Livros Espíritas
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Mui venerada imperatriz, A sorte exterior de cada alma despojada de seu corpo corresponderá ao seu estado interior, isto é, tudo lhe parecerá tal qual é ela mesma. À boa, tudo parecerá no bem; o mal só aparecerá às almas dos maus. Naturezas amantes cercarão a alma amante; a alma odienta atrairá para si naturezas odientas. Cada alma se verá a si própria refletida nos Espíritos que se lhe assemelham. O bom se tornará melhor e será admitido nos círculos compostos de seres que lhe são superiores; o santo se tornará mais santo pela só contemplação dos Espíritos mais puros e mais santos que ele; o Espírito amante tornar-se-á ainda mais amoroso; mas, também, cada ser malvado tornar-se-á pior unicamente por seu contato com outros seres malévolos. Se já na Terra nada é mais contagioso e mais empolgante que a virtude e o vício, o amor e o ódio, do mesmo modo, no além-túmulo, toda perfeição moral e religiosa, bem como todo sentimento imoral e irreligioso, devem necessariamente tornar-se ainda mais empolgantes e mais contagiosos. Vós vos tornareis, mui honrada imperatriz, todo amor nos círculos de almas benevolentes. O que ainda restar em mim de egoísmo, de amor-próprio, de tibieza para o reino e os desígnios de Deus, será inteiramente engolido pelo sentimento de amor, se foi predominante em mim, e se depurará ainda sem cessar, pela presença e o contato dos Espíritos puros e amantes. Depurados pelo poder de nossa aptidão para amar, largamente exercido neste mundo; purificados ainda mais pelo contato e a irradiação, sobre nós, do amor dos Espíritos puros e elevados, seremos gradualmente preparados para a visão direta do mais perfeito amor, para que não nos deslumbremos, não nos amedrontemos e nem sejamos impedidos de o gozar com delícias. Mas como, venerada imperatriz, um frágil mortal poderia, ousaria fazer uma idéia da contemplação desse amor personificado? E tu, caridade inesgotável! como poderias aproximar-te daquele que bebe em ti só o amor, sem o amedrontar e o deslumbrar? Penso que no começo aparecerá invisivelmente ou sob uma forma irreconhecível. Não agiu ele sempre desta maneira? Quem amou mais invisivelmente do que Jesus? Quem, melhor que ele, sabia representar a individualidade incompreensível do desconhecido? Quem, melhor que ele, soube tornar-se irreconhecível, ele que podia fazer-se conhecer melhor que nenhum mortal ou qualquer Espírito imortal? Ele, que todos os céus adoram, veio sob a forma de um modesto operário e conservou até a morte a individualidade de um nazareno. Mesmo depois de sua ressurreição, primeiro apareceu sob uma forma irreconhecível e só depois se fez reconhecer. Penso que conservará sempre esse modo de ação, tão análogo à sua natureza, à sua sabedoria e ao seu amor. É sob a forma de um jardineiro que aparece a Maria no jardim onde ela o procurava e onde já não tinha esperança de o encontrar. Primeiro irreconhecível, só foi reconhecido alguns instantes depois. Foi também sob uma forma irreconhecível que se aproximou de dois de seus discípulos, que marchavam cheios dele e o aspiravam. Caminhou muito tempo ao lado deles; seus corações queimavam numa chama santa; sentiam a presença de algum ser puro e elevado, mas de outro ser, e não ele; só o reconheceram no momento de partir o pão, no momento de seu desaparecimento e quando, ainda na mesma noite, o viram em Jerusalém. A mesma coisa sucedeu às margens do lago de Tiberíades, e quando, radiante em sua glória deslumbrante, apareceu a Saulo. Como todas as ações de Nosso Senhor, todas as suas palavras e todas as suas revelações são sublimes e dramáticas! Tudo segue uma marcha incessante que, impelindo sempre para frente, se aproxima cada vez mais de um objetivo que, no entanto, não é o objetivo final. O Cristo é o herói, o centro, a personagem principal, ora visível, ora invisível, nesse grande drama de Deus, tão admiravelmente simples e complicado ao mesmo tempo, que jamais terá fim, embora tendo parecido mil vezes acabado. Ele aparece sempre, a princípio irreconhecível, na existência de cada um de seus adoradores. Como o amor poderia recusar-se a aparecer ao ser que o ama, no momento exato em que este mais precisa dele? Sim, tu, o mais humano dos homens, aparecerás aos homens da maneira mais humana! Aparecerás à alma amante a quem escrevo! Tu me aparecerás também, a princípio irreconhecível e depois tu te farás reconhecer por nós. Nós te veremos uma infinidade de vezes, sempre outro e sempre o mesmo, sempre mais belo, à medida que nossa alma se melhorar e jamais pela última vez. Elevemo-nos mais vezes para esta idéia inebriante que, com a permissão de Deus, tentarei esclarecer mais amplamente em minha próxima carta, e de vos tornar mais comovente, por uma comunicação dada por um defunto. Lavater o 1 de setembro de 1798
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