Livros Espíritas
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Não foi um sentimento de hostilidade ou de malevolência que ditou estas páginas. Malevolência não a tem por nenhuma idéia, por pessoa alguma. Quaisquer que sejam os erros ou as faltas dos que se acobertam com o nome de Jesus e sua doutrina, o pensamento do Cristo em nós não desperta senão um sentimento de profundo respeito e de sincera admiração. Educado na religião cristã, conhecemos tudo o que ela encerra de poesia e de grandeza. Se abandonamos o domínio da fé católica pelo da filosofia espírita, não esquecemos por isso as recordações da nossa infância, o altar ornado de flores diante do qual se inclinava a nossa fronte juvenil, a grande harmonia dos órgãos, sucedendo aos cantos graves e profundos, e a luz coada através dos vitrais coloridos, a brincar no ladrilhado solo, entre os fiéis prosternados. Não esquecemos que a austera cruz estende os seus braços por sobre o túmulo dos que mais amamos neste mundo. Se há para nós uma imagem sagrada, entre as veneráveis, é a do supliciado do Calvário, do mártir pregado ao madeiro infamante, ferido, coroado de espinhos e que, ao expirar, perdoa aos seus algozes. Ainda hoje é com viva emoção que escutamos os longínquos convites dos sinos, a voz de bronze, que vão acordar os sonoros ecos dos bosques e dos vales. E, nas horas de tristeza, praz-nos meditar na igreja silenciosa e solitária, sob a penetrante influência que nela acumularam as preces, as aspirações, as lágrimas de tantas gerações. Uma questão, porém, se impõe, questão que muitos resolveram mediante o estudo e a reflexão. Todo esse aparato que impressiona os sentidos e move o coração, todas essas manifestações artísticas, pompa do ritual romano e o esplendor das cerimônias não são como um brilhante véu que oculta a pobreza da idéia e a insuficiência do ensino? Não foi a convicção da sua impotência para satisfazer as elevadas faculdades da alma, a inteligência, o discernimento e a razão, o que impeliu a Igreja para o caminho das manifestações exteriores e materiais? O protestantismo, ao menos, é mais sóbrio. Se desdenha as formas, a decoração, é para melhor fazer sobressair a grandeza da idéia. Estabelece a autoridade exclusiva da consciência e o culto do pensamento, e de degrau em grau, de conseqüência em conseqüência, conduz logicamente ao livre exame, isto é, à filosofia. Conhecemos tudo o que a doutrina do Cristo encerra de sublime; sabemos que ela é por excelência a doutrina do amor, a religião da piedade, da misericórdia, da fraternidade entre os homens. Mas a doutrina de Jesus é a que ensina a Igreja Romana? A palavra do Nazareno nos foi transmitida pura e sem mescla, e a interpretação que dela nos dá a Igreja é isenta de todo elemento estranho ou parasita? Não há questão mais grave, mais digna da meditação dos pensadores, como da atenção de todos os que amam e procuram a verdade. É o que nos propomos examinar na primeira parte desta obra, com o auxílio e a inspiração dos nossos guias do espaço, afastando tudo o que poderia perturbar as consciências, excitar as más paixões, fomentar a divisão entre os homens. É verdade que esse trabalho foi, antes de nós, empreendido por outros. Mas o objetivo destes, seus meios de investigação e de crítica eram diferentes dos nossos. Procuram menos edificar que destruir, ao passo que, antes de tudo, quisemos fazer obra de reconstituição e de síntese. Consagramo-nos à tarefa de destacar da sombra das idades, da confusão dos textos e dos fatos, o pensamento básico, pensamento de vida, que é a fonte pura, o foco intenso e radioso do Cristianismo, e, ao mesmo tempo, explicar os estranhos fenômenos que caracterizam as suas origens, fenômenos renováveis sempre, que efetivamente se renovam todos os dias sob os nossos olhos e podem ser explicados mediante leis naturais. Nesse pensamento oculto, nesses fenômenos até agora inexplicados, mas que uma nova ciência observa e registra, encontramos a solução desses problemas que há tantos séculos pairam sobre a razão humana: o conhecimento da nossa verdadeira natureza e a lei dos nossos destinos progressivos. Uma das mais sérias objeções lançadas ao Cristianismo pela crítica moderna é que a sua moral e a sua doutrina da imortalidade repousam sobre um conjunto de fatos ditos “miraculosos”, que o homem esclarecido relativamente à ação das leis da natureza não poderia hoje admitir. Se milagres, acrescentam, puderam ser outrora necessários para fundar a crença na outra vida, sê-lo-ão menos em nossa época de dúvida e de incredulidade? E, além disso, a que causa atribuir esses milagres? Não é, como alguns o pretenderam, à natureza divina do Cristo, porquanto seus discípulos igualmente os obtinham. A questão, porém, ficará esclarecida por uma luz intensa, e as afirmações do Cristianismo relativamente à imortalidade adquirirão mais força e autoridade, se for possível estabelecer que esses fatos, ditos “miraculosos”, se