Livros Espíritas
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É esta exagerada contenção dos médiuns - treinados para serem bem comportadinhos, com as mãos imobilizadas sobre a mesa, os olhos fechados, a voz controlada - o fator responsável por muitas dificuldades encontradas pelos grupos em ajudar certos espíritos que comparecem para serem tratados. Como ajudá-los, se o informe que recebemos deles não é a expressão dos seus problemas e sim, uma versão toda arrumadinha e comportada, produzida em segunda mão, pelo médium inibido? Tem de haver, portanto, um meio termo entre permitir que o espírito faça tudo quanto entender e como entender ou bloqueá-lo de tal maneira que ficamos sem saber das suas verdadeiras e profundas motivações. Não podemos exigir de um espírito que se sente indignado com uma situação, para ele das mais aflitivas, que se comporte como um bem-educado diplomata, numa conferência internacional de negociações políticas. Que não quebre a mesa com seus murros, é claro, mas que lhe seja permitido dizer dos sentimentos e das emoções que lhe sacodem o ser. O médium que não consegue esse equilíbrio entre os dois extremos não está corretamente preparado para a sua tarefa. Se bloquear demais estará dando a sua versão do conflito que lhe é mostrado, não o conflito mesmo, nas palavras, expressões, gestos e emoções de quem as sofre. Está, em suma, convertendo uma comunicação mediúnica numa narrativa anímica, fazendo chegar ao doutrinador a que ele entende ser a problema do comunicante, não o que este pensa e sente, em primeira mão. Não que se deva culpar o médium por essa atitude restritiva, mas à sua formação, que não foi adequada. Criou-se na mente de alguns responsáveis pela tarefa do treinamento dos médiuns tal pavor ante o fantasma do animismo que qualquer participação do médium na comunicação é considerada censurável e indesejável. No entanto, essa mesma mentalidade acaba empurrando o intermediário para o outro extremo, ao obrigá-lo ao que estou chamando de 'pasteurização' da comunicação, inibindo qualquer palavra mais ríspida, qualquer gesto ou tom de voz diferente. Para esses dirigentes, o médium tem de falar com a sua própria voz, sem movimentar as mãos, sem abrir os olhos, sem deixar passar expressões que, afinal de contas, autenticam a presença de uma entidade com tais ou quais problemas. Pois não é totalmente diferente da sua a personalidade do ser que ali está, tentando comunicar- se?Como vamos exigir que sejam idênticos na maneira de expressar-se? Creio que a autonomia das entidades manifestantes ficou bem caracterizada em cerca de meia centena de narrativas reunidas sob o título: Histórias que os Espíritas Contaram. Cada narrador é uma personalidade bem marcada nas suas atitudes, na linguagem, no tom de voz, na sua postura ante a vida. Se os dirigentes criarem exageradas inibições no médium este não conseguirá dar autenticidade à comunicação. E mais: o espírito manifestante não logrará sequer discordar do doutrinador por causa da dominação que este exerce sobre o médium. Não que sua autoridade se estenda ao espírito, mas é que o médium acaba, com as suas inibições, inibindo o manifestante. Como vimos ainda há pouco, o espírito só consegue dizer impropérios quando encontra campo para isso no médium, da mesma forma, não consegue dizê-las, ainda que o desejasse, se o médium não lhe dá condições. Como dissemos, o médium não tem, neste caso, as tomadas próprias. Da mesma forma, se o médium trabalha assustado, temendo a autoridade inibidora do doutrinador, a comunicação se trunca e se deforma irremediavelmente. Há doutrinadores desastrados que, terminada a sessão, se dirigem aos médiuns para censurá-los, publicamente, por terem permitido que o espírito alterasse a voz, manifestasse sua indignação de maneira mais veemente ou ousasse discordar dele, doutrinador. E lá vem a recomendação: - É preciso controlar essas expansões indesejáveis. Mas, Deus do céu, o espírito não está ali precisamente para debater seus problemas, mostrar a sua indignação e dizer por que razão está indignado? Como fazê- lo com as mãos tranqüilamente depositadas sobre a mesa os olhos fechados, a voz monocórdia, inexpressiva, sem um gesto, sem um olhar, sem uma palavra mais veemente? A essa altura, não é mais o espírito que se manifesta e, sim, aquilo que o médium permite que seja peneirado. Aí, sim, o fenômeno terá muito mais de animismo do que de mediunidade. O assunto exige ainda algumas explorações adicionais, em maior profundidade, porque, no grupo em que Regina colabora com a sua mediunidade, também praticamos a regressão da memória nos espíritos, por meio da magnetização. 