Livros Espíritas
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Por mais que digam e façam, as idéias espíritas estão no ar. Transparecem de mil maneiras, sob a forma de romances ou de pensamentos filosóficos, e a imprensa as acolhe contanto que a palavra Espiritismo não seja pronunciada. Impossível citar todos os pensamentos que ela registra diariamente, assim fazendo Espiritismo sem saber. Que importa o nome, se a coisa está aí? Um dia esses senhores ficarão muito admirados de ter feito Espiritismo, como o Sr. Jourdain ficou por ter falado em prosa. Muita gente caminhava ao lado do Espiritismo sem o suspeitar; estão na fronteira, quando se julgam bem longe. Com exceção dos materialistas puros, que certamente são minoria, pode-se dizer que as idéias da filosofia espírita correm o mundo. O que muitos ainda repelem são as manifestações mediúnicas, uns por sistema, outros porque, tendo observado mal, sofreram decepções; mas como as manifestações são fatos, mais cedo ou mais tarde terão de os aceitar. Recusam-se a ser espíritas unicamente pela falsa idéia que ligam a esse nome. Que os que aí não chegam pela porta principal, a ela cheguem pela secundária, o resultado é o mesmo; hoje o impulso está dado e o movimento não poderia ser detido. Por outro lado, como é anunciado, produz-se uma imensidão de fenômenos, que parecem afastar-se das leis conhecidas e confundem a Ciência, na qual em vão buscam a sua explicação; passá-los em silêncio, quando têm certa notoriedade, seria difícil. Ora, esses fenômenos, que se apresentam sob os mais variados aspectos, graças à sua multiplicação acabam despertando a atenção e, pouco a pouco, familiarizam com a idéia de uma força espiritual, fora das forças materiais. É sempre um meio de chegar ao fim; os Espíritos batem de todos os lados e de mil maneiras diferentes, de sorte que os golpes sempre alcançam uns ou outros. Entre os pensamentos espíritas encontrados em diversos jornais, citaremos os seguintes: No discurso pronunciado em 11 de novembro último pelo Sr. d’Eichthal, um dos redatores do Temps, junto ao túmulo do Sr. Charles Duveyrier, assim se exprime o orador: “Duveyrier morreu em profunda calma, cheio de confiança em Deus, de fé na eternidade da vida, orgulhoso de seus longos anos consagrados à elaboração e ao desenvolvimento de uma crença que deve resgatar todos os homens da miséria, da desordem e da ignorância, certo de haver pago a sua dívida, de ter dado à geração que o segue mais do que tinha recebido da que o precedeu. Parou como um valente operário, acabada a tarefa, deixando a outros o encargo de a continuar. “Se seus restos mortais não atravessaram os templos consagrados para chegar ao campo de repouso, não foi por um injusto desdém contra as crenças imortais, mas é que nenhuma das fórmulas que tivessem pronunciado sobre seus despojos teriam dado a idéia que ele fazia da vida futura. Duveyrier não desejava, não acreditava ir para o céu, gozar eternamente de uma beatitude pessoal, enquanto a maioria dos homens ficaria condenada a sofrimentos sem esperança. Cheio de Deus e vivendo em Deus, mas ligado à Humanidade, é no seio da Humanidade que ele esperava reviver para concorrer eternamente a essa obra de progresso que a aproxima incessantemente do ideal divino.” (Jornal Temps, 14 de novembro de 1866). O Sr. Duveyrier tinha feito parte da seita são-simonista. É a crença referida acima, a cujo desenvolvimento ele tinha consagrado vários anos de sua vida; mas suas idéias sobre o futuro da alma, como se vê, se aproximavam muito das que ensina a Doutrina Espírita. Contudo, não se deve inferir destas palavras: “É no seio da Humanidade que ele esperava reviver” que acreditasse na reencarnação. Sobre este ponto ele não tinha qualquer idéia definitiva; entendia por isto que a alma, em vez de se perder no infinito, ou de ser absorvida numa beatitude inútil, ficava na esfera da Humanidade, a cujo progresso concorria por sua influência. Mas esta idéia é exatamente a que também ensina o Espiritismo; é a do mundo invisível que nos cerca; as almas vivem em meio a nós, como vivemos em meio a elas. O Sr. Duveyrier era, pois, ao contrário da maioria de seus confrades da imprensa, não só profundamente espiritualista, mas setenta e cinco por cento espírita. Que lhe faltava para o ser completamente? Provavelmente ter sabido o que é o Espiritismo, porquanto lhe possuía as bases fundamentais: a crença em Deus, na individualidade da alma, sua sobrevivência e sua imortalidade; em sua presença no meio dos homens após a morte, e sua ação sobre eles. Que