Livros Espíritas
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Atraídos por aquela confissão, Barnabé e Joã o puseram-se também a ouvilo atentamente. — Mas, curvando-me à providência — continuou com inexcedível franqueza —, não posso deixar de reco nhecer no fato uma das mais altas demonstrações de fingimento. Concordarei naquilo que não aceito de modo algum. Quase me arrependo de ter assumido compro missos com os nossos amigos de Antioquia; não supunha que a política abominável das sinagogas houvesse invadido totalmente a igreja de Jerusalém. O filho de Zebedeu fixou no convertido de Damasco os olhos muito lúc idos, ao passo que Simão respondia serenamente: — A situação é, de fato, muito delicada. Principal mente depois do sacrifício de alguns companheiros mais amados e prestimosos, as dificuldades religiosas em Jerusalém multiplicam-se todos os dias. E vagueando o olhar pelo aposento, como se qui sesse traduzir fielmente o seu pensamento. continuou: — Quando se agravou a situação, cogitei da possi bilidade de me transferir para outra comunidade; em seguida, pensei em aceitar a luta e reagir; mas, uma noite, tão bela como esta, orava eu neste quarto, quando percebi a presença de alguém que se aproximava devagarinho. Eu estava de joelhos quando a porta se abriu com imensa surpresa para mim. Era o Mestre! Seu rosto era o mesmo dos formosos dias de Tiberíades. Fitou-me grave e terno, e falou: — “Pedro, atende aos “filhos do Calvário”, antes de pensar nos teus caprichos!” A maravilhosa visão durou um minuto, mas, logo após, pus-me a recordar os velhinhos, os necessitados, os igno rantes e doentes que nos batem à porta . O Senhor recomendava-me atenção para os portadores da cruz. Desde então, não desejei mais que servi -los. O Apóstolo tinha os olhos úmidos e Paulo sentia -se bastante impressionado, pois lembrava que ouvira a ex pressão “filhos do Calvário” dos lábios espirituais de Abigail, quando da sua gloriosa visão, no silêncio da noite, ao aproximar-se de Tarso. — Com efeito, grande é a luta — concordou o convertido de Damasco, parecendo mais tranqüilo. E mostrando-se convicto da necessidade de exami nar o realismo da vida comum, não obstante a beleza das prodigiosas manifestações do plano invisível, voltou a dizer: — Entretanto, precisamos encontrar um meio de libertar as verdades evangélicas do convencionalismo hu mano. Qual a razão principal da preponderância farisaica na igreja de Jerusalém? Simão Pedro esclareceu sem rebuços: — As maiores dificuldades giram em torno da ques tão monetária. Esta casa alimenta mais de cem pessoas, diariamente, além dos serviços de assistência aos enfermos, aos órfãos e aos desampar ados. Para a manutenção dos trabalhos são indispensáveis muita coragem e muita fé, porque as dívidas contraídas com os socorredo res da cidade são inevitáveis. — Mas os doentes — interrogou Paulo, atencioso — não trabalham depois de melhorados? — Sim — explicou o Apóstolo —, organizei serviços de plantação para os restabelecidos e impossibilitados de se ausentarem logo de Jerusalém. Com isso, a casa não tem necessidade de comprar hortaliças e frutas. Quanto aos melhorados, vão tomando o encargo de e nfermeiros dos mais desfavorecidos da saúde. Essa providência permitiu a dispensa de dois homens remunerados, que nos auxiliavam na assistência aos loucos incuráveis ou de cura mais difícil. Como vês, estes detalhes não foram esquecidos e mesmo assim a igr eja está onerada de despesa e dívidas que só a cooperação do judaísmo pode atenuar ou desfazer. Paulo compreendeu que Pedro tinha razão. No en tanto, ansioso de proporcionar independência aos esfor ços dos irmãos de ideal, considerou: — Advirto, então, que precisamos instalar aqui ele mentos de serviço que habilitem a casa a viver de re cursos próprios. Os órfãos, os velhos e os homens aproveitáveis poderão encontrar atividades além dos trabalhos agrícolas e produzir alguma coisa para a renda indispen sável. Cada qual trabalharia de conformidade com as próprias forças, sob a direção dos irmãos mais experimentados. A produção do serviço garantiria a manuten ção geral. Como sabemos, onde há trabalho há riqueza, e onde há cooperação há paz. É o único recurso p ara emancipar a igreja de Jerusalém das imposições do farisaísmo, cujas artimanhas conheço desde o princípio de minha vida. Pedro e João estavam maravilhados. A idéia de Paulo era excelente. Vinha ao encontro de suas preocupa ções ansiosas, pelas dificuld ades que pareciam não ter fim. — O projeto é extraordinário — disse Pedro — e viria resolver grandes problemas de nossa vida. O filho de Zebedeu, que tinha os olhos radiantes de júbilo, atacou, por sua vez, o assunto, objetando: — Mas, o dinheiro? Onde enc ontrar os fundos indispensáveis ao grandioso empreendimento?... O ex-rabino entrou em profunda meditação e escla receu: — O Mestre auxiliará nossos bons propósitos. Bar nabé e eu empreendemos longa excursão a serviço do Evangelho e vivemos, em todo o seu transcurso, a expensas do nosso trabalho. Eu tecelão, ele