Livros Espíritas
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Infelizmente para ela (ou felizmente), sua mediunidade não se enquadrava naquele tipo de trabalho e de modelo. Para sua desgraça maior (ou felicidade), ela ainda não aprendera a controlar as assinaturas das comunicações. Os espíritos escreviam seus textos por suas mãos e assinavam seus nomes verdadeiros. Isso "não estava bem", segundo lhe diziam com ar preocupado. Ela não tinha condições de receber certas entidades. Certa vez psicografou um belo soneto sobre a caridade, que foi muito apreciado. Ela, pessoalmente, embora dotada de boa cultura, não se dedicava à poesia, ainda mais àquele tipo de poesia tão pessoal, da notável brasileira que a assinou: Auta de Souza. Foi um deus nos acuda. Um dos dirigentes, também médium - não daquela modalidade -, chamou-a em particular e lhe fez uma preleção um tanto desajeitada sobre o cuidado que era preciso ter " com assinaturas de entidades importantes"! Aquilo era perigoso. Era muito cedo para ela estar recebendo tais entidades que só vinham por determinados médiuns de maior experiência mais prestígio e status. Ela ouviu em silêncio a preleção e registrou-a como nova contribuição à sua insegurança. Só podia a advertência ter um sentido: o dirigente da casa estava convicto de que o soneto não era de Auta de Souza e sim de um espírito mistificador que se aproveitara da inexperiência da pobre e bisonha médium. Cuidado! Era a palavra que ficara ressoando, como um eco, em sua memória ... Meu Deus, que dificuldade! ... Onde estava a saída daquele confuso emaranhado de atalhos e de perplexidades, de frustrações e desencantos? Era isso, então, a mediunidade? Seriam mesmo esses vexames e aflições necessários e indispensáveis ao seu exercício? Então não era um fenômeno natural, como sempre ela pensara? Que havia riscos, ela sabia. Lera sobre isso no próprio Kardec, mas por que estrangular o fenômeno no nascedouro, somente porque pairava sobre ele uma suspeita de suspeita? Era isso que ela não entendia. As coisas continuavam confusas e obscuras para ela. 11. TEORIA E PRÁTICA Pelo que podemos observar do relato contido nas páginas precedentes, são muitas e imprevistas as dificuldades a vencer na fase inicial da mediunidade. Não faltam turbulências, inquietações e perplexidades nem pessoas despreparadas, mas que se julgam 'entendidas', que não apenas podem complicar seriamente as coisas como até levar o médium iniciante a enveredar por atalhos nos quais acabará por perder-se. Suponhamos, contudo, que o sensitivo (homem ou mulher) tenha conseguido atravessar ileso ou apenas com algumas equimoses e cicatrizes de pequena monta, esse período de turbulência inicial. Está ciente de que dispõe de faculdades mediúnicas que precisam ser ajustadas e postas a serviço do próximo. Acabou conseguindo chegar são e salvo a um grupo confiável, onde é acolhido com boa vontade e compreensão. Tanto os livros da codificação como os demais autores responsáveis insistem em algumas constantes que não podem ser desatendidas sem grave prejuízo para o trabalho mediúnico que se programa: a primeira delas é o estudo teórico das questões pertinentes, em paralelo, com a experimentação. Kardec, em O livro dos médiuns, é incisivo: não há como diagnosticar, logo de início, esta ou aquela faculdade. Discorrendo sobre a psicografia, por ser de maneira geral uma das faculdades mais ambicionadas pelos iniciantes, diz ele: Ela se manifesta nas crianças e nos velhos, em homens e mulheres, quaisquer que sejam o temperamento, o estado de saúde, o grau de desenvolvimento intelectual e moral. Nenhum meio existe de se lhe comprovar a existência. É experimentar. (Kardec, Allan. 1975). Lembrando Paulo, segundo o qual " o espírito do profeta está sujeito ao profeta" (I Cor 14,32), Boddington, usualmente enfático, é ainda mais incisivo neste ponto ao escrever: Tais considerações demonstram a insensatez de tentar, primeiro, desenvolver a mediunidade e, depois, estudar o ABC do assunto (...). A recusa ao estudo prévio do assunto nasce da tola noção de que a mente muito cultivada é um empecilho à manifestação dos espíritos. Essa gente diz candidamente que 'jamais lê coisa alguma'. É esta teimosa ignorância que mantém baixo o conceito do espiritismo. (Boddington, Harry, 1948). Ressalvando que o livro se destina ao contexto espiritualista inglês e tem mais de quarenta anos de publicação, é preciso admitir que ele não deixa de ter fortes razões para assim enfatizar esse aspecto. Mesmo porque, como assinala mais adiante, o trato com os espíritos demonstra precisamente o contrário do que pensam os despreparados manipuladores da mediunidade: quanto melhor o cérebro, melhor o instrumento mediúnico. Isso porque os espíritos manifestantes trabalham de preferência com o 'material' armazenado no inconsciente do médium, ou seja, com os recursos que ele possui e que coloca à disposição do manifestante. Quanto