Livros Espíritas
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É nesse trabalho de aperfeiçoamento que aparece a utilidade, a importância das vidas de provas, das vidas modestas e despercebidas, das existências de labor e dever para vencer as paixões ferozes, o orgulho e o egoísmo, para curar as chagas morais. Desse ponto de vista, o papel dos humildes, dos pequenos neste mundo, as tarefas desprezadas patenteiam-se em toda a sua grandeza à nossa vista; compreendemos melhor a necessidade do regresso à carne para resgate e purificação. Resolvendo o problema do mal, o Novo Espiritualismo mostra, mais uma vez, sua superioridade sobre as outras doutrinas. Para os materialistas evolucionistas, o mal e a dor são constantes, universais. Em toda parte – dizem Taine, Soury, Nietzsche e Haeckel – vemos espraiar-se o mal e sempre o mal há de reinar na humanidade; todavia – acrescentam –, com o progresso o mal decrescerá; mas será mais doloroso, porque nossa sensibilidade física e moral irá aumentando e será necessário sofrermos e chorarmos sem esperança, sem consolação, por exemplo, no caso de uma catástrofe, irreparável a seus olhos, como a morte de um ser querido. Por conseguinte, o mal sobrepujará sempre o bem. Certas doutrinas religiosas não são muito mais consoladoras. Segundo o Catolicismo, o mal parece predominar também no universo e Satanás parece muito mais poderoso do que Deus. O inferno, segundo a palavra fatídica, povoa-se constantemente de multidões inumeráveis, ao passo que o paraíso é partilhado de raros eleitos. Para o crente ortodoxo, a perda, a separação dos seres que amou, são quase tão definitivas como para o materialista. Não há nunca para ele certeza completa de tornar a encontrá-los, de se lhes reunir um dia. Com o Novo Espiritualismo a questão toma aspecto muito diferente. O mal é apenas o estado transitório do ser em via de evolução para o bem; o mal é a medida da inferioridade dos mundos e dos indivíduos, é também, como vimos, a sanção do passado. Toda escala comporta graus; nossas vidas terrestres representam os graus inferiores de nossa ascensão eterna. Tudo ao redor de nós demonstra a inferioridade do planeta em que habitamos. Muito inclinado sobre o eixo, sua posição astronômica é a causa de perturbações freqüentes e de bruscas mudanças de temperatura: tempestades, inundações, convulsões sísmicas, calores tórridos, frios rigorosos. A humanidade terrestre, para subsistir, está condenada a um labor penoso. Milhões de homens, jungidos ao trabalho, não sabem o que é o descanso nem o bem-estar. Ora, existem relações íntimas entre a ordem física dos mundos e o estado moral das sociedades que os povoam. Os mundos imperfeitos, como a Terra, são reservados, em geral, às almas ainda em baixo grau de evolução. Entretanto, nossa estada nesse meio é simplesmente temporária e subordinada às exigências de nossa educação psíquica; outros mundos, melhor aquinhoados sob todos os pontos de vista, nos aguardam. O mal, a dor, o sofrimento, atributos da vida terrestre, têm forçosa razão de ser; são o chicote, a espora que nos estimulam e nos fazem andar para frente. Sob esse ponto de vista, o mal tem um caráter relativo e passageiro; é a condição da alma ainda criança que se ensaia para a vida. Pelo simples fato dos progressos feitos, vai pouco a pouco diminuindo, desaparece, dissipa-se, à medida que a alma sobe os degraus que conduzem ao poder, à virtude, à sabedoria! Então a justiça patenteia-se no universo; deixa de haver eleitos e réprobos; sofrem todos as conseqüências de seus atos, mas todos reparam, resgatam e, cedo ou tarde, se regeneram para evolverem desde os mundos obscuros e materiais até a luz divina; todas as almas amantes tornam a encontrar-se, reúnem-se em sua ascensão para cooperarem juntas na grande obra, para tomarem parte na comunhão universal. O mal não tem, pois, existência real, não há mal absoluto no universo, mas em toda parte a realização vagarosa e progressiva de um ideal superior; em toda parte se exerce a ação de uma força, de um poder, de uma causa que, conquanto nos deixe livres, nos atrai e arrasta para um estado melhor. Por toda parte, a grande lida dos seres trabalhando para desenvolver em si, à custa de imensos esforços, a sensibilidade, o sentimento, a vontade, o amor! Insistamos na noção de justiça, que é essencial; porque há precisão, necessidade imperiosa, para todos, de saber que a justiça não é uma palavra vã, que há uma sanção para todos os deveres e compensações para todas as dores. Nenhum sistema pode satisfazer nossa razão, nossa consciência, se não realizar a noção de justiça em toda a sua plenitude. Essa noção está gravada em nós, é a lei da alma e do universo. Por tê-la desconhecido é que tantas doutrinas se enfraquecem e se extinguem na presente hora, em redor de nós. Ora, a doutrina das vidas sucessivas é um resplendor da idéia de justiça; dá-lhe realce e brilho incomparáveis. Todas as nossas vidas são solidárias