Livros Espíritas
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Então o Espírito bom aproximou-se de mim e me disse: É preciso que ele sofra a tentação; é uma prova; se sucumbir, será por sua culpa. O ladrão ia triunfar quando o Espírito mau empregou um artifício abominável, que deu resultado: fez-lhe ver uma garrafa sobre uma mesinha: era aguardente; inspirou-lhe a idéia de beber, para criar coragem. O infeliz está perdido, pensei comigo... procuremos ao menos salvar alguma coisa. Eu não tinha outro recurso, a não ser advertir o patrão... depressa! Num piscar de olhos, eis-me em sua casa. Estava jogando cartas com a esposa; era preciso encontrar um meio de fazê-lo sair. 57. Se ele fosse médium, ter-lhe-ias feito escrever o que quiséssemos. Ele acreditaria pelo menos nos Espíritos? Resp. – Não tinha bastante espírito para saber o que é isso. 58. Eu te ignorava o talento para fazer trocadilhos. Resp. – Se me interrompes não direi mais nada. Provoquei-lhe um violento espirro; ele quis aspirar rapé, mas havia deixado na loja a tabaqueira. Chamou o filho, que dormia num canto, e disse-lhe para ir buscá-la...; não era bem isso que eu desejava; o menino despertou resmungando... Soprei à mãe, que dissesse: Não acorde a criança; tu podes muito bem ir buscá-la. – Finalmente ele se decidiu... e eu o acompanhei, para que fosse mais depressa. Chegando à porta percebeu luz na loja e ouviu um ruído. Ficou tomado de medo; tremiam-lhe as pernas; empurrei-o para que avançasse; se tivesse entrado subitamente pegaria o ladrão como numa armadilha. Em vez disso, o imbecil pôs-se a gritar: Pega o ladrão! O ladrão escapou, mas, em sua precipitação, perturbado também pela aguardente, esqueceu de apanhar o boné. O dono da loja entrou quando já não havia ninguém... O que acontecerá com o boné não é da minha conta... Aquele sujeito está metido em maus lençóis. Graças a mim não houve tempo de consumar-se o furto, do qual livrou-se o comerciante pelo medo. Isso, porém, não o impediu de dizer, ao retornar à sua casa, que havia derrubado um homem de seis pés de altura. – “Veja só – disse ele – como as coisas acontecem! Se eu não tivesse tido a idéia de aspirar rapé!...” – “E se eu não te houvesse impedido de mandar o menino!” – retrucou a mulher. – “É preciso convir que tivemos sorte. Olha o que é o acaso!” Eis, meu amigo, como nos agradecem! 59. És um bravo rapaz, meu caro Pierre, parabéns. Não te desanimes com a ingratidão dos homens; encontrarás muitos outros assim, agora que te comprometes a lhes prestar serviço, até mesmo entre os que crêem na intervenção dos Espíritos. Resp. – Sim, e sei que os ingratos um dia serão pagos com ingratidão. 60. Vejo agora que posso contar contigo e que te tornas verdadeiramente sério. Resp. – Mais tarde verás que serei eu a te ensinar moral. 61. Como qualquer outro, eu o necessito e receberei de bom grado os conselhos, venham de onde vierem. Eu te disse que queria que praticasses uma boa ação; estás disposto? Resp. – Podes duvidar disso? 62. Creio que um de meus amigos está ameaçado de grandes decepções, se continuar seguindo o mau caminho em que se encontra; suas ilusões poderão perdê-lo. Gostaria que tentasses reconduzi-lo ao bom caminho, por meio de algo que o pudesse impressionar vivamente. Compreendes o meu pensamento? Resp. – Sim; gostarias que eu lhe produzisse alguma manifestação agradável, uma aparição, por exemplo; mas isso não depende de mim. Entretanto, posso dar provas sensíveis da minha presença quando isso me for permitido. Bem o sabes. Observação – O médium ao qual este Espírito parece estar ligado é advertido de sua presença por uma impressão muito sensível, mesmo quando não pensa em chamá-lo. Reconhece-o por uma espécie de arrepio que sente nos braços, no dorso e nas espáduas; mas algumas vezes os efeitos são mais enérgicos. Numa reunião que ocorreu em nossa casa, no dia 24 de março passado, este Espírito respondeu às perguntas através de outro médium. Falava-se de sua força física; de repente, como que para dar uma prova, ele agarrou um dos assistentes pela perna e, por meio de um abalo violento, levantou-o da cadeira e o atirou, assombrado, do outro lado da sala. 63. Farás o que quiseres, ou melhor, o que puderes. Aviso-te que ele possui alguma mediunidade. Resp. – Tanto melhor; tenho meu plano. 64. Que esperas fazer? Resp. – Primeiro vou estudar a situação; ver de que Espíritos ele se acha cercado e se há meios de fazer algo com estes. Uma vez em sua casa eu me anunciarei, como fiz na tua. Interpelar-me-ão e responderei: “Sou eu, Pierre Le Flamand, mensageiro espiritual, que venho pôr-me ao vosso serviço e que, ao mesmo tempo, desejaria vos agradecer. Ouvi dizer que acalentais certas esperanças que vos transtornam a cabeça e já vos fazem virar as costas aos amigos; creio de meu dever, em vosso próprio interesse, advertir-vos de quanto vossas idéias estão longe de ser proveitosas à vossa felicidade futura. Palavra de Le Flamand, posso garantir que vos venho visitar imbuído das melhores intenções. Temei a cólera dos Espíritos e, mais ainda, a de Deus, e crede nas palavras de vosso servidor, que garante que a sua missão é inteiramente voltada ao bem.” (sic) Se me expulsarem, voltarei três vezes e depois verei o que terei a fazer. É isso? 65. Muito bem, meu amigo, mas não digas nem mais, nem menos. Resp. – Palavra por palavra. 66. Mas se te perguntarem quem te encarregou dessa missão, o que responderás? Resp. – Que foram os Espíritos Superiores. Para o bem, posso não dizer toda a verdade. 67. Tu te enganas; desde que agimos para o bem, é sempre por inspiração dos Espíritos bons. Assim, tua consciência pode ficar tranqüila, porquanto os Espíritos maus jamais nos impelem a fazer boas coisas. Resp. – Está entendido. 68. Agradeço-te e te felicito pelas tuas boas disposições. Quando queres ser chamado para me dares conta do resultado de tua missão? Resp. – Eu te avisarei. (Continua no próximo número) Música de Além-Túmulo O Espírito Mozart acaba de ditar ao nosso excelente médium, Sr. Bryon-Dorgeval, um fragmento de sonata. Como meio de controle este último o fez ouvir por diversos artistas, sem lhes indicar a fonte, simplesmente perguntando-lhes o que achavam do trecho. Todos reconheceram, sem hesitação, o estilo de Mozart. Foi executado na sessão da Sociedade do dia 8 de abril passado, na presença de numerosos peritos, pela Srta. de Davans, aluna de Chopin e pianista distinta, que houve por bem prestar seu concurso. Como elemento de comparação, a Srta. Davans executou previamente uma sonata que Mozart compusera quando vivo. Todos foram concordes em reconhecer não apenas a perfeita identidade do gênero, mas ainda a superioridade da composição espírita. Em seguida um trecho de Chopin foi executado pela mesma pianista que, novamente, revelou o seu talento habitual. Não poderíamos perder essa ocasião para invocar os dois compositores, com os quais tivemos a seguinte conversa:
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(7) N. do T.: Trata-se da obra O que é o Espiritismo? Vide a Revista Espírita de julho de 1859.
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