Livros Espíritas
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A religião não foi mais feliz; usou suas munições contra os diabos, sem poder chamá-los à razão. Então os diabos são mais fortes, a menos que não sejam diabos. Seus constantes reveses, em casos semelhantes, provam uma de duas coisas: ou que ela não está com a verdade, ou que é vencida por seus inimigos. O mais claro de tudo isto é que nada do que empregaram deu resultado e melhor resultado não obterão enquanto se obstinarem a não buscar a verdadeira causa onde ela está. Um estudo atento dos sintomas demonstra, como última evidência, que sua causa está na ação do mundo invisível sobre o mundo visível, ação que é a fonte de mais afecções do que se pensa, e contra as quais a Ciência falha pela razão de que combate o efeito e não a causa. Numa palavra, é o que o Espiritismo designa sob o nome de obsessão, levada ao mais alto grau, isto é, de subjugação e de possessão. As crises são efeitos consecutivos; a causa é o ser obsessor. É, pois, sobre este ser obsessor que se deve agir, como se age sobre os vermes nas convulsões por eles ocasionadas. Sistema absurdo, dirão. Absurdo para os que nada admitem fora do mundo tangível, mas muito positivo para os que constataram a existência do mundo espiritual e a presença de seres invisíveis à nossa volta; sistema, aliás, baseado na experiência e na observação, e não numa teoria preconcebida. A ação de um ser invisível malfazejo foi constatada numa imensidão de casos isolados, tendo completa analogia com os fatos de Morzine, donde é lógico concluir que a causa seja a mesma, uma vez que os efeitos são semelhantes; a diferença está apenas no número. Todos os sintomas, sem exceção, observados nos doentes daquela localidade, o foram em casos particulares de que falamos. Ora, desde que libertaram os doentes atingidos pelo mesmo mal, sem exorcismo, sem medicamentos e sem polícia, o que se fez alhures poderia ser feito em Morzine. Se é assim, perguntarão, por que os recursos espirituais empregados pela Igreja são ineficazes? Eis a razão. A Igreja acredita nos demônios, isto é, numa categoria de seres de natureza perversa, e votados eternamente ao mal, por conseguinte, imperfectíveis. Com esta idéia, ela não procura melhorá-los. O Espiritismo, ao contrário, reconheceu que o mundo invisível é composto de almas ou Espíritos dos homens que viveram na Terra e que, depois da morte, povoam o espaço; nesse número os há bons e maus, como entre os homens. Dos que se regozijavam em vida em praticar o mal, muitos ainda se comprazem em fazê-lo após a morte; mas, pelo fato de pertencerem à Humanidade, estão submetidos à lei do progresso e podem melhorar-se. Não são, pois, demônios, como o entende a Igreja, mas Espíritos imperfeitos. Sua ação sobre os homens se exerce, ao mesmo tempo, sobre o físico e o moral. Daí uma porção de afecções que não têm sede no organismo, loucuras aparentes refratárias a qualquer medicação. É um novo ramo da patologia, que se pode designar sob o nome de patologia espiritual. A experiência ensina a distinguir os casos desta categoria dos que pertencem à patologia orgânica. Não nos propomos descrever o tratamento das afecções desse gênero, porque já foi indicado alhures. Limitar-nos-emos a lembrar que consiste numa tripla ação: a ação fluídica, que libera o perispírito do doente da opressão do perispírito do Espírito malévolo, o ascendente exercido sobre este último pela autoridade que sobre ele dá a superioridade moral, e a influência moralizadora dos conselhos que se lhe dá. A primeira não passa de acessório das duas outras; sozinha ela é insuficiente, porque, caso se consiga, momentaneamente, afastar o Espírito, nada o impede de voltar à carga. É a fazê-lo renunciar voluntariamente a seus maus propósitos que nos devemos empenhar, moralizando-o. É uma verdadeira educação a fazer, que exige tato, paciência, devotamento e, acima de tudo, uma fé sincera. Prova a experiência, pelos resultados obtidos, o poder deste meio; mas também demonstra que, em certos casos, é necessário o concurso simultâneo de várias pessoas, unidas na mesma intenção. Ora, que faz a Igreja em semelhantes casos? Convicta de que trata com demônios incorrigíveis, não se ocupa absolutamente com a sua melhora; crê amedrontá-los e afastá-los por sinais, fórmulas e aparatos de exorcismo, de que eles se riem e se tornam mais excitados, redobrando a malícia, como sempre sucedeu quando tentaram exorcizar os lugares em que se produzem barulhos e perturbações. É fato confirmado pela experiência que os sinais e os atos exteriores nenhum poder exercem sobre eles, ao passo que se tem visto os mais endurecidos e perversos Espíritos cederem a uma pressão moral e voltarem aos bons sentimentos. Tem-se, então, a dupla satisfação de livrar o obsidiado e de reconduzir a Deus uma alma transviada. Talvez perguntem por que os espíritas – já que estão convencidos da causa do mal e dos meios de o combater – não foram a Morzine para ali operar seus milagres? Em primeiro lugar, os espíritas não fazem milagres; a ação curativa que se pode exercer em semelhantes casos nada tem de maravilhoso, nem de sobrenatural; repousa numa lei da Natureza: a das relações entre o mundo visível e o mundo invisível, lei que, dando a razão de certos fenômenos incompreendidos, por falta de conhecimento, vem restringir os limites do maravilhoso, em vez de os alargar. Em segundo lugar, dever-se-ia perguntar se o seu concurso teria sido aceito; se não teriam encontrado uma oposição sistemática; se, longe de serem secundados, não teriam sido entravados pelos próprios que fracassaram; se não teriam sido insultados e maltratados por uma população superexcitada pelo fanatismo, acusados de feitiçaria junto aos próprios doentes e de agirem em nome do diabo, como se viram amostras em certas localidades. Nos casos individuais e isolados, os que se devotam ao alívio dos aflitos geralmente são auxiliados pela família e pela vizinhança, muitas vezes pelos próprios doentes, sobre o moral dos quais devem atuar, por meio de palavras boas e encorajadoras, que devem excitar a prece. Semelhantes curas não se obtêm instantaneamente. Os que as empreendem necessitam de calma e de profundo recolhimento. Nas circunstâncias atuais, essas condições seriam possíveis em Morzine? É mais que duvidoso. Quando vier o momento de deter o mal, Deus o proverá. Aliás, os fatos de Morzine e sua continuação têm sua razão de ser, assim como as manifestações do mesmo gênero em Poitiers. Eles se multiplicarão, quer isolada, quer coletivamente, a fim de convencer da impotência dos meios até agora empregados para lhes pôr um termo, e para forçar a incredulidade a reconhecer, enfim, a existência de um poder extra-humano. Para todos os casos de obsessão, de possessão e de quaisquer manifestações desagradáveis, chamamos a atenção sobre o que, a respeito, diz O Livro dos Médiuns, capítulo da obsessão; sobre os artigos da Revista relativos a Morzine e referidos acima; sobre nossos artigos dos meses de fevereiro, março e junho de 1864, concernentes à jovem obsedada de Marmande; enfim, sobre os nos 325 a 335 da Imitação do Evangelho. Aí encontrarão as instruções necessárias para se guiarem em circunstâncias análogas.
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