Livros Espíritas
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Não sabemos o que o Sr. Figuier responderia às perguntas formuladas na profissão de fé acima, mas o seu livro deixa pressenti-lo. Com efeito, o segundo parágrafo de seu prefácio é assim concebido: “Um conhecimento exato da História do passado teria prevenido ou, pelo menos, diminuído muito tal espanto. De fato, seria grande erro imaginar-se que as idéias que, em nossos dias, deram origem à crença nas mesas falantes e nos Espíritos batedores, são de origem moderna. Esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época; está em todos os tempos e países, por se ligar à própria natureza do espírito humano. Por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças, o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível. Esta disposição inata existiu em todos os períodos da História da Humanidade, revestindo aspectos diferentes conforme o tempo, os lugares e os costumes, originando manifestações variáveis na forma, porém tendo, no fundo, um princípio idêntico.” Dizer que é por uma instintiva e injustificada desconfiança em suas próprias forças que o homem é levado a colocar acima de si forças invisíveis, que se exercem numa esfera inacessível, é reconhecer que o homem é tudo, que pode tudo, e que acima dele nada há. Salvo engano, isso não é apenas materialismo, mas ateísmo. Aliás, essas idéias ressaltam de uma porção de outras passagens de seu prefácio e de sua introdução, para as quais chamamos toda a atenção de nossos leitores e estamos convencidos de que estes as julgarão como nós. Dir-se-á que tais palavras não se aplicam à Divindade, mas aos Espíritos? Então responderemos que ele não conhece a primeira palavra do Espiritismo, pois negar os Espíritos é negar a alma, desde que Espíritos e almas são a única e mesma coisa; que os Espíritos não exercem sua força numa esfera inacessível, visto estarem de nosso lado, a nos tocar e a agir sobre a matéria inerte, à semelhança de todos os fluidos imponderáveis e invisíveis que, não obstante, são os mais poderosos motores e os mais ativos agentes da Natureza. Só Deus exerce o seu poder numa esfera inacessível aos homens; negar este poder é, pois, negar a Deus. Dir-se-á, enfim, que esses efeitos, que atribuímos aos Espíritos, talvez sejam devidos a alguns desses fluidos? É possível. Mas, então lhe perguntaremos: como fluidos ininteligentes podem produzir efeitos inteligentes? O Sr. Figuier constata um fato capital ao dizer que esse amor do maravilhoso não é particular à nossa época; está em todos os tempos e países, por se ligar à própria natureza do espírito humano. Aquilo a que chama amor do maravilhoso é, muito simplesmente, a crença instintiva, inata, como o diz, na existência da alma e sua sobrevivência ao corpo, crença que revestiu formas diversas, segundo os tempos e os lugares, mas tendo no fundo um princípio idêntico. Esse sentimento inato, universal no homem, Deus lho teria inspirado para se divertir à sua custa? para lhe dar aspirações impossíveis de realizar? Crer que assim possa ser é negar a bondade de Deus; mais ainda: é negar o próprio Deus. Querem outras provas do que antecipamos? Vejamos ainda algumas passagens do seu prefácio: “Na Idade Média, quando uma religião nova transforma a Europa, o maravilhoso se instala nessa mesma religião. Acredita-se nas possessões diabólicas, nos feiticeiros e nos magos. Durante vários séculos essa crença é sancionada por uma guerra sem quartel e sem misericórdia, feita aos infelizes, acusados de comércio secreto com os demônios, ou com os magos, seus prepostos. “Pelo fim do século dezessete, na aurora de uma filosofia tolerante e esclarecida, o diabo envelheceu e a acusação de magia começa a ser um argumento gasto, mas nem por isto o maravilhoso perde os seus direitos. Os milagres florescem à vontade nas igrejas das diversas comunhões cristãs; acredita-se, ao mesmo tempo, na varinha mágica ou se decifram os movimentos de uma forquilha para pesquisar os objetos do mundo físico e obter esclarecimentos sobre as coisas do mundo moral. Nas diversas ciências continua-se a admitir a intervenção de influências sobrenaturais, precedentemente introduzidas por Paracelso. “No século dezoito, século de Voltaire e da Enciclopédia, enquanto sobre as matérias filosóficas todos os olhos se abriam às luzes do bom-senso e da razão – não obstante a voga da filosofia cartesiana – só o maravilhoso resistia à queda de tantas crenças até então veneradas. Os milagres ainda se multiplicavam.” Se a filosofia de Voltaire, que abriu os olhos à luz do bom-senso e da razão e minou tantas superstições, não pôde extirpar a idéia inata de um poder oculto, não seria porque tal idéia é