umas com as outras e se encadeiam rigorosamente. As conseqüências dos nossos atos constituem uma sucessão de elementos que se ligam uns aos outros pela estreita relação de causa e efeito; constantemente, em nós mesmos, em nosso ser interior, como nas condições exteriores de nossa vida, sofremos-lhes os resultados inevitáveis. Nossa vontade ativa é uma causa geradora de efeitos mais ou menos longínquos, bons ou maus, que recaem sobre nós e formam a trama de nossos destinos. O Cristianismo, renunciando a este mundo, procrastinava a felicidade e a justiça para o outro; e se seus ensinamentos podiam bastar aos simples e aos crentes, tornavam fácil aos hábeis cépticos dispensar-se da justiça, pretextando que seu reino não era da Terra; mas com a prova das vidas sucessivas o caso muda completamente de figura. A justiça deixa de ser transferida para um domínio quimérico e desconhecido. É aqui mesmo, em nós e em torno de nós, que ela exerce o seu império. O homem tem de reparar, no plano físico, o mal que fez no mesmo plano; torna a descer ao cadinho da vida, ao próprio meio onde se tornou culpado, para, junto daqueles que enganou, despojou, espoliou, sofrer as conseqüências do modo pelo qual anteriormente procedeu. Com o princípio dos renascimentos, a idéia de justiça define-se e verifica-se; a lei moral, a lei do bem se patenteia em toda a sua harmonia. Esta vida não é mais do que um anel da grande cadeia das suas existências, eis o que o homem afinal compreende; tudo o que semeia colherá mais cedo ou mais tarde. Deixa, portanto, de ser possível desconhecermos as nossas obrigações e esquivarmo-nos às nossas responsabilidades. Nisso, como em tudo o mais, o dia seguinte vem a ser o produto da véspera; por baixo da aparente confusão dos fatos descobrimos as relações que os ligam. Em vez de estarmos escravizados a um destino inflexível, cuja causa está fora de si, tornamo-nos senhores e autores desse destino. Em vez de ser dominado pela sorte, o homem, muito ao contrário, a domina e cria, independentemente dela, por sua vontade e seus atos. O ideal de justiça deixa de ser afastado para um mundo transcendental; podemos definir-lhe os termos em cada vida humana, renovada em sua relação com as leis universais, no domínio das causas reais e tangíveis. Essa grande luz faz-se precisamente na hora em que as velhas crenças desabam sob o peso do tempo, em que todos os sistemas apresentam sinais de próxima ruína, em que os deuses do passado se cobrem e se afastam, os deuses de nossa infância, os que os nossos pais adoraram. Há muito tempo o pensamento humano, ansioso, tateia nas trevas à procura do novo edifício moral que há de abrigá-lo. E, precisamente, vem agora a doutrina dos renascimentos oferecer-lhe o ideal necessário a toda a sociedade em marcha e, ao mesmo tempo, o corretivo indispensável aos apetites violentos, às ambições desmedidas, à avidez das riquezas, das posições, das honras: um dique aos desmandos do sensualismo que ameaça submergir-nos. Com ela, o homem aprende a suportar, sem amargura e sem revolta, as existências dolorosas, indispensáveis à sua purificação; aprende a submeter-se às desigualdades naturais e passageiras que são o resultado da lei de evolução, a postergar as divisões fictícias e malsãs, provenientes dos preconceitos de castas, de religiões ou de raças. Esses preconceitos desvanecem-se inteiramente desde que se saiba que todo Espírito, nas suas vidas ascendentes, tem de passar pelos mais diversos meios. Graças à noção das vidas sucessivas, as responsabilidades individuais, ao mesmo tempo em que as das coletividades, aparecem-nos mais distintas. Há em nossos contemporâneos uma tendência para atirar o peso das dificuldades presentes sobre os ombros das gerações futuras. Persuadidos de que não tornarão à Terra, deixam a nossos sucessores o cuidado de resolverem os problemas espinhosos da vida política e social. Com a lei dos destinos, a questão muda logo de face; não somente o mal que tivermos feito recairá sobre nós e teremos de pagar as nossas dívidas até o último ceitil, como o estado social que tivermos contribuído para perpetuar com seus vícios, com as suas iniqüidades, apanhar-nos-á na sua férrea engrenagem, quando voltarmos à Terra, e sofreremos por todas as suas imperfeições. Essa sociedade, à qual teremos pedido muito e dado pouco, virá a ser outra vez “nossa” sociedade, sociedade madrasta para seus filhos, egoístas e ingratos. No decurso de nossas estações terrestres, às vezes como poderosos, outras como fracos, diretores ou dirigidos, sentiremos muitas vezes recair sobre nós o peso das injustiças que deixamos se perpetuassem. E não nos esqueçamos de que as existências obscuras, as vidas humildes e despercebidas serão em muito maior número para cada um de nós, ao passo que os homens que possuírem a abastança, a educação e a instrução representarão a minoria na totalidade das populações do Globo.
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