diz a mais o Espiritismo? Que essas mesmas almas revelam sua presença por uma ação direta, e que estamos incessantemente em comunhão com elas. Vem provar pelos fatos o que no Sr. Duveyrier e em muitos outros não estava senão no estado de tória e de hipótese. Concebe-se que os que só acreditam na matéria tangível repilam tudo, mas o que mais surpreende é ver espiritualistas rejeitando a prova do que constitui o fundo de sua crença. Aquele que assim expunha os pensamentos do Sr. Duveyrier sobre o futuro da alma, o Sr. d’Eichthal, seu amigo e correligionário em são-simonismo, que, provavelmente, partilhava até certo ponto de suas opiniões, não é menos um adversário declarado do Espiritismo; por pouco ele não suspeitava que o que dizia em louvor ao Sr. Duveyrier era muito simplesmente uma profissão de fé espírita. As palavras seguintes, do Sr. Louis Jourdan, do Siècle, a seu filho, foram reproduzidas pelo Petit Journal de 3 de setembro de 1866. “Eu te sinto vivo, de uma vida superior à minha, meu Prosper; e quando soar a minha última hora, eu me consolarei em deixar os que amamos juntos, pensando que vou te encontrar e nos unirmos. Sei que esta consolação não me virá sem esforços; sei que será preciso conquistá-la trabalhando corajosamente por meu próprio melhoramento, como no dos outros; farei pelo menos tudo quanto estiver em meu poder para merecer a recompensa que ambiciono: reencontrar-te. Tua lembrança é o farol que nos guia e o ponto de apoio que nos sustenta através das trevas que nos envolvem. Percebemos um ponto luminoso, para o qual marchamos resolutamente; esse ponto é aquele onde vives, meu filho, junto a todos aqueles que amei na Terra e que partiram antes de mim para a sua vida nova.” Que de mais profundamente espírita do que estas doces e tocantes palavras! O Sr. Louis Jourdan está ainda mais perto do Espiritismo que o Sr. Duveyrier, porque há muito tempo crê na pluralidade das existências terrestres, como se pôde ver pela citação que fizemos na Revista de dezembro de 1862. Ele aceita a filosofia espírita, mas não o fato das manifestações, que não repele absolutamente, mas sobre o qual não está suficientemente esclarecido. É, contudo, um fenômeno bastante grave, quanto às suas conseqüências, pois só ele pode explicar tantas coisas incompreensíveis, que se passam aos nossos olhos, para merecer ser aprofundado por um observador como ele. Porque se as relações entre o mundo visível e o mundo invisível existem, é toda uma revolução nas idéias, nas crenças, na filosofia; é a luz atirada sobre uma porção de questões obscuras; é o aniquilamento do materialismo; é, enfim, a sanção de suas mais caras esperanças em relação ao seu filho. Que elementos os homens que se fazem campeões das idéias progressistas e emancipadoras colheriam na Doutrina se soubessem tudo quanto ela encerra para o futuro! Não é duvidoso que surjam alguns, que compreenderão o poder desta alavanca e saberão tirar-lhe proveito. O Événement de 4 de novembro último relatava a seguinte anedota, concernente ao célebre compositor Glück. Quando da primeira representação da Ifigênia, a 19 de abril de 1774, a que assistiam Luís XVI e a rainha Maria Antonieta, esta quis coroar pessoalmente seu antigo professor de música. Depois da representação, chamado ao camarote do rei, Glück ficou de tal modo comovido que não pôde proferir uma palavra e apenas teve forças para agradecer à rainha com o olhar. Percebendo que Maria Antonieta usava naquela noite um colar de rubi, Glück se reergueu: Grande Deus! exclamou ele, salvai a rainha! salvai a rainha! sangue! sangue! – Onde? bradaram de todos os lados. – Sangue! sangue! no pescoço! gritou o músico. – Maria Antonieta estava trêmula. Depressa, um médico, disse ela, meu pobre Glück está louco. – O músico tinha caído numa poltrona. Sangue! sangue! murmurou ele... Salvai a arquiduquesa Maria... salvai a rainha! – O infeliz maestro toma o vosso colar por sangue, disse o rei a Maria Antonieta; ele tem febre. – A rainha levou a mão ao pescoço, arrancou o colar e, tomada de pavor, atirou-o longe. Levaram Glück desacordado. O autor do artigo termina assim: Eis, caro leitor, a história que me contou na ópera o músico alemão, e que reli no dia seguinte, numa biografia do imortal autor de Alceste. É verdadeira? É fantasia? Ignoro-o. Mas não seria possível que homens de gênio, cujo espírito elevado paira acima da Humanidade, tivessem, em certas horas de inspiração, essa faculdade misteriosa que se chama segunda vista? (Albert Wolff).
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