Livros Espíritas
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Enquanto Barnabé manifestava profunda surpresa, em face da desassombrada atitude do companheiro, o político aguçava a curiosidade. — Não é a primeira vez que experimentais uma gra ve enfermidade. Há quase dez anos, ao tentardes os primeiros passos na vida pública, embarcastes no porto de Cefalônia em demanda desta ilha. Viajáveis para Citium, mas, antes que o navio aportasse em Corinto, fostes acometido de febre terrível, o corpo ab erto em feridas venenosas... Brancura de cera estampava -se no semblante do chefe de Nea -Pafos. Colocando a mão no peito, como a conter as pulsações aceleradas do coração, ergueu-Se extremamente perturbado. — Como sabeis tudo isso? — murmurou aterrado. — Não é só — disse o missionário, sereno —, esperai o resto. Vários dias permanecestes entre a vida e a morte. Debalde os médicos de bordo comentaram vossa enfermidade. Vossos amigos fugiram. Quando fi castes de todo abandonado, não obstante o prestígio polít ico do vosso cargo, o Messias Nazareno vos mandou alguém, no silêncio de sua misericórdia divina. O Procônsul, com o despertar das velhas reminis cências, sentia-se profundamente comovido. — Quem teria sido o mensageiro do Salvador? —prosseguia Saulo, enquanto Barnabé o contemplava com inaudito assombro. — Um de vossos íntimos? Um amigo eminente? Um dos colegas ilustres que presenciavam vossas dores? Não! Apenas um escravo humilde, um serviçal anônimo dos remos homicidas. Jeziel velou por vós, dia e noite! E o que a Ciência do mundo não conseguiu fazer, fê-lo o coração empossado pelo amor do Cristo! Compreendeis agora? Vosso amigo Barjesus fala de um carpinteiro sem nomes de um Messias que preferiu a condição da humildade suprema para nos trazer as torrentes preciosas de suas graças!... Sim, Jesus também, como aquele escravo que vos restabeleceu a saúde perdida, fez-se servo do homem para conduzi -lo a uma vida melhor!... Quando todos nos abandonam, Ele está conosco; quando os amigos fogem, sua bondade mais se aproxima. Para forrarmo -nos das míseras contingén cias desta vida mortal, é preciso crer nele e segui -lo sem descanso!... Ante as lágrimas convulsivas do Procônsul, Barnabé, aturdido, considerava: Onde fora o companheiro colher tão profundas revelações ? A seu ver, naquele instante, Saulo de Tarso estaria iluminado pelo dom maravilhoso das profecias. — Senhores, tudo isso é a verdade pura! Trouxes tes-me a santa notícia de um Salvador!... — exclamou Sérgio Paulo. Reconhecendo a capitulação do generoso pa trício que lhe recheava a bolsa de fartos recursos, o mago israelita, apesar de muito surpreso, exclamou com energia: — Mentira!... São mentirosos! Tudo isso é obra de Satanás! Estes homens são portadores de sortilégios infames do “Caminho”! Abaixo a explo ração vil!... A boca lhe espumava, os olhos rebrilhavam de có lera. Saulo mantinha-se calmo, impassível, quase sorri dente. Depois, timbrando forte: — Acalmai-vos, amigo! A fúria não é amiga da verdade e quase sempre esconde inconfessáveis interes ses. Acusai-nos de mentirosos, mas nossas palavras não se desviaram uma linha da realidade dos acontecimen tos. Alegais que nosso esforço procede de Satanás, no entanto, onde já se viu maior incoerência? Onde en contraríamos um adversário trabalhando contra si mesmo? Afirmais que somos portadores de sortilégios; se o amor constitui esse talismã, nós o trazemos no coração, ansiosos por comunicar a todos os seres sua benéfica influência. Finalmente, lançais a nós outros a pecha de exploradores sagazes, quando aqui vi emos chamados por alguém que nos honrou com sinceridade e confiança e, de modo algum, poderíamos oferecer as graças do Salvador a título mercatório. Seguiu-se acalorada discussão: Barjesus fazia em penho em demonstrar a inferioridade dos intuitos de Saulo , enquanto este se esforçava em timbrar nobreza e e cordialidade. Embalde o Procônsul tentava dissuadir o judeu de continuar na requesta e naquele diapasão. Barnabé, por sua vez, confiando muito mais nos poderes espirituais do amigo, acompanhava o discrime sem ocultar admiração pelos infinitos recursos que o missionário tarsense estava revelando. A polêmica já durava mais de hora, quando o mago fez uma alusão mais ferina à personalidade e feitos de Jesus -Cristo. Em atitude mais enérgica, o Apóstolo sentenc iou: — Tudo fiz por convencer -vos sem demonstrações mais diretas, de maneira a não ferir a parte respeitável de vossas convicções; todavia, estais cego e é nessa condição que podereis enxergar a luz. Como vós, também já vivi em trevas e, no instante do me u encontro pessoal com o Messias, foi necessário que as trevas se aden sassem em meu espírito, a fim de que a luz ressurgisse mais brilhante. Tereis igualmente esse benefício. A visão do corpo fechar-se-vos-á, para que possais divisar a ver dade em espírito!. Nesse comenos, Barjesus deu um grito. — Estou cego! Estabeleceu-se alguma confusão no recinto. Barnabé adiantou -se, amparando o israelita que tateava aflito. O tecelão e o