Livros Espíritas
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Atingíramos largo recinto construído à feição de um pátio interior de proporções corretas e amplas. Tive a ideia de penetrar em enorme átrio, algo semelhante a certas estações ferroviárias terrestres, porque nas acomodações marginais, caprichosamente dispostas, se encontravam dezenas de entidades em franca expectativa. A dizer verdade, não vi sinais de alegria completa em rosto algum. Os grupos variados, alguns deles em discreto entendimento, dividiam-se entre a preocupação e a tristeza. De passagem, podíamos ouvir diálogos diferentes. Em círculo reduzido, registamos frases como estas: — Acreditas possa ela, agora, devotar-se à mudança justa? — Dificilmente. Centradizou-se, por muito tempo, no descontrole da própria vida. Mais além, escutamos dos lábios de uma senhora que se dirigia a um rapaz de agoniado semblante: — Meu filho, guarde serenidade. Segundo informações do Assistente Cláudio, seu pai não virá em condições de reconhecer-nos. Precisará muito tempo para retornar a si. Em trânsito, não assinalava senão alguns retalhos de conversação como esses. A certa altura, na praça em movimentação, Druso, generoso, confiou-nos aos cuidados de Silas, mencionando obrigações urgentes que lhe absorveriam a atenção. Encontrar-nos-íamos no dia seguinte, informou. A promessa gentil obrigou-me a considerar o aspecto do tempo. Pela sombra reinante, não poderíamos saber se era dia, se era noite. Por isso, o grande relógio, ali existente, com largo mostrador abrangendo as vinte e quatro horas, funcionou aos meus olhos como a bússola para o viajante, deixando-me perceber que estávamos em noite alta. Sons de campanas invisíveis cortavam agora o ar e, assinalando-nos a curiosidade, Silas esclareceu que a caravana-comboio penetraria no recinto em alguns minutos. Aproveitei os momentos para indagações que julguei necessárias. Que espécie de criaturas aguardávamos, ali? Recém-desencarnados em que condições? Como se organizaria a caravana-comboio? Vinha diariamente à instituição atendendo a horário certo? O companheiro, que se dispusera a assistir-nos, informou que as entidades prestes a entrarem integravam uma equipe de dezenove pessoas, acompanhadas por dez servidores da casa, que lhes orientavam a excursão, tratando-se de recém-desencarnados em posição de desequilíbrio, mas credores de imediata assistência, de vez que não se achavam em desesperação, nem se haviam comprometido de todo com as forças dominantes nas trevas. Notificou, ainda, que a caravana se constituía de trabalhadores especializados, sob a chefia de um Atendente, e que viajavam com simplicidade, sem carros de estilo, apenas conduzindo o material indispensável à locomoção no pesado ambiente das sombras, auxiliados por alguns cães inteligentes e prestimosos. A Mansão contava com dois grupos dessa natureza. Diariamente um deles atingia aquele domicílio de reajuste, revezando-se no piedoso mister socorrista. Entretanto, — aclarou, — não possuíam horário certo para a chegada, de vez que a peregrinação, pelos domínios das trevas, obedecia comumente a fatores circunstanciais. Mal terminara o interlocutor e a expedição penetrava o enorme átrio. Os cooperadores responsáveis exibiam calma perfeita, embora alguns deles evidenciassem funda preocupação no olhar. Os recolhidos, no entanto, exceção de cinco que vinham de maca, desmemoriados e dormentes, revelavam perturbações manifestas que, em alguns, se expressavam por loucura desagradável, se bem que pacífica. Enquanto os enfermeiros se desvelavam em ajudá-los, carinhosos e atentos, e os cães se deitavam, extenuados, aqueles seres recém-chegados falavam e reclamavam, demonstrando absoluta ausência mental da realidade e provocando piedade e constrangimento. Silas convidou-nos à movimentação. Efetivamente, cabia-nos algo fazer na cooperação. O chefe da caravana aproximou-se de nós e o Assistente no-lo apresentou num gesto amigo. Era o Atendente Macedo, valoroso condutor de tarefas socorristas. Afeiçoados e parentes dos recém-vindos cercavam-nos, agora, com expressões de alegria e sofrimento. Algumas senhoras que vira, antes, em ansiosa expectativa, derramavam lágrimas discretas. Notei que as criaturas recém-desligadas do corpo denso, conturbadas qual se achavam, traziam consigo todos os sinais das moléstias que lhes haviam imposto a desencarnação. Ligeiro exame clínico poderia sem dúvida favorecer a leitura da diagnose individual. Dama simpática abeirara-se de uma jovem senhora que vinha amparada pela ternura de uma das enfermeiras da instituição, e, abraçando-a, chorava sem palavras. A moça recém-liberta recebia-lhe os carinhos, rogando, comovente: — Não me deixem morrer!… Não me deixem morrer!… Mostrando-se enclausurada na lembrança dos momentos derradeiros no corpo terrestre, de olhos torturados e lacrimosos, avançou para Silas, exclamando: — Padre! Padre, deixa cair sobre mim a bênção da extrema-unção; contudo, afasta de minhalma a foice da morte!