melhor a qualidade e a variedade dos conhecimentos do médium, mais fácil e de melhor nível serão as comunicações. O que leva a complicações e até a obsessões graves é entregar-se cegamente à experimentação sem apoio, sem orientação e sem estudo. Muitos afirmam, orgulhosamente, que não precisam estudar porque aprendem com os próprios espíritos. Não é bem assim. Sem dúvida, o prolongado e disciplinado intercâmbio com espíritos de mais elevada condição evolutiva, como no caso do nosso querido Chico Xavier, contribui de maneira ponderável para o aprimoramento moral e intelectual do médium responsável, mas são os espíritos os primeiros e mais insistentes em recomendar ao médium que leia, estude, observe, medite, pergunte a quem saiba, permaneça vigilante e ore com freqüência paira manter o que amigos nossos costumam chamar de "teto espiritual". Por mais enfática que seja, a palavra de Boddington é irretocável: é, de fato, insensatez entregar-se à tarefa mediúnica sem uma noção teórica mínima do problema. Em nosso caso, não há desculpa nem evasivas; dispomos de O livro dos médiuns, que deve ser estudado - não apenas lido - pelos médiuns em formação; logo em seguida a O livro dos espíritos. O trabalho preliminar, portanto, consiste em estudo sistemático da doutrina em paralelo com a experimentação recomendada por Kardec. 12. DEFINIÇÕES E DECISÕES A mediunidade é uma faculdade tão natural quanto qualquer um dos cinco sentidos habituais. Por isso não é necessário nem possível criar a faculdade a partir do nada e sim descobri-la, ou seja, identificá-la e aprender a utilizar-se corretamente do que existe nas profundezas de nossa estrutura espiritual. De forma idêntica ou semelhante, aprendemos a correta utilização da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato. Tomemos o paladar para exemplo. Ninguém inventa essa faculdade inata, pronta para utilização, como que programada por milênios e milênios de experiência anterior, documentada na memória integral. É preciso, contudo, em cada existência que se reinicia, reaprender a utilizá-lo adequadamente para selecionar alimentos e definir preferências ou recusar substâncias prejudiciais. Não se pode afirmar que o paladar está sendo desenvolvido e sim que está sendo exercitado para que dele se faça bom uso. Os primeiros anos de uma criança são praticamente destinados a um aprendizado sobre a melhor maneira de utilizar-se do seu corpo físico. É como um sofisticado aparelho vivo que acabamos de receber de alguma loja, mas sem o respectivo manual de operação. As faculdades e potencialidades estão todas ali, à nossa disposição, mas alguém tem de nos ensinar, paciente e metodicamente, a melhor maneira de nos utilizarmos delas. Isso vai desde a alimentação e eliminação a hábitos de higiene, postura, linguagem ... é como caminhar: os primeiros passos são incertos e oferecem riscos de queda e por isso precisamos de amparo de pessoas mais velhas que nos transmitam o legado da sua experiência. O principal obstáculo na fase inicial do treinamento mediúnico está na ânsia prematura de obter mensagens reveladoras antes de um claro entendimento do processo e de suas dificuldades. Há tarefas no aprendizado que competem nitidamente ao médium realizar e ele não deve sobrecarregar os espíritos manifestantes, seus mentores ou guias, com obrigações e esforços de sua responsabilidade pessoal; mesmo porque em geral os primeiros espíritos que se aproximam de um médium iniciante são os de mais baixa condição, como assinalam os textos confiáveis de Kardec e de seus continuadores, especialmente nas manifestações que envolvam efeitos físicos, como deslocamento de objetos, ruídos, combustão e outras. O médium é que terá de esforçar-se por adotar uma disciplina pessoal que possibilite a aproximação de seus amigos espirituais. No livro A memória e o tempo, propus a teoria de que o consciente humano é apenas um dispositivo de passagem de informações, impressões e conceitos, como a cabeça de gravação/leitura de um gravador. Os imensos arquivos da memória ficam no inconsciente, como na memória de um computador super potente. É com esse material - tornamos a lembrar - que trabalham os espíritos manifestantes dotados de competência suficiente para manipular tais dispositivos. Por conseguinte, quanto mais rica a memória inconsciente, mais fácil o trabalho dos manifestantes, muito mais fácil do que se tiveram eles - e às vezes o fazem - de 'vestir' os conceitos que desejam transmitir com seus próprios recursos, uma vez que não os encontram, suficientes e adequados, nos arquivos inconscientes do médium. A abundância de material, digamos, de boa qualidade no psiquismo do médium resulta em economia de energia no processo, pois a entidade manifestante não terá de fazer o esforço conjugado de 'criar' ali as condições mínimas de que necessita para manifestar de maneira correta o seu pensamento.
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