Livros Espíritas
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Tendo-se os olhos voltados para esse lado, vimos surgir do meio da parede, sem qualquer solução de continuidade, uma forma humana, de estatura média. Aparecia de perfil, mostrando a princípio os ombros e a cabeça. Gradualmente, foi-se apresentando todo o corpo. A parte superior desenhava-se perfeitamente; os contornos eram nítidos e precisos. A parte inferior era mais vaporosa e formava apenas uma confusa massa. A aparição não caminhava, deslizava. Depois de atravessar lentamente a sala, a dois passos de nós, foi entranhar-se e desaparecer na parede oposta, num ponto que não apresentava abertura alguma. Pudemos contemplá-la durante cerca de três minutos e as nossas impressões, confrontadas logo após, acusavam perfeita identidade. As materializações e aparições de Espíritos encontram, como vimos, obstáculos que, forçosamente, lhes limitam o número. O contrário se dá com certos fenômenos de ordem física e de variadíssima natureza, os quais se propagam e multiplicam, cada vez mais, em torno de nós. Vamos examinar sucintamente esses fatos em sua escala progressiva, no ponto de vista do interesse que oferecem e da certeza que deles resulta, relativamente à vida livre do Espírito. Em primeira linha vem o fenômeno hoje tão comum, das casas mal-assombradas. São habitações freqüentadas por Espíritos de ordem inferior, nas quais se entregam eles a ruidosas manifestações. Pancadas, sons de toda a ordem, desde os mais fracos até os mais retumbantes, fazem vibrar os soalhos, móveis, paredes e o próprio ar. A louça é mudada e quebrada; pedras são atiradas de fora para dentro dos aposentos. Os jornais trazem, freqüentemente, narrativas de fenômenos desse gênero. Mal cessam num ponto, reproduzem-se noutros, quer na França, quer no estrangeiro, despertando a atenção pública. Em certos lugares, como em Valence-en-Brie, em Yzeures (Indre-e-Loire), em Ath (Brabant), em Agen, em Turim, etc., duraram meses inteiros, sem que os mais hábeis policiais tivessem conseguido descobrir uma causa humana para tais manifestações. É o seguinte, sobre o assunto, o testemunho de Lombroso, que escrevia na Leitura: “Os casos de casas mal-assombradas, em que durante anos se reproduzem aparições ou ruídos, em concordância com a narração de mortes trágicas, observados sem a presença dos médiuns, militam a favor da ação dos falecidos. Trata-se muitas vezes de casas desabitadas, onde não raro se observam tais fenômenos durante várias gerações e mesmo até durante séculos.(cvii) “O Dr. Maxwell, Procurador Geral da Corte de Apelação de Bordéus, encontrou acórdãos de diversos tribunais superiores, no século dezoito, anulando arrendamentos por motivo de serem mal-assombrados os lugares”. Esses fatos se explicam pela ação malfazeja de seres invisíveis que desabafam, post mortem, ódios nascidos, no mundo, de más relações anteriores, de prejuízos causados por certas famílias ou indivíduos, que por esse motivo se tornam vítimas da perniciosa influência desses desencarnados. Assim, no plano geral de evolução, a própria liberdade do mal, o exercício das paixões inferiores atraindo, com a produção desses fenômenos, a atenção pública para um mundo ignorado, concorrem para a instrução e o progresso de todos. Mau grado à repugnância da Ciência em geral, para ocupar-se de tais fatos, cada dia vemos crescer o número dos investigadores conscienciosos que, afastando-se das trilhas seguidas, se entregam à paciente observação do mundo invisível. Não há mês, semana, que não se registre um novo fato no domínio experimental. Os fenômenos de ordem física, a levitação de corpos pesados e o seu transporte à distância, sem contacto, provocam mui especialmente a observação de alguns sábios. Falamos em outro lugar(cviii) das experiências realizadas em 1892, em Nápoles e Milão, sob a direção de homens de ciência de várias nações. Processos verbais, por eles redigidos, reconhecem a intervenção de forças e vontades desconhecidas, na produção desses fenômenos. Análogas experiências foram depois efetuadas em Roma, em Varsóvia, em casa do Doutor Ochorowicz, na ilha de Roubaud, em casa do Senhor Richet, professor da Academia de Medicina de Paris, em Bordéus, em Agnelas, perto de Voiron (Isère), em casa do coronel de Rochas. Citemos ainda as do professor Botázzi, diretor do Instituto de Fisiologia na Universidade de Nápoles, em maio de 1907, com a assistência do professor Cardarélli, senador, de Galeótti, Passíni, Scarpa, de Amícis, etc. Essas experiências foram dirigidas com método rigorosamente científico. Como, evidentemente, os sentidos podem enganar, empregaram-se aparelhos registradores que permitiram estabelecer, não somente a realidade, a objetividade do fenômeno, mas ainda a grafia da força física em ação. As cautelas adotadas