Livros Espíritas
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Conan Doyle, escritor, médico e espírita convicto, achava que o vidente carrega consigo certa atmosfera ectoplásmica, que emana de seu próprio corpo e sobre a qual o espírito imprime sua imagem. Algo parecido com isso lemos, ainda há pouco, em O livro dos médiuns, quando ficou dito que se combinam fluidos do médium e do espírito para que a manifestação se produza. O mesmo conceito, expresso de maneira diversa, está em André Luiz que, conforme vimos, informa que os espíritos atuam "sobre os raios mentais do medianeiro" a fim de transmitir-lhe quadros e imagens. Interessante me parece reproduzir aqui uma observação do dr. Daniel Frost Comstock, professor do famoso MIT, nos Estados Unidos, segundo o qual uma senhora de seu conhecimento, por ele testada, era dotada de excepcional faixa de visão orgânica, que ia muito além dos limites habituais, no extremo violeta do espectro, a partir do ponto onde a vibração luminosa não produz nenhum estímulo na retina normal. Segundo o dr. Comstock, essa senhora "tinha, de fato, uma visão ultravioleta", em grau que jamais esse perquisador ouvira falar. 7. CONCLUSÕES As referências, especulações e casos que tivemos oportunidade de examinar nas páginas precedentes nos levam a algumas conclusões a que me proponho expor a seguir. Ressalta, entre as primeiras conclusões, a inadequabilidade da palavra clarividência para caracterizar a maioria dos fenômenos que usualmente estão classificados como tal. Em alguns deles - monição, premonição, radiestesia e telepatia, para usarmos a classificação proposta por Richet - nada ocorre que se pareça com visão ou vidência, muito menos visão clara. Embora sem nenhuma precisão científica, o termo clarividência só poderia ser utilizado para caracterizar os fenômenos de visão à distância no espaço bem como os relacionados com deslocamentos ao longo do tempo (passado e futuro). A segunda é que o fenômeno de clarividência não ocorre, em princípio por si mesmo, sendo antes uma espécie de subproduto de outro importante fenômeno anímico, que é o do desdobramento perispiritual. A terceira conclusão é que a clarividência deve ser entendida como fenômeno anímico, ou seja, uma atividade do espírito encarnado e não faculdade medianímica. A segunda destas proposições talvez precise de algumas ilustrações: uma boa compreensão do que pretendo dizer. quando proponho o condicionamento da clarividência ao desdobramento espiritual. No caso da sra. Thompson/mr. Piddington, colhido em Nandor Fodor, a sensitiva declara na sua narrativa que esteve consciente o tempo todo, mas de isto não quer dizer que estivesse ligada ao corpo físico, encaixada nele sem se desdobrar. Como vimos em alguns exemplos supridos por Regina, o próprio sensitivo não percebe, às vezes, que já está desdobrado. É certo que está consciente, não há dúvida, porém do lado de fora do corpo. Vimos também em Regina experiências (confirmadas por de Rochas) nas quais a consciência fica, às vezes, no corpo (creio que enquanto é curto o espaço físico que separa o corpo material do corpo espiritual), podendo também manter-se, ao mesmo tempo, num e noutro corpo e, afinal, emigrar para o corpo espiritual. Suponho que, mesmo quando a consciência ainda esteja no corpo físico, o perispírito pode já estar desdobrado, a curta distância. Ou, em caso de encontrar-se a distância maior, consegue telecomandar o cérebro físico, a ponto de fazer passar por ele os pensamentos que elabora com a mente. Como temos visto, repetidamente, o pensamento não é uma criação do cérebro, ele apenas circula por ali. A fonte geradora do pensamento é o espírito. Em experiências memoráveis de Albert de Rochas, observamos que, num segundo desdobramento a partir do perispírito já desdobrado, o espírito pensante coloca-se em situação de contemplar o corpo físico em repouso; o perispírito, transformado pela ideoplastia de regressão à condição e ao aspecto etário próprio e o espírito, como pequena chama luminosa de forma amendoada. Em outras palavras: se um sensitivo de quarenta anos de idade é levado pela regressão à fase infantil, o seu corpo físico continua o mesmo, apenas em repouso; o perispírito assume a forma infantil e o espírito pode desprender-se, deixando o perispírito como que de 'luz apagada', ou seja, mais obscuro. É possível observar-se, então, que o pensamento não é elaborado nem no corpo físico, nem no perispírito e, sim, na pequena e luminosa chama espiritual que seria, provavelmente, o corpo mental de que nos fala André luiz. A sra. Thompson não apenas viu o espírito desdobrado de Piddington como conversou com ele. Tenho minhas dúvidas de que isto pudesse ser realizado sem um desdobramento do seu perispírito. Estamos cansados de saber, pela constante reiteração encontrada em vários estudiosos do assunto, desde Kardec, que a visão do sensitivo em tais fenômenos ou a sua audição, olfato e até paladar, nada têm a ver com os sentidos físicos uma vez que o estímulo vai direto ao centro