oleiro, em atividade provisória nos lugares onde passamos. Realizada a primeira experiência, poderíamos voltar agora às mesmas regiões e visitar outras, pedindo recursos para a igreja de Jerusalém. Provaríamos nosso desinteresse pessoal, vivendo à custa de nosso esforço e recolheríamos as dádivas por toda parte, conscientes de que, se temos traba lhado pelo Cristo, será justo também pedirmos por amor ao Cristo. A coleta viria estabelecer a liberdad e do Evangelho em Jerusalém, porque representaria o material indispensável a edificações definitivas no plano do trabalho remunerador. Estava esboçado, assim, o programa a que o gene roso Apóstolo da gentilidade haveria de submeter -se pelo resto de seus di as. No seu desempenho teria de sofrer as mais cruéis acusações; mas, no santuário do seu coração devotado e sincero, Paulo, de par com os grandiosos ser viços apostólicos, levaria a coleta em favor de Jerusa lém, até ao fim da sua existência terrestre. Ouvindo-lhe os planos, Simão levantou -se e abraçou-o, dizendo comovido: — Sim, meu amigo, não foi em vão que Jesus te buscou pessoalmente às portas de Damasco. Fato pouco vulgar na sua vida, Paulo tinha os olhos rasos de pranto. Fitou o ex-pescador de modo significativo, considerando íntimamente suas dívidas de gratidão ao Salvador, e murmurou: — Não farei mais que o meu dever. Nunca poderei olvidar que Estevão saiu dos catres desta casa, os quais já serviram igualmente a mim próprio. Todos estavam extremam ente sensibilizados. Bar nabé comentou a idéia com entusiasmo e enriqueceu o plano de numerosos pormenores. Nessa noite, os dedicados discípulos do Cristo so nharam com a independência do Evangelho em Jerusa lém; com a emancipação da igreja, isenta das absurdas imposições da sinagoga. No dia imediato procedeu -se solenemente à circun cisão de Tito, sob a direção cuidadosa de Tiago e com a profunda repugnância de Paulo de Tarso. As assembléias noturnas continuaram por mais de uma semana. Nas primeiras noites, preparando terreno para advogar abertamente a causa da gentilidade, o ex-pescador de Cafarnaum solicitou aos representantes de Antioquia expusessem a impressão das visitas aos pagãos de Chipre, Panfília, Pisídia e Licaônia. Paulo, fundamente contrariado c om as exigências aplicadas a Tito, pediu a Barnabé falasse em seu nome. O ex-levita de Chipre fez extenso relato de todos os acontecimentos, provocando imensa surpresa a quan tos lhe ouviam as referências ao extraordinário poder do Evangelho, entre aqueles que ainda não haviam esposado uma crença pura. Em seguida, atendendo ainda a observações de Paulo, Tito falou, profundamente como vido com a interpretação dos ensinamentos do Cristo e mostrando possuir formosos dons de profecia, fazendo-se admirar pelo próprio Tiago, que o abraçou mais de uma vez. Ao termo dos trabalhos, discutia -se ainda a obrigatoriedade da circuncisão para os gentios. O ex-rabino seguia os debates, silencioso, admirando o poder de resistência e tolerância de Simão Pedro. Quando o ex-pescador reconheceu que as divergên cias prosseguiriam indefinidamente, levantou -se e pediu a palavra, fazendo a generosa e sábia exortação de que os Atos dos Apóstolos (capítulo 15º, versículos 7 e 11) fornecem notícia: — Irmãos — começou Pedro, enérgico e sereno —, bem sabeis que, de há muito, Deus nos elegeu para que os gentios ouvissem as verdades do Evangelho e cressem no seu Reino. O Pai, que conhece os corações, deu aos circuncisos e aos incircuncisos a palavra do Espírito Santo. No dia glorioso do Pe ntecostes as vozes falaram na praça pública de Jerusalém, para os filhos de Israel e dos pagãos. O Todo Poderoso determinou que as verdades fossem anunciadas indistintamente. Jesus afirmou que os cooperadores do Reino chegariam do Oriente e do Ocidente. Não compreendo tantas contro vérsias, quando a situação é tão clara aos nossos olhos. O Mestre exemplificou a necessidade de harmonização constante: palestrava com os doutores do Templo; fre qüentava a casa dos publicanos; tinha expressão de bom ânimo para t odos os que se baldavam de esperança; aceitou o derradeiro suplício entre os ladrões. Por que motivo devemos guardar uma pretensão de isolamento daqueles que experimentam a necessidade maior? Outro argumento que não deveremos esquecer é o da chegada do Evangelho ao mundo, quando já possuíamos a Lei. Se o Mestre no -lo trouxe, amorosamente, com os mais pesados sacrifícios, seria justo enclausurarmo nos nas tradições convencionais, esquecendo o campo de trabalho? Não mandou o Cristo que pregássemos a Boa Nova a todas as nações? Claro que não poderemos desprezar o patrimônio dos israelitas. Temos de amar nos filhos da Lei, que somos nós, a expressão de profundos sofrimentos e de elevadas experiências que nos chegam ao coração através de quantos precederam o Cristo, na tarefa milenária de preservar a fé no Deus único; mas esse reconhecimento deve inclinar nossa alma para o esforço na redenção de todas as criaturas.
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