Livros Espíritas
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— e a voz reticenciosa quebrantara-se dolorosamente, como premida de grande an gústia, para concluir em tom amargo —, façam como quiserem, pois, até agora, vocês eram meus servos, mas, de ora em d iante, eu também sou escravo, não mais me pertenço a mim mesmo. Ante aquela voz humilde e triste, Jacob começou a chorar. Tinha plena convicção de que Saulo enlou quecera. Chamou os dois companheiros à parte e explicou: — Vocês voltarão para Jerusalém co m a triste nova, enquanto me dirijo à cidade próxima, com o doutor, a providenciar da melhor forma. Levá -lo-ei aos seus amigos e buscaremos o socorro de algum médico... Noto -o extremamente perturbado... O jovem rabino cientificou -se das deliberações quase sem surpresa. Conformou-se passivamente com a resolução do servo. Naquela hora, submerso em trevas densas e profundas, tinha a imaginação repleta de conjeturas transcendentes. A cegueira súbita não o afligia. Do âmbito daquela escuridão que lhe enc hia os olhos da carne, parecia emergir o vulto radioso de Jesus, aos seus olhos de Espírito. Era justo que cessassem as suas per cepções visuais, a fim de conservar, para sempre, a lem brança do glorioso minuto de sua transformação para uma vida mais subli me. Saulo recebeu as observações de Jacob, com a humil dade de uma criança. Sem uma queixa, sem resistência, ouviu o trotar da caravana que regressava, enquanto o velho servidor lhe oferecia o braço amigo, tomado de infinitos receios. Com o pranto a escorr er dos olhos inexpressivos, como perdidos nalguma visão indevassável no vácuo, o orgulhoso doutor de Tarso, guiado por Jacob, seguiu a pé, sob o sol ardente das primeiras horas da tarde. Comovido pelas bênçãos que recebera das esferas mais elevadas da vida , Saulo chorava como nunca. Es tava cego e separado dos seus. Dolorosas angústias represavam-se-lhe no coração opresso. Mas a visão do Cristo redivivo, sua palavra inesquecível, sua expressão de amor lhe estavam presentes na alma transformada. Jesus era o Senhor, inacessível à morte. Ele orientaria os seus passos no caminho, dar -lhe-ia novas ordens, secaria as chagas da vaidade e do orgulho que lhe corroíam o coração; sobretudo, conceder-lhe-ia forças para reparar os erros dos seus dias de ilusão. Impressionado e triste, Jacob guiava o chefe amigo, perguntando a si próprio a razão daquele pranto inces sante e silencioso. Envolvido na sombra da cegueira temporária, Saulo não percebeu que os mantos espessos do crepúsculo abraçavam a Natureza. Nuvens escuras precipitavam a queda da noite, enquanto ventos sufocantes sopravam da imensa planície. Dificilmente, acompanhava as pas sadas de Jacob, que desejava apressar a marcha, receoso da chuva. Coração resoluto e enérgico, não reparava os obstáculos que se antepun ham à sua jornada dolorosa. Faltava-lhe a visão, necessitava de um guia; mas Jesus recomendara que entrasse na cidade, onde lhe seria dito o que tinha a fazer. Era preciso obedecer ao Salvador que o honrara com as supremas revelações da vida. A passos indecisos, ferindo os pés em cada movimento inseguro, caminharia de qualquer modo para executar as ordens divinas. Era indispensável não observar as dificuldades, era imprescindível não esquecer os fins. Que importava o olhar em trevas, o regresso da caravana a Jerusalém, a penosa caminhada a pé em demanda de Damasco, a falsa suposição dos companheiros a respeito da inolvidável ocorrência, a perda dos títulos honoríficos, o repúdio dos sacerdotes seus amigos, a incompreensão do mundo inteiro, diante do fato cul minante do seu destino? Saulo de Tarso, com a profunda sinceridade que lhe caracterizava as mínimas ações, só queria saber que Deus havia mudado de resolução a seu respeito. Ser-lhe-ia fiel até ao fim. Quando as sombras crepusculares se faziam mais densas, dois homens desconhecidos entravam nos subúr bios da cidade. Embora a ventania afastasse as nuvens tempestuosas na direção do deserto, grossos pingos de chuva caíam, aqui e ali, sobre a poeira ardente das ruas. As janelas das casas residenciais fechavam -se com estrépito. Damasco podia recordar o jovem tarsense, formoso e triunfador. Conhecia o nas suas festas mais brilhantes, costumava aplaudi -lo nas sinagogas. Mas, vendo passar na via pública aqueles dois homens cansados e tristes, jamais poderia identificá-lo naquele rapaz que caminhava cambaleante, de olhos mortos...
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