8. REGRESSÃO DA MEMÓRIA E MEDIUNIDADE Duas posturas essenciais é necessário colocar aqui. Primeira: é preciso deixar falar o espírito tão livremente quanto possível dentro das normas habituais de procedimento, a fim de que possamos ter uma visão nítida da problemática. Do contrário, não poderemos ajudá-la. E mais: nessa fase de exame, nas profundezas das suas dores, ele não deve estar magnetizado ou hipnotizado e, portanto, deve preceder a qualquer tentativa de magnetização para que ele fale exatamente o que sente no momento. Segunda Observação: mesmo depois de hipnotizado ou magnetizado e regredido no tempo, em busca de suas memórias pregressas, ele não está à mercê da vontade e do arbítrio do doutrinador ou magnetizador. É certo que ele experimenta sempre, uma compulsão de dizer coisas que, sob condições normais, não diria; não, porém, que isso seja induzido. Ouvimos, com freqüência ele (ou ela) declarar que não sabe por que está dizendo isto ou aquilo. Observamo-lo inicialmente, a resistir à magnetização e, posteriormente, a relutar em dizer o que ele sabe que precisa dizer. Nunca, porém, é forçado a dizer o que não quer. Pelo contrário, freqüentemente pedimos que ele diga apenas o que deseja; o objetivo da regressão - dizemos - não é forçá-lo a contar a sua história para satisfazer eventuais curiosidades, mas para que tome conhecimento dos fantasmas e das aflições que traz arquivados na sua memória e que ele bloqueou para esconder-se, por algum tempo da dor. Por isso, hipnotizado ou não, o espírito não apenas é deixado livre para expressar seu pensamento e suas emoções, mas até estimulado a fazê-lo a fim de que possamos avaliar toda a extensão de sua dor, de suas angústias e podermos, dessa maneira, ajudá-lo a resolver seus 'impasses'. Do tema específico da regressão da memória cuidou o livro A memória e o tempo, ao passo que algumas referências constam de Diálogo com as sombras. Julgo oportuno, contudo, uma breve notícia aqui. Depois de alguns anos de pesquisa teórica e experimental com a regresssão da memória em seres encarnados, comecei a aplicá-la, como valioso instrumento auxiliar, ao trabalho mediúnico em geral e, de modo especial, aos casos de doutrinação. A técnica é de grande eficácia nos casos em que o espírito manifestante se coloca obstinadamente na posição de quem está apenas cobrando uma dívida, no exercício pleno de um direito que lhe asseguram as leis divinas, ao vingar-se de alguém que, no passado, tenha cometido contra ele atrocidades e arbitrariedades. Em princípio, isso é verdadeiro, pois é fato que a lei autoriza, ou melhor, tolera ou permite a cobrança da dívida cármica. O Cristo advertiu, a propósito, que o pecador é escravo do pecado, que nossas faltas nos seriam cobradas até o último centavo e que não insistíssemos nelas para que não nos acontecesse ainda pior. Não há dúvida, portanto, de que ele caracterizou, com nitidez incontroversa, a conexão entre erro e dor, crime e reparação. Isso não quer dizer, contudo, que a vítima tenha de tomar a vingança em suas mãos ou assumir a postura de cobrador para que a reparação se faça perante a lei cósmica que regula o equilíbrio ético do universo. Quer ele se vingue ou não, o devedor tem seus ajustes programados inapelavelmente perante essa lei 'imburlável', como todas as que compõem o código divino. Antes de ser cometida contra indivíduos, as nossas faltas são primariamente contra a lei, e à lei teremos de responder por elas, mais do que à vítima. E, por isso, quando alguém assume o papel do vingador ou do cobrador, dá-se mal, porque reabre o ciclo da dor que virá como reação futura. E foi por isso que o Cristo prescreveu o perdão universal, setenta vezes sete, porque, perdoando, estamos nos libertando da dor; caberá ao algoz fazer o mesmo, pelos processos que lhe forem prescritos no devido tempo. O problema é que isto é filosofia demais para quem está condicionado ao ódio, à devoradora paixão da vingança. Tem-se a ilusão de que a vingança aplaca as dores, quando as cultiva e nutre, prolongando-as no tempo. Acha-se que, vingando, se liberta quando, ao contrário, fica-se preso ao antigo algoz, convertido em vítima. E não há como sair, à simples força de argumentos desse terrível círculo vicioso. É diante de semelhante impasse que costumamos recorrer à técnica de regressão da memória, para que o vingador seja confrontado com o seu passsado e se certifique das razões pelas quais sofreu as aflições que lhe foram impostas pela sua vítima de hoje. Da mesma forma que esta vítima abriu suas guardas e se expôs aos impactos do ódio, submetendo-se aos trâmites da vingança porque errou contra o seu carrasco de hoje, este sofreu anteriormente porque a mesma lei atuou, em sentido inverso, ou seja, sobre ele, cobrando-lhe alguma falta cometida contra alguém. O objetivo da regressão, portanto, é ir buscar, na memória do vingador de hoje, o episódio que o expôs aos rigores da lei, quando sofreu nas mãos do seu adversário. Se está se vingando, por exemplo, porque lhe exterminara a família e lhe tomaram os bens, é certo que acabaremos dando com um episódio documentado na sua memória em que ele próprio destruiu, a sangue frio, famílias inteiras e usurpou bens alheios.
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