… Tentei apagar minha falta na fonte da caridade para com os desprotegidos da sorte, mas a ingratidão, praticada com minha mãe, fala muito alto em minha consciência infeliz!… Ah! Por que o orgulho me encegueceu, assim tanto, a ponto de condená-la à miséria?!… Por que não possuía eu, há vinte anos, a compreensão que tenho agora? Pobrezinha, meu padre! Lembra-se dela? Era uma atriz humilde que me criou com imensa doçura!… Concentrou em mim a existência… Da ribalta festiva, desceu a rude labor doméstico para conquistar nosso pão… Tinha a sociedade contra ela, e meu pai, sem ânimo de lutar pela felicidade de todos nós, deixou-a arrastar-se na extrema pobreza, acovardado e infiel aos compromissos que livremente assumira… A infortunada criatura fez ligeiro interregno, misturando as próprias lágrimas com as da nobre matrona que a conchegava de encontro ao peito e, de mente aprisionada à confissão que fizera “in extremis”, continuou qual se tivesse o sacerdote ao pé de si: — Padre, perdoe-me, em nome de Jesus, entretanto, quando me vi jovem a senhora do vultoso dote que meu pai me conferira, envergonhei-me do anjo maternal que sobre os meus dias estendera as brancas asas e, aliando-me ao homem vaidoso que desposei, expulsei-a de nossa casa!… Oh! ainda sinto o frio daquela terrível noite de adeus!… Atirei-lhe ao rosto frases cruéis… Para justificar minha vileza de coração, caluniei-a sem piedade!… Pretendendo elevar-me no conceito do homem que desposara, menti que ela não era minha mãe! Apontei-a como ladra comum que me roubara ao nascer!… Lembro-me do olhar de dor e compaixão que me lançou ao despedir-se… Não se queixou, nem reagiu… Apenas contemplou-me, tristemente, com os olhos túrgidos de chorar!… Nessa altura, a dama que a sustentava afagou-lhe os cabelos em desalinho e buscou reconfortá-la: — Não se excite. Descanse… Descanse… — Ah! Que voz é esta? — Bradou a moça a desvairar-se de angústia. E, tateando as mãos afetuosas que lhe acariciavam as faces, exclamou, sem vê-las: — Oh! Padre, dir-se-ia que ela se encontra aqui, junto de mim!… E, voltando, para o alto os olhos parados e súplices, rogava em pranto: — Ó Deus, não me deixeis encontrá-la, sem que pague os meus débitos!… Senhor, compadecei-vos de mim, pecadora que vos ofendi, humilhando e ferindo a amorosa mãe que me destes!… Com o auxílio de duas enfermeiras, porém, a simpática senhora que a acalentava situou-a em leito portátil e fê-la emudecer, à força de inexcedível ternura. Percebendo-me a emotividade, Silas, depois de amparar o serviço de acomodação da doente, explicou: — A dama generosa que a recolheu nos braços é a genitora que veio ao encontro da filha. — Que nos diz?! — Exclamou Hilário, assombrado. — Sim, acompanhá-la-á, carinhosamente, sem identificar-se, para que a pobre desencarnada não sofra abalos prejudiciais. O traumatismo perispirítico vale por muito tempo de desequilíbrio e aflição. — E por que motivo teria a doente decidido confessar-se, dessa maneira? — Perguntou meu colega, intrigado. — É fenômeno comum, — elucidou o Assistente. As faculdades mentais de nossa irmã sofredora estagnaram-se no remorso, em razão do delito máximo de sua existência última, e, desde que foi mais intensamente tocada pelas reflexões da morte, entregou-se, de modo total, a semelhantes reminiscências. Por haver cultivado a fé católica romana, imagina-se ainda diante do sacerdote, acusando-se pela falta que lhe maculou a vida… O espetáculo ferira-me, fundo. A rudeza do quadro que a verdade me oferecia obrigava-me a dolorida meditação. Não havia, então, males ocultos na Terra!… Todos os crimes e todas as falhas da criatura humana as revelariam algum dia, em algum lugar!… Silas entendeu a amargura de minhas reflexões e veio em meu socorro, observando: — Sim, meu amigo, você repara com acerto. A Criação de Deus é gloriosa luz. Qualquer sombra de nossa consciência jaz impressa em nossa vida até que a mácula seja lavada por nós mesmos, com o suor do trabalho ou com o pranto da expiação… E ante os apelos agoniados e afetivos nos reencontros a se processarem, ali, sob nossos olhos, em que filhos e pais, esposos e amigos se reaproximavam uns dos outros, o Assistente acrescentou: — Geralmente a estas plagas de inquietação aportam aqueles que trouxeram mais amplas faixas de inferno em si mesmos, cristalizando-se em perigosas ilusões, mas a Bondade Infinita do Senhor permite que as vítimas edificadas no entendimento e no perdão se transformem, felizes, em abnegados cireneus dos antigos verdugos.
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Reportamo-nos a regiões encravadas nos domínios do próprio globo terrestre, submetidas às mesmas leis que lhe regulam o tempo. — (Nota do Autor espiritual.)
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