produziram em todos os tempos, particularmente em nossos dias; que eles são o resultado de causas livres, invisíveis, que perpetuamente atuam, submetidas, porém, a imutáveis leis, se neles, em uma palavra, já não vemos milagres, mas fenômenos naturais, uma forma da evolução e da sobrevivência do ser. É precisamente esta uma das conseqüências do Espiritismo. Por um aprofundado estudo das manifestações do além-túmulo, ele demonstra que esses fatos ocorreram em todas as épocas, quando as perseguições não lhes opunham obstáculos; que quase todos os grandes missionários, os fundadores de seitas e de religiões foram médiuns inspirados; que uma perpétua comunhão une duas humanidades, ligando aos do mundo terrestre os habitantes do espaço. Esses fatos se reproduzem em torno de nós com renovada intensidade. Desde há cinqüenta anos aparecem formas, fazem-se ouvir vozes, chegam-nos comunicações por via tipológica ou de incorporação, assim como pela escrita automática. Provas de identidade, em profusão, vêm revelar-nos a presença de nossos parentes, dos que na terra amamos, que foram a nossa carne e o nosso sangue, e dos quais nos havia momentaneamente a morte separado. Em suas práticas, em seus ensinos, aprendemos a conhecer esse Além misterioso, objeto de tantos sonhos, debates e contradições. Em nosso entendimento se acentuam e definem as condições da vida ulterior, dissipa-se a obscuridade que reinava sobre tais questões. O passado e o futuro se esclarecem até o mais íntimo de suas profundezas. Assim o Espiritismo nos oferece as provas naturais, tangíveis, da imortalidade e por esse meio nos conduz às puras doutrinas cristãs, ao próprio âmago do Evangelho, que a obra do Catolicismo e a lenta edificação dos dogmas mal cobriram de tantos elementos incongruentes e estranhos. Graças ao seu estudo escrupuloso do corpo fluídico, ou perispírito, ele torna mais compreensíveis, mais aceitáveis, os fenômenos de aparições e materializações, sobre as quais o Cristianismo repousa integralmente. Estas considerações melhor farão sobressair a importância dos problemas suscitados no curso desta obra e cuja solução oferecemos, apoiando-nos ao mesmo tempo nos testemunhos de sábios imparciais e esclarecidos e nos resultados de experiências pessoais, realizadas consecutivamente há mais de trinta anos. Sob esse ponto de vista, a oportunidade do presente trabalho a ninguém decerto escapará. Nunca a necessidade de esclarecimento das questões vitais, a que se acha indissoluvelmente ligada à sorte das sociedades, se fez sentir de modo mais imperioso. Cansado de dogmas obscuros, de interesseiras teorias, de afirmações sem provas, o pensamento humano há muito se deixou empolgar pela dúvida. Uma crítica inexorável joeirou rigorosamente todos os sistemas. A fé se extinguiu em sua própria fonte; o ideal religioso desapareceu. Concomitantemente com os dogmas, perderam o seu prestígio as elevadas doutrinas filosóficas. O homem esqueceu ao mesmo tempo o caminho dos templos e dos pórticos da sabedoria. Para quem quer que observe atentamente as coisas, os tempos que vivemos estão carregados de ameaças. Parece brilhante a nossa civilização e, todavia, quantas manchas lhe obscurecem o esplendor! O bem-estar e a riqueza se têm espalhado, mas é acaso por suas riquezas que uma sociedade se engrandece? O objetivo do homem na terra é, porventura, levar uma vida faustosa e sensual? Não! Um povo não é grande, um povo não se eleva senão pelo trabalho, pelo culto da justiça e da verdade. Em que se tornaram as civilizações do passado, aquelas em que o indivíduo não se preocupava senão com o corpo, com as suas necessidades e as suas fantasias? Acham-se em ruínas; estão mortas. Voltamos a encontrar, precisamente em nossa época, as mesmas tendências perigosas que as perderam: são as que consistem em tornar tudo adstrito à vida material, em constituir objeto e fim da existência a conquista dos prazeres físicos. A crítica e a consciência materialistas restringiram os horizontes da vida. Às tristezas da hora presente acrescentaram a negação sistemática, a acabrunhadora idéia do nada. E por esse modo agravaram todas as misérias humanas; arrebataram ao homem, com as mais seguras armas morais de que dispunha, o sentimento de suas responsabilidades; abalaram até às suas profundezas o próprio foro íntimo do eu. Assim, gradualmente, os caracteres se vão abatendo, a venalidade cresce, a imoralidade se alastra como imensa chaga. O que era sofrimento se converteu em desespero. Os casos de suicídio se têm multiplicado em proporções até aqui desconhecidas – coisa monstruosa e que em nenhuma outra época se viu: este flagelo do século até as próprias crianças tem contaminado. Contra essas doutrinas de negação e morte falam hoje os fatos. Uma experimentação metódica, prolongada, nos conduz a esta certeza: o ser humano sobrevive à morte e o seu destino é obra sua.
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