cerebral correspondente. Não duvido de que isto possa ser realizado por certos espíritos sem a necessidade de desdobrar o sensitivo, Mas entendo que o caminho mais curto e mais fácil consiste em atuar através do perispírito do sensitivo, mesmo porque, segundo nos informaram os instrutores da codificação, há, nesse momento, um intercâmbio energético entre manifestante (seja ele encarnado ou desencarnado) e sensitivo, seja o fenômeno anímico ou mediúnico. Noto certa preocupação nos sensitivos que descrevem tais fenômenos em assegurar ao leitor que estavam, no momento, perfeitamente lücidos e conscientes. Disso sabemos todos, tanto é que têm condições de relatar posteriormente o ocorrido com riqueza de detalhes. O que pretendo colocar aqui é o fato de que estavam lúcidos e conscientes, sim, mas também desdobrados. Não é difícil explicar isso, pois ocorre com todos nós. É comum passarmos da vigília ou dos estados crepusculares de sono à inconsciência (no corpo físico), permanecermos largo tempo neste estado e, subitamente, desspertarmos sem a mínima idéia do tempo intercorrente, convictos de que não 'adormecemos'. Tive a oportunidade de observar isto inúmeras vezes nas experiências de magnetização que realizava quando das pesquisas em torno da memória. Era comum o sensitivo despertar (ou seja, retomar seus controles conscientes no corpo físico), após haver conversado, em transe, por mais de uma hora, sem a menor noção de que estivera a falar coerentemente Alguns diziam, ao despertar: - É, acho que hoje você não vai conseguir nada, pois não consigo 'dormir'. 8. VIGÍLIA E ESTADO DE CONSCIÊNCIA Experiências semelhantes costumamos ter praticamente todas as manhãs frias e convidativas a um bom sono adicional antes de enfrentar o trabalho do dia. Olhamos para o relógio e resolvemos 'arriscar' mais cinco ou dez minutos de sono. Acordamos sobressaltados, meia hora depois, surpresos ante o tempo decorrido e ainda convencidos de que nos mantivemos conscientes o tempo todo. Por isso, até mesmo os casos relacionados por Delanne, em suas Recherches, sob o título de La clairvoyance à l'état de veille (A clarividência em estado de vigília) me convencem como fenômenos de clarividência, mas não em vigília. Vejamos um dos seus exemplos: o famoso e muito citado caso de Swedenborg, que, de Goteburg, viu o incêndio que lavrava na rua em que ele morava em Estocolmo. Basta prestar atenção à confiável narrativa de Kant para ver que nas duas vezes em que o sensitivo 'viu' o incêndio, à distância, ele se retirou do salão onde estavam os outros convidados (eram quinze). Escreve Kant: Às seis horas o Sr. Swedenborg, que se havia retirado, reentrou no salão, pálido e consternado, e disse que naquele exato momento iniciava-se um incendio em Estocolmo. Às oito horas, após nova saída (do salão), disse com alegria: - Graças a Deus, o incêndio foi extinto, à terceira porta que precede à minha. (Delanne. Gabriel, 1902 ). Duas vezes, portanto, o sensitivo se retirou para um cômodo onde podia deixar o corpo em repouso e ir, em espírito, a Estocolmo, observar o incêndio que ameaçava a sua casa. Em outro livro de Delanne - Les apparittions materialisées des vivants et des morts - podemos colher novo exemplo classificado pelo autor como de clarividência em estado de vigília, no qual também encontramos veementes indícios de que a sensitiva mergulhou no sono por alguns momentos - o sufiente - desdobrou-se e viu um pequeno acidente com um amigo, à distância. Trata-se de uma senhora inglesa que nada tinha de visionária sendo ao, contrário, um espírito muito positivo e até desinteressada de tais fenômenos. Pediu mesmo que não lhe revelassem o nome porque temia a chacota dos seus amigos pessoais que 'não tinham por essas questões simpatia, nem grande respeito'. Ia a referida senhora, de Londres a Southampton, em viagem de trem. Recebera, pela manhã, carta de um amigo comunicando-lhe que iria à caça naquele mesmo dia e que lhe escreveria no dia seguinte, de sorte que ela, ao regressar de Southampton, encontraria carta dele à sua espera. E prossegue: No trem, sentindo-me fatigada, deixei cair o livro e fechei os olhos. Eis a cena que logo se apresentou diante de mim: era um campo de caça e dois homens a cavalo se preparavam para saltar um pequeno muro de pedra. O cavalo do meu amigo atirou -se, mas não conseguiu saltar o muro e caiu de cabeça no chão, projetando o cavaleiro ao chão. Em seguida, toda a cena desapareceu. Eu estive perfeitamente acordada durante todo o tempo. Meu amigo era um bom cavaleiro e não tinha razão alguma para imaginar que um acidente daqueles pudesse acontecer com ele. (Delanne, Gabriel, 1909) Pois bem, o acidente ocorreu exatamente como a senhora tinha visto, o que, aliás, ficou documentado na carta dele, a prometida carta, na qual ele dizia que havia levado um tombo do cavalo ao tentar saltar um pequeno muro de pedra. Até o detalhe: o cavalo havia tombado de cabeça para baixo, exatamente como sua amiga vira.
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