Livros Espíritas
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Acresce, ainda, que o constante intercâmbio com o mundo espiritual, proporciona ao médium uma visão muito mais ampla e serena da vida como um todo. Questões tidas por transcendentais, como reencarnação, comunicabilidade e imortalidade do espírito, que a tantos assustam, preocupam, intrigam, ou não são cogitadas, o médium e demais trabalhadores aprendem a considerar como aspectos resolvidos de uma realidade óbvia por si mesma. Deixam, portanto, de ser problema de fé ou crença, para se tornarem certezas e convicções. O médium não acha ou crê, que o espírito sobrevive - ele sabe que é assim. Além disso, ele observa importantes aspectos da lei divina em plena operação, ao contemplar a situação desesperadora do suicida ou do criminoso, no além, ou a posição tranqüila da pessoa que desencarnou em paz consigo e com o mundo em que viveu, quando na carne. Ele percebe que dificuldades são bênçãos sob disfarce; que lutas produzem o fortalecimento do espírito e que o amor é, de fato, a grande força construtora do universo cósmico e íntimo. Tais convicções, contudo, não o levam a uma vida de fantasias, em estado de alienada beatitude. Nada disso. Quanto mais consciente e envolvido no dia-a-dia da existência, seus problemas, lutas e dificuldades, mais bem-preparado estará ele para o exercício da mediunidade, dado que é precisamente nessa firme ancoragem na realidade que ele colhe elementos de conforto, estabilidade emocional e equilíbrio para levar a bom termo suas tarefas, em contato com um plano em que a vida apresenta características 'físicas' tão diferentes. Quanto a problemas orgânicos e até espirituais, nem sempre ficamos sequer sabendo como e quando foram contornados ou minorados. Regina tem duas experiências dessas bem gravadas na lembrança, entre outras de menor impacto. Certa vez, sentia-se tão mal que não podia se mover. Sentou-se numa cadeira reclinável e ficou ali, como diria Antero, "na mão de Deus". Em frente a essa cadeira, ficava um pequeno sofá de dois lugares. Subitamente. Regina viu dois homens sentados no sofá. Procurando sintonizar-se neles, ela pôde perceber-lhes a conversa. Um deles era um mulato alto, simpático, com voz agradável de barítono. Ficou por algum tempo 'ouvindo' a conversa descontraída que mantinham, quando surgiu uma terceira personagem, à porta do aposento. Era claro, baixo, gordo e vestia um jaleco branco. Assim que ele surgiu. o mulato falou: - Ó Ismael, que bom que você chegou. Estávamos aqui somente à sua espera. O outro entrou e os três se aproximaram de Regina, que continuava na cadeira, como que desvitalizada, semimorta. O homem ao qual chamaram de Ismael mais o mulato tomaram os braços dela e introduziram algo em suas veias, como se lhe estivessem a aplicar uma injeção, uma em cada braço. Subitamente, ela começou a sentir um calor percorrendo-lhe o corpo, sensação semelhante à que experimentou, certa vez, ao tomar uma série de cálcio injetável. Em seguida, adormeceu por alguns minutos. Quando despertou, sentia-se outra. Vestiu-se, desceu as escadas e foi procurar um médico. De outra vez, acordou com uma severa queda de pressão arterial, ou pelo menos foi essa a impressão que tinha. Tentou sentar-se na cama, mas não o conseguiu. Sua intenção era ir até à porta chamar a vizinha do lado, no mesmo andar. Com enorme esforço, conseguiu manter-se e deu alguns passos incertos, mas tombou ao chão e teve de voltar, arrastando-se, para a cama, na qual conseguiu subir, agarrando-se como pôde. Logo que se deitou, surgiu uma senhora de aparência agradável e simpática, com uma xícara na mão. - Tome - disse ela. - Beba isso aqui. Ajudou-a a sentar-se de encontro às almofadas e chegou-lhe a xícara aos lábios, pois ela não tinha forças nem para segurar a xícara. No estado de fraqueza em que se encontrava, vivendo duas realidades superpostas, ficou a se perguntar como poderia ter entrado aquela mulher ali, se a porta da frente estava fechada. Seria alguma vizinha: Mas não havia forças nem para perguntar. Ingerindo o líquido da xícara, a moça fê-la deitar-se novamente e ali ficou por alguns momentos. Em seguida, saiu. Minutos mais tarde, Regina sentiu-se melhor, levantou-se e foi até a sala para agradecer à boa 'vizinha' desconhecida que viera socorrê-la em tão dramáticas circunstâncias. Não havia ninguém em casa e a porta de entrada continuava fechada. Só então, Regina entendeu que a ajuda tinha vindo de alguma amiga do plano imaterial da vida. Abrindo a porta, conseguiu, afinal chamar a vizinha do lado para prestar-lhe socorro, pois a amiga espiritual havia dado apenas uma quota de energia suficiente para levantar-lhe, provisoriamente, as forças. O simpático mulato que pela primeira vez apareceu sentado no sofá, no dia em que ela foi socorrida pelo médico desencarnado, identificou-se como Jorge, e passou a ser visita freqüente. É uma pessoa alegre, tranqüila, dona de uma sabedoria sem pose e sem alardes. Ultrapassou a fase em que se experimenta o impulso tolo de exibir-se para mostrar que se é bom. No dicionário do espaço espiritual, grandeza aparece com sentido muito diverso daquele que encontramos nos nossos, da Terra. Curioso isso, não é mesmo? Poderíamos ficar aqui a conversar, interminavelmente, sobre a mediunidade, seus mistérios, seus segredos, seus mecanismos e suas alegrias, mas já vai longe este livro e é preciso colocar-lhe um ponto final. Antes disso, no entanto, o leitor paciente há de permitir, por certo, que ponhamos, primeiro, um ponto e vírgula, pois ainda há dois aspectos relevantes que devem ser abordados, antes do ponto final. Ambos dizem respeito a tarefas paralelas ou conjugadas ao trabalho mediúnico propriamente dito, ou seja, àquele que se desenvolve no socorro aos irmãos desencarnados que são trazidos para debater com os encarnados seus problemas e conflitos pessoais. No caso específico de nosso grupo, essas tarefas paralelas se desdobram em duas - a de orientação espiritual e a de assistência social. Veremos, a seguir, como se processam e por que foram iniciadas.
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