pelo grupo de sábios acima indicados, sendo médium Eusápia Paladino, foram as seguintes: Na extremidade da sala, por trás de uma cortina, foi previamente colocada uma mesa com duas prateleiras pesando 21 quilos, e ocupando todo o espaço do gabinete à distância de 20 centímetros da cortina, mais ou menos. Sobre essa mesa foram dispostos: 1- Um cilindro coberto de papel enfumaçado, movediço, em torno de um eixo ao qual fora fixada uma espécie de caneta cuja ponta atingia a superfície do cilindro. Imprimindo movimento de rotação ao cilindro, aí a caneta registrava uma linha horizontal; 2- Uma balança de pesar cartas; 3- Um metrônomo elétrico de Zimmermann (o contacto é estabelecido por uma ponta de platina que, a cada oscilação dupla da haste, mergulha em pequeno tubo de mercúrio), posto em comunicação com um aparelho-avisador Desprez, situado num compartimento ao lado; 4- Um teclado telegráfico, ligado a um outro avisador Desprez. 5- Uma pêra de cauchu, ligada, por comprido tubo também de cauchu, através da parede, a um manômetro de mercúrio de François Frank, situado no compartimento contíguo. Nessas condições, todos os aparelhos descritos foram impressionados, à distância, estando as mãos de Eusápia seguras por dois experimentadores e formando círculo em torno dela todos os assistentes. Por toda parte foi verificado o deslocamento de móveis, sons de instrumentos, sem contacto, levitação de corpos humanos, levantamento de cadeiras com as pessoas que as ocupavam. O professor Lombroso fala de um guarda-louça “que avançava como um paquiderme”. Todas essas manifestações se poderiam explicar, indiferentemente, por causas exclusivamente materiais, pela ação de forças inconscientes. A força psíquica, exteriorizada pela criatura humana, bastaria, por exemplo, para explicar o movimento de mesas e outros objetos à distância e, por extensão, todos os fenômenos que não acusam a ação de uma inteligência estranha à dos assistentes. Mas o que complica o fenômeno e torna insuficiente essa explicação é que, na maior parte das sessões de que falamos, de par com o movimento de objetos e levitação de pessoas, produzem-se tateamentos, aparição de mãos luminosas e de formas humanas, que não são dos experimentadores. Os Annales des Sciences Psychiques de 1° de fevereiro 1903 relatam os seguintes fatos observados pelo Doutor Venzano: “Numa sessão em Milão, quando Eusápia se achava no máximo grau do transe, vimos, eu e as pessoas que me ficavam próximas, aparecer do lado direito uma forma de mulher, sumamente cara, que me disse uma palavra confusa: tesouro – ao que me pareceu. Ao centro achava-se Eusápia adormecida, ao pé de mim, e por cima a cortina se intumesceu diversas vezes; ao mesmo tempo, à esquerda, a mesa movia-se no gabinete e um pequeno objeto era de lá transportado para a mesa do centro.” “Em Gênova, o Doutor Imoda observou que, enquanto o fantasma tirava da mão do Sr. Becker uma pena e lha restituía, outro fantasma se inclinava sobre Imoda. Outra feita – diz o narrador – ao mesmo tempo em que eu era acariciado por um fantasma, a princesa Ruspoli sentia que uma mão lhe tocava a cabeça e Imoda sentia, a seu turno, que outra mão lhe apertava a sua, com força. Ora, como explicar que a força física de um médium operasse ao mesmo tempo em três direções e com três diferentes objetivos? É possível concentrar a atenção assaz fortemente para obter fenômenos plásticos em três diversas direções?” Algumas vezes árias têm sido executadas em pianos fechados; vozes e cantos se fazem ouvir e, como em Roma, nas experiências do Dr. Sant'Ângelo, penetrantes melodias, que nada têm de terrestres, mergulham os assistentes num enlevo que quase toca ao êxtase. Todos esses fenômenos têm sido obtidos com a presença de médiuns célebres, entre outros, Jessé Stephard e Eusápia Paladino. Agora, algumas explicações sobre a natureza e o verdadeiro papel da mediunidade, nos parecem indispensáveis. * Nossos sentidos, dissemo-lo acima, não nos permitem conhecer mais que restrito setor do Universo. Entretanto, o círculo dos nossos conhecimentos pouco a pouco se ampliou e crescerá ainda, à proporção que se aperfeiçoarem os nossos sentidos. Bastar-nos-ia possuir mais um sentido, uma nova faculdade psíquica, para ver descerrarem-se ante nós alguns domínios ignorados da vida, para ver ostentarem-se ao nosso alcance as maravilhas do mundo invisível. Ora, esses novos sentidos, essas faculdades que no futuro serão propriedade de todos, já o são de certas pessoas, em diferentes graus. São essas pessoas que designamos sob o nome de médiuns.
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(cvii) J. Maxwell Phenomènes Psychiques. pág. 260.
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(cviii) Depois da Morte e No Invisível.
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