governador aproximaram-se surpreendidos. Foram chamados alguns servos que atenderam as necessidades do momento, carinhosos e solícitos. Por quatro longas horas, Barjesus chorou, mergulhado na sombra espessa que lhe invadira os olhos cansados. Ao fim desse tempo, os missionários oraram de joelhos... Branda serenidade estabeleceu-se no vasto aposento. Em seguida, Saulo impôs-lhe as mãos na fronte e, com um suspiro de alívio, o velho israelita recobrou a vista, retirando -se confuso e sucumbido. O Procônsul, porém, vivamente interessado nos fatos intensos daquele dia, chamou os missionár ios em particular e falou sensibilizado: — Amigos, creio nas verdades divinas que anun ciais e desejo sinceramente compartilhar do Reino espe rado. Nada obstante, conviria inteirar me dos vossos objetivos de trabalho, dos vossos planos enfim. Estou ciente de que não mercadejais os dons espirituais de que sois portadores, e proponho me auxiliar-vos com os meus préstimos em tudo que me for possível. Poderia saber os projetos que vos animam? Os dois missionários entreolharam -se, surpresos. Barnabé ainda não havia saído do espanto que o companhei ro lhe causara. Saulo, por sua vez, mal dissimulava o próprio assombro pelo auxílio espiritual que obtivera no afã de confundir os maliciosos intuitos de Barjesus. Reconhecendo, contudo, o elevado e sincero inte resse do chefe político da província, esclareceu com jubi losos conceitos: — O Salvador fundou a religião do amor e da ver dade, instituição invisível e universal, onde se acolham todos os homens de boa -vontade. Nosso fim é dar feição visível à obra divina, est abelecendo templos que se irma nem nos mesmos princípios, em seu nome. Avaliamos a delicadeza de semelhante tentame e estamos crentes de que as maiores dificuldades vão surgir em nosso caminho. Ë quase impossível encontrar o cabedal humano indis pensável ao cometimento; mas é forçoso movimentar o plano. Quando falhem os elementos da instituição visível, esperaremos na igreja infinita, onde, nas luzes da univer salidade, Jesus será o chefe supremo de todas as forças que se consagrem ao bem. — Trata-se de sublime iniciativa — aparteou o Procônsul evidenciando nobre interesse. — Onde encetastes a construção dos santuários? — Nossa missão está começando precisamente agora. Os discípulos do Messias fundaram as igrejas de Jeru salém e Antioquia. Por enquanto, não temos outros núcleos educativos, além desses. Há muitos cristãos em toda parte, mas suas reuniões se fazem em domicílios particulares. Não possuem templos, propriamente, que os habilitem a mais eficiente esforço de assistência e propaganda. — Nea-Pafos terá, então, a primeira igreja, filha do vosso trabalho direto. Saulo não sabia como traduzir sua gratidão por aquele gesto de generosidade espontânea. Profundamente comovido, adiantou -se, então, e, com o cidadão cíprio, agradeceu a dádiva que vinha prestigi ar e facilitar a obra apostolar. Os três falaram ainda largo tempo sobre os em preendimentos em perspectiva. Sérgio Paulo pediu -lhes indicassem as pessoas capazes de construir o novo templo, enquanto Barnabé e o companheiro expunham suas eSperançaS. Somente à noite os missionários puderam voltar àtenda humilde das pregações. — Estou impressionado! — dizia Barnabé, recordando o ocorrido. — Que fizeste? Tenho para mim que hoje é o dia maior da tua existência. Tua palavra tinha um timbre sagrado e diferente; anima-te, agora, o dom das profecias... Além disso, o Mestre agraciou -te com o poder de dominar as idéias malignas. Viste como o charlatão sentiu a influência de energias poderosas quan do fizeste o teu apelo? Saulo ouviu atento e com a maior simplicidade acentuou: — Também não sei como traduzir meu espanto pelas graças obtidas. Foi pelo Cristo que nos tornamos instru mentos da conversão do Procônsul, pois a verdade é que de nós mesmos nada valemos. — Nunca esquecerei os acontecimentos de hoje —tornou o ex-levita, admirado. E depois de uma pausa: — Saulo, quando Ananias te batizou não chegou a sugerir a mudança do teu nome? — Não me lembrei disso. —Pois suponho que, doravante, deves considerar tua vida como nova. Foste iluminado pela graça do Mestre, tives te o teu Pentecostes, foste sagrado Após tolo para os labores divinos da redenção. O ex-doutor da Lei não dissimulou a própria admi ração e concluiu: — É muito significativo para mim que um chefe político seja atraído para Jesus, por nosso intermédio, mesm o porque, nossa tarefa conclama os gentios ao Sol divino do Evangelho de salvação. Intimamente, recordou os laços sublimes que o liga vam à memória de Estevão, a generosa influência do patrício romano que o libertara dos trabalhos duros da escravidão e, in vocando a memória do mártir, num apelo silencioso, falou comovido: — Sei, Barnabé, que muitos dos nossos companhei ros trocaram de nome quando se converteram ao amor de Jesus; quiseram assinalar desse modo sua separação dos enganos fatais do mundo. Não qui s valer-me do recurso, de qualquer modo.
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