse lido O Livro dos Médiuns, que trata da parte prática e experimental do Espiritismo, teria sabido a que se ater sobre esse ponto. Sim, sem dúvida seria pueril, e essa palavra, empregada por conveniência pelo Sr. Jourdan seria muito fraca; dizemos que seria ridícula, absurda e inadmissível que, para relações tão sérias quanto as do mundo visível com o invisível, os Espíritos necessitassem, para nos transmitir seus ensinos, de um utensílio tão vulgar quanto uma mesa, uma cesta ou uma prancheta, porque daí se seguiria que quem estivesse privado de tais acessórios também estaria privado de suas lições. Não, não é assim. Não sendo os Espíritos senão as almas dos homens, despojadas do grosseiro envoltório do corpo, há Espíritos desde que houve homens no Universo (não dizemos na Terra); esses Espíritos constituem o mundo invisível que povoa os espaços, que nos cerca e em meio ao qual vivemos sem o suspeitar, como igualmente vivemos, sem o perceber, em meio ao mundo microscópico. Em todos os tempos esses Espíritos têm exercido sua influência sobre o mundo visível; em todos os tempos os que são bons e sábios têm auxiliado o gênio por inspirações, enquanto outros se limitam a nos guiar nos atos ordinários da vida; mas essas inspirações, que ocorrem pela transmissão de pensamento a pensamento, são ocultas e não podem deixar nenhum traço material. Se o Espírito quiser manifestar-se de maneira ostensiva, é preciso que atue sobre a matéria; se quer que o seu ensino, ao invés de expressar a confusão e a incerteza do pensamento, tenha precisão e estabilidade, não dispensa sinais materiais e, para isso – que nos permitam a expressão – serve-se de tudo quanto lhe cai à mão, desde que seja nas condições apropriadas à sua natureza. Utiliza uma pena ou lápis, se quer escrever, um objeto qualquer, mesa ou caçarola, se quer bater, sem que por isso seja humilhado. Haverá algo mais vulgar que uma pena de ganso? Não é com isto que os maiores gênios legam as suas obras-primas à posteridade? Tirai-lhes todo meio de escrever; que fazem? Pensam; mas seus pensamentos se perdem, se ninguém os recolher. Suponde um literato maneta: como se arranja? Tem um secretário, que transcreve o seu ditado. Ora, como os Espíritos não podem segurar a pena sem intermediário, fazem-na sustentar por alguém que se chama um médium, que inspiram e dirigem. Algumas vezes esse médium age com conhecimento de causa: é o médium propriamente dito; outras vezes atua de maneira inconsciente da causa que o solicita: é o caso de todos os homens inspirados que, assim, são médiuns sem o saber. Vê-se, pois, que a questão das mesas e pranchetas é inteiramente acessória e não a principal, como crêem os que não estão bem informados. Elas foram o prelúdio dos grandes e poderosos meios de comunicação, como o alfabeto é o prelúdio da leitura corrente. A segunda parte do dilema não é menos fácil de resolver. “Se essas comunicações são úteis – diz o Sr. Jourdan – os Espíritos não devem ter necessidade de ser chamados de maneira misteriosa, de ser evocados...”.
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(15) 1 vol. In-12; preço 3 fr. Livraria Dentu.
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(14) Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 567.
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(16) N. do T.: O autor se refere à pluralidade dos mundos habitados, um dos princípios fundamentais da Doutrina dos Espíritos.
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