inatacável? A filosofia do século dezoito flagelou os abusos, mas se deteve contra a base. Se essa idéia triunfou sobre os golpes desferidos pelo apóstolo da incredulidade, o Sr. Figuier espera ser mais feliz? Permitimo-nos duvidar. O Sr. Figuier faz uma confusão singular das crenças religiosas, dos milagres e da varinha mágica. Para ele, tudo isto sai da mesma fonte: a superstição, a crença no maravilhoso. Não tentaremos aqui defender essa pequena forquilha, que teria a singular propriedade de servir à pesquisa do mundo físico, em virtude de não nos havermos aprofundado na questão; por uma questão de princípios, só elogiamos ou criticamos o que conhecemos. Mas, se quiséssemos argumentar por analogia, perguntaríamos se a pequena agulha de aço, com a qual o navegante acha sua rota, não tem uma virtude muito mais admirável do que a pequena forquilha? Não, direis vós, porquanto conhecemos a causa que a faz agir e esta causa é inteiramente física. De acordo. Mas quem diz que a causa que age sobre a forquilha não seja inteiramente física? Antes que se conhecesse a teoria da bússola, que teríeis pensado se tivésseis vivido naquela época, quando os marinheiros não tinham como guia senão as estrelas, que muitas vezes lhes faltavam? Que teríeis pensado, dizemos nós, de um homem que tivesse vindo dizer: Tenho aqui numa caixinha, não maior que a de bombons, uma agulha pequenina, com a qual os maiores navios podem navegar com segurança; que indica a rota com qualquer tempo, com a precisão de um relógio? Ainda uma vez, não combatemos a varinha mágica, e menos ainda o charlatanismo, que dela se apoderou; apenas perguntamos o que haveria de mais sobrenatural se um pequeno pedaço de madeira, em dadas circunstâncias, fosse agitado por um eflúvio terrestre invisível, como a agulha imantada o é pela corrente magnética que também não se vê? Será que essa agulha também não serve para pesquisar as coisas do mundo físico? Não será ela influenciada pela presença de uma mina de ferro subterrânea? O maravilhoso é a idéia fixa do Sr. Figuier; é o seu pesadelo; ele o vê por toda parte onde haja algo que não compreende. Mas apenas ele, sábio, poderá dizer como germina e se reproduz o menor grão? Qual a força que faz a flor voltar-se para a luz? Quem, na terra, atrai as raízes para um terreno propício, mesmo através dos mais rudes obstáculos? Estranha aberração do espírito humano, que pensa tudo saber e nada sabe; que despreza maravilhas incontáveis e nega um poder sobre-humano! Estando baseada na existência de Deus, esse poder sobre-humano que se exerce numa esfera inacessível; sobre a alma, que sobrevive ao corpo, conservando a sua individualidade e, conseqüentemente sua ação, a religião tem por princípio aquilo que o Sr. Figuier chama de maravilhoso. Se ele se tivesse limitado a dizer que entre os fatos qualificados de maravilhoso uns são ridículos e absurdos, aos quais a razão faz justiça, nós o aplaudiríamos com todas a nossas forças; mas não poderíamos concordar com a sua opinião, quando confunde na mesma reprovação o princípio e o abuso do princípio; quando nega a existência de qualquer poder acima da Humanidade. Aliás, essa conclusão é formulada de maneira inequívoca na passagem seguinte: “Dessas discussões, cremos que resultará para o leitor a perfeita convicção da não-existência de agentes sobrenaturais e a certeza de que todos os prodígios, que em diversas épocas têm excitado a surpresa ou a admiração dos homens, se explicam apenas pelo conhecimento de nossa organização fisiológica. A negação do maravilhoso, eis a conclusão a tirar deste livro, que poderia chamar-se o maravilhoso explicado. E se alcançarmos o objetivo a que nos propusemos atingir, teremos a convicção de ter prestado um verdadeiro serviço ao bem de todos.” Dar a conhecer os abusos, desmascarar a fraude e a hipocrisia onde quer que se encontrem, é, sem dúvida, prestar um grande serviço. Mas julgamos que é fazer grande mal à sociedade, assim como aos indivíduos, atacar o princípio em virtude de terem dele abusado; é querer cortar a boa árvore, porque deu um fruto estragado. Bem compreendido, o Espiritismo, dando a conhecer a causa de certos fenômenos, mostra o que é possível e o que não o é. Por isto mesmo, tende a destruir as idéias realmente supersticiosas; mas, ao mesmo tempo, demonstrando o princípio, dá um objetivo ao bem; fortalece as crenças fundamentais que a incredulidade ataca com violência a pretexto do abuso; combate a chaga do materialismo, que é a negação do dever, da moral e de toda esperança, e é por isto que dizemos que um dia ele será a salvaguarda da sociedade. Aliás, estamos longe de nos lamentar